Colunista
Andrea Greca Krueger

08.08.12
A alegria da descoberta

Fazia tempo, talvez desde que comecei a pós-graduação em Coolhunting em Barcelona há cinco anos, que não me via perdidamente apaixonada por uma ideia. E como toda mulher arrebatada por uma paixão violenta, tudo começa e termina no objeto de minha afeição.

Ano passado comecei a estudar psicanálise. Não a fazer psicanálise, mas a estudá-la. O curso tinha duração de um ano. Terminei e estou fazendo outra vez. Tudo de novo. E ano que vem vou me rematricular. Mas isso não é sério – pelo menos o professor não acha, então (ufa!) tá tudo certo. Tem um colega que está no sexto ano. Bem que dizem que a alta do divã é algo que leva tempo. Mas isso não importa, a questão é que não há nada mais, como dizer, xamanístico e transcendental do que os loucos caminhos do inconsciente. O povo cult chegado na temática psicodélica ao invés de posar de cool com beatniks, Castañeda, Huxley, Leary & cia. debaixo do braço deveria mesmo é ler o mais frenético de todos: Sigmund Schlomo Freud.

Como pesquisadora, meu objeto primordial de estudo é o ser humano e sua subjetividade – principalmente sobre escolhas de consumo. E é justamente neste ponto crucial que a psicanálise tem me ajudado, em especial o texto de 1921 “A Psicologia das Massas e a Análise do Eu”. Na obra, Dr. Sigmund discorre sobre o efeito do grupo sobre o indivíduo. (O mais fascinante é ter acesso a estudos e teorias sobre coisas que já me haviam passado, de maneira muito abstrata é claro, pela cabeça.) Freud recorre ao francês Gustave Le Bon, cujas ideias incluem as teses precursoras sobre a psicologia de massas e o comportamento de manada, para nos contar um pouco sobre uma certa “alma coletiva” que surge quando pessoas se reúnem em torno de algo ou alguém. “Se a psicologia que procura as disposições, os impulsos instintuais, os motivos, as intenções do indivíduo nas suas ações e nas relações com os mais próximos tivesse cumprido cabalmente a sua tarefa e tornado transparentes todos esses nexos, depararia subitamente como um novo problema, não resolvido”, provoca. A questão mal explicada e “surpreendente” é o fato de que o indivíduo, já compreensível pela psicologia, em determinada condição pensa, sente e age de modo completamente distinto do esperado, alinhado numa multidão que adquiriu a característica de uma “massa psicológica”. Trocando em miúdos, e agradeço aqui ao professor Célio Pinheiro pela condução da análise, quando estamos em grupo agimos de uma maneira diferente do que se estivéssemos sozinhos. Agora pensem como isso faz sentido. A ideia é hoje difundida e bastante conhecida, está na boca do povo: “fulana é uma Maria vai com as outras”, “aqueles lá são farinha do mesmo saco”, “se beltrano se atirar do penhasco você vai junto?”. Conjecturar sobre o impacto que essa e outras ideias (em se tratando de Freud, defender a psicologia das massas deve ter sido light) causaram na sociedade há mais de um século é estimulante e inspirador.

Porém, o mais estupefante a respeito de grandes pensadores como Copérnico, Darwin e o próprio Freud, homens que estavam totalmente à frente do tempo, visionários, corajosos e, esses sim, seres iluminados que trouxeram também luz ao pensamento da humanidade, é a bravura com que conduziram pesquisas e expuseram ideias. Para nossa alegria, almas inquietas e pouco resignadas que não se deixaram calar. A verdade é que o Dr. Freud torceria o nariz se eu lhe dissesse: o senhor é um homem iluminado, com um dom e uma inteligência que só podem ser obra de Deus. Com certeza ele recomendaria, muito polidamente, que eu procurasse o Dr. Jung.










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