Colunista
Andrea Greca Krueger

28.08.12
Luxus!

Luxo. Palavra que deriva do latim luxus e, segundo dicionários, tem o significado intimamente ligado a coisas grandiosas como abundância, profusão, suntuosidade e esplendor. Fora do sentido semântico e pendendo um pouco mais para a vida em carne e osso, pode-se dizer que o luxo tangível, ou seja, em forma material (aquele que conseguimos ver... e cobiçar) foi “inventado” simplesmente para diferenciar indivíduos. Desde que o homo virou sapiens, o desejo de se destacar foi responsável por verdadeiras maravilhas e também tragédias escabrosas na história da humanidade.

O LUXO ANTIGO No ano 40.000 a.C., os xamãs, primeiros líderes de que se tem notícia, se destacavam entre os reles mortais da tribo através de vestimentas elaboradas com ossos e plumas coloridas. O tratamento diferenciado resultava da crença de que eles eram seres dotados de poderes extramateriais, que incluíam, além da espiritualidade aguçada, capacidade de liderança - traço importante na hora de encabeçar a caça, essencial para a sobrevivência antes da agricultura. Tempos mais tarde, no Egito dos faraós, apenas as classes do topo da severa pirâmide social tinham acesso a bens como peças em ouro, prata e lápis lazúli. Governantes e sacerdotes eram os únicos que podiam carregar suas riquezas para a vida além-túmulo – o que incluía uma horda de pobres escravos, obrigados, quiçá, a partir antes da hora. Na Idade Média, artesãos se reuniam em oficinas, onde produziam todo tipo de iguaria com garantia de qualidade e procedência para satisfazer os sentidos dos nobres - um processo semelhante ao mercado de luxo como o conhecemos atualmente (pense em marcas como Hermès e Louis Vuitton). Nessa época, havia um tipo de roupa para cada classe social e a vida luxuosa não era vista com bons olhos. “Até o século 17, o luxo tinha um significado negativo de autoindulgência e privilegiação das satisfações carnais”, diz o britânico Christopher Berry, autor de The Idea of Luxury: A Conceptual and Historical Investigation. “O luxo tornou certas sociedades militarmente fracas, levando-as a contratar exércitos mercenários enquanto se dedicavam a atividades econômicas de interesse restrito, em detrimento do bem público”. A visão sobre o luxo mudou bastante após esse período graças a eventos globalmente impactantes como a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, e, consequentemente, os hábitos de consumo a ele relacionados também adquiriram uma nova figura. “A partir daí, o luxo passou a ser julgado favoravelmente como um incentivo, afirma Berry. “Ele representava a visão realista de que os seres humanos são motivados por seus desejos, e que ter a liberdade de buscar esses desejos era moralmente defensável”.

O LUXO MODERNO O início da chamada pós- modernidade tem como marco a queda do Muro de Berlim em 1989. Com o concreto e o arame farpado também tombaram velhos paradigmas: verdades consideradas absolutas deram espaço a novos desejos sociais que desafiavam o caquético establishment, conservador e preconceituoso. Como consequência de um mundo agora apto para se tornar a aldeia global prevista por McLuhan quarenta anos antes, o conceito de luxo passa a se desdobrar de diferentes formas e rapidamente. Você lembra, por exemplo, o que era luxo nos anos 90, a famigerada, egoística, individualista e malvada última década no século 20? Começava a insanidade hiperconsumista, as marcas tornavam-se os novos deuses e a ambição dos yuppies arrebatava sonhos de homens, que queriam ser como eles, e mulheres, que não desejavam exatamente tê-los como marido, mas que almejavam suas posições no mundo corporativo. “Casar? Que coisa mais careta!”, bradava a primeira geração de feministas em massa. O american dream ditava que o estilo de vida dos vencedores dirigia carros esporte e morava em apartamentos enormes. Tudo, claro, caríssimo.

ADMIRÁVEL LUXUS NOVO O cenário começa a mudar na primeira década deste século, um período marcado pelo medo. Medo do terrorismo e da crise financeira. Medo da violência. Medo da Aids. Os noughties – como ficou conhecido o período entre 2000 e 2010, uma alusão irônica à palavra nought, sinônimo de zero/nada - não apenas comprimiram severamente a capacidade criativa dos jovens (tema para outra coluna: a Retrômania), mas também marcaram um tempo de mudança sem precedentes. Os mais radicais, como os ativistas do Adbusters, que organizam os movimentos #occupy, já declararam a morte do capitalismo enquanto outros tentam salvá-lo. Para os que estão no topo da pirâmide social há mais tempo, uma nova percepção do luxo emerge. A ostentação nunca esteve tão em baixa e fora de propósito. De repente, vemos algo que não se compra, uma “coisa” invisível que não tem forma, cheiro, marca ou cor no topo da lista de desejos dos endinheirados - e não apenas deles. Num piscar de olhos, o tempo se converte no mais almejado dos luxos. Ele, que não pode ser comprado, que não tem preço mas tem valor, é caríssimo como o lápis lazúli dos egípcios, as iguarias dos artesãos medievais e os apartamentos dos yuppies. Tão caro quanto a família, os amigos, um trabalho prazeroso, a liberdade, a saúde; quanto levar o filho à escola e desfrutar de uma boa noite de sono. Esse é o novo luxo, o luxo pós-crise, um luxo consciente e humano. O luxo simples, pois, na essência, ele sempre viveu na simplicidade. A humanidade só começou a resgatá-lo quando percebeu que estava afogando em um maremoto de ilusões. “A simplicidade é o último grau de sofisticação”. E quem somos nós para desdizer Da Vinci?

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