Colunista
Andrea Greca Krueger

06.09.12
Suave é o poder
Um novo tipo de poder emerge no universo das relações internacionais. Ele não é ditatorial, repressor e intimidador – pelo contrário: é uma força suave, aprazível e branda que pode ser representada de diversas maneiras, formas e tamanhos. Estamos falando do soft power, termo cunhado no início dos anos 1990 por Joseph Nye, professor de Harvard e secretário assistente de defesa para assuntos de segurança internacional do governo Bill Clinton. No livro Bound to Lead – The Changing Nature Of American Power (Fadado a liderar – a natureza mutante do poder americano, em tradução livre), de 1991, Nye discute a necessidade de os EUA se adaptarem às novas realidades do poder mundial num mundo cada vez mais interdependente e menos suscetível ao emprego do poder militar. Na época, a teoria foi duramente julgada e questionada, a exemplo de tantas outras ideias brilhantes e visionárias que foram reconhecidas apenas anos mais tarde. O fato é que o conceito de poder do professor Nye, devidamente retomado e agora cultuado, nunca fez tanto sentido.

Levando em consideração que o conceito básico de poder é a habilidade de influenciar outros a fazer o que você quer, ele afirma: “há três maneiras de se fazer isto: uma delas é ameaçá-los com galhos; a segunda é comprá-los com cenouras; e a terceira é atraí-los ou cooperar com eles para que queiram o mesmo que você. Se você conseguir atraí-los a querer o que você quer, custará a você muito menos cenouras e galhos”. Segundo ele, PIB, tecnologia militar ou tamanho da população não tornam uma nação necessariamente poderosa. Ter mais recursos nem sempre produz o resultado esperado, a exemplo da derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. É preciso encontrar um novo argumento para definir poder no século 21. “Não é apenas ganhar a guerra, não é qual exército vence. É qual história prevalece”, defende o professor. “Devemos pensar em termos de narrativas de fato eficazes.”

A discussão a respeito do soft power voltou à tona em importantes rodas de intelectuais em todo o mundo. A respeitada revista britânica Monocle realizou uma pesquisa sobre o poder brando e compilou o resultado ao longo de mais de cem páginas em sua edição dupla de janeiro e fevereiro de 2012, dedicada especialmente ao assunto. O objetivo, segundo o editor Tyler Brûlé, é provocar debates e discussões saudáveis no meio dos ministérios de relações exteriores. 
 
CRITÉRIOS  Esta é a segunda vez que a Monocle realiza a pesquisa sobre soft power.  Cinquenta fatores e quarenta países foram analisados, mas apenas trinta chegaram lá. Os critérios de seleção foram as respostas obtidas para as vinte questões abaixo:
 
• Percentual do PIB gasto em ajuda internacional
• Número de missões culturais
• Número de think-tanks (usinas de ideias) e ONGs
• Desigualdade de renda
• Número de tratados ambientais assinados
• Sociedade em organizações internacionais
• Taxas de crimes violentos
• Gasto em bolsas de estudo internacionais
• Número de publicações acadêmicas
• Número de patentes 
• Posição no index de competitividade do Fórum Econômico Mundial
• Posição no index Anholt-Gfk Roper Nation Brands (mede imagem e reputação das nações como “marcas”) 
• Número de usuários de internet
• Investimentos internacionais diretos
• Número de turistas por ano
• Número de correspondentes internacionais que vivem no país
• Valor de exportação de filmes 
• Número de medalhas de ouro em Jogos Olímpicos
• Número de lugares considerados Patrimônio Mundial da Unesco
• Índices de audiência de mídias patrocinadas pelo estado
 
RANKING  Este ano, os Estados Unidos desbancaram o Reino Unido, que ficou em segundo, e conquistaram a medalha de ouro. Apesar de serem uma grande nação hard power, os ianques ainda são os maiores exportadores culturais do planeta. Os números não mentem: 28 álbuns no top 50 global em 2011, 3.150 correspondentes internacionais vivem no país, há 1.816 usinas de ideias, 45 medalhas de ouro foram conquistadas nos Jogos Olímpicos (de verão e inverno), em média 59,7 milhões de turistas visitam anualmente o país – onde, a propósito, nasceram 333 vencedores do Prêmio Nobel. Os súditos da Rainha Elizabeth, apesar da queda e das impopulares políticas de austeridade, têm um enorme alcance graças à sua adorada cultura: 11 álbuns do top 50, 1.500 correspondentes internacionais, 28 patrimônios mundiais da Unesco, 7º no ranking da Fifa, 20 medalhas olímpicas de ouro e 32 universidades no top 100 global. Além disso, a família real vive um momento de grande popularidade e as marcas made in UK – como Aston Martin, Land Rover e Burberry – possuem milhões de fãs mundo afora.

Você deve estar se perguntando: “e o Brasil, com a música, a alegria, o Carnaval e o futebol, conseguiu um lugarzinho ao sol?”. Pois bem, a resposta está logo abaixo. Confira lista completa dos trinta países que, de acordo com a Monocle, não apenas possuem soft power mas, principalmente, sabem usá-lo:
 
1. Estados Unidos
2. Reino Unido
3. França
4. Alemanha
5. Austrália
6. Suécia
7. Japão
8. Suíça
9. Canadá
10. Holanda
11. Noruega
12. Dinamarca
13. Espanha
14. Coreia do Sul
15. Finlândia
16. Itália
17. Nova Zelândia
18. Áustria
19. Bélgica
20. China
21. BRASIL
22. Cingapura
23. Turquia
24. Chile
25. Portugal
26. Israel
27. Índia
28. Rússia
29. República Tcheca
30. Grécia
 
“BRAZIL”  A Monocle quase não tem palavras ruins para se referir ao Brazil, um enorme exportador de commodities, sede das próximas Olimpíadas e Copa do Mundo e ainda por cima terra-mãe das legítimas Havaianas. A “terra de 200 milhões” só não está melhor colocada devido à “burocracia presunçosa”, que faz um mercado potencial gigante parecer uma loja de portas fechadas.
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