Colunista
Andrea Greca Krueger

14.09.12
Retromania #1

Vocês já repararam a enxurrada de produtos com aire retrô que está inundando o mundo nesta – que deveria ser a supermoderna, mas não é - segunda década do novo milênio? (Novo milênio. Quem liga para ele, coitado?) Não precisa ser fashionista ou geek para perceber, basta uma banal ida à mercearia da esquina e o observador atento já nota: Nescau retrô aqui, Leite Moça vintage ali, latas históricas de Matte Leão acolá. E na música? No cinema? Na cultura em geral? O fenômeno é tão avassalador que já há livros e teses de doutorado dispostos a desvendá-lo.Vejam o cinema, por exemplo, que não falha em representar com propriedade o zeitgeist: dos nove indicados a melhor filme no último Oscar, apenas um se passa nos dias atuais. Um mísero solitário, pecado, e o mais chatinho de todos. Os outros retratam os anos 1930, 1920, 1960 e 1910; dois estão em 2001 e tem aquele que é uma delícia, esquizofrenia pura: o protagonista tem tanta vontade de voltar no tempo, está tão desacorçoado com a existência, que em delírios retorna à Paris do início do século 20, quando a cidade ainda era uma festa.

A retromania como se apresenta hoje é um fenômeno pop jamais visto: temos saudade do que vivemos, digamos, quinze anos atrás. Veneramos modas, fads (modismos, lembram?), canções (ei, isto é retrô) e celebridades que fazem parte de uma memória viva e de certa forma recente, ou seja, que já foram experimentados por nós mesmos previamente. Atire o primeiro vinil quem aí não procurou pelo menos um clipe dos anos 1980 ou 1990 no Youtube no último mês. A supervelocidade e o beat alucinante do mundo acelerado está transformando todos nós em velhos espíritos nostálgicos.

RETRÔ? Ao contrário do antiquarismo, que se baseia na alta cultura originária de altas camadas da sociedade, o retrô geralmente envolve artefatos da cultura popular, e por isso é tão legal. Quase nunca é acadêmico ou purista; é, na verdade, irônico e eclético. O termo vem dos anos 1960, época da Corrida Espacial, inspirado pelo impulso reverso dos foguetes retrógrados. Desde então a humanidade alimenta um fetiche consciente pelo estilo de períodos anteriores, em especial em moda, música e design.

Mas não somos os únicos, outras eras também eram obcecadas pela antiguidade. Os renascentistas, por exemplo, veneravam o belo e as proporções perfeitas típicas de Roma e Grécia antigas. Já os góticos do século 19 (Wilde, Byron, Sade) evocavam o medieval: tragédia, romantismo, libertinagem, morte prematura e heróis dândis. Dois séculos mais tarde, o witch house, gênero musical, faz um estrondoso sucesso no underground representado por bandas como Salem e Pictureplane, que compartilham o mesmo visual (preto) e filosofia (“melhor a morte do que cheiro forte”).  Para assegurar distância das grandes massas mainstreamers, batizam músicas com triângulos, cruzes e outros códigos que o Google tem dificuldade para indexar: †††, OooOO e †. Busque e verá.

Ao analisar a bilionária indústria da nostalgia – sim, ela existe –, percebemos o quanto certos mecanismos do cérebro humano são extraordinários e intrigantes ao saltar em nossa defesa quando nos sentimos perdidos e inseguros. A retromania tem tudo a ver com isso. Mês que vem eu conto.










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