Colunista
Andrea Greca Krueger

10.10.12
Retromania #2

Mês passado comecei a escrever sobre a febre retrô que assola o mundo e não dá sinal de cansaço, lembra? Pois bem, explicadas origem e história do termo, devidamente ilustradas com exemplos, vamos a uma análise um pouco mais aprofundada sobre a bilionária indústria da nostalgia em um plano cultural, onde os sintomas são mais agudos. Antes, porém, preciso contar-lhes sobre a força inacreditável que tem esse menino danado, o zeitgeist. Enquanto escrevo este artigo, me deparo com mais uma retrô-notícia: com o mote “ele voltou!”, a Nestlé anunciou que vai relançar o chocolate Lollo, sucesso dos anos 80. Emocionada, pisco os olhos devagar e, de repente, em um frenético segundo, passa um filme na minha cabeça: a protagonista é minha avó Esther, o cenário é sua despensa e os coadjuvantes são os quitutes que ela comprava para cada um dos nove netos. Em seguida, sem que eu possa me dar conta, me atropelam lembranças de uma infância feliz, a sensação de abrir uma embalagem azul com o desenho de uma vaquinha simpática com longos cílios, de sentir um cheiro doce e morder o chocolate duro – crec! - até chegar a um recheio macio; logo lembro dos primos, dos tios, do meu avô Francisco, de como a vida era tranquila e gostosa. De repente chego à conclusão que minha infância teve gosto de doce na casa da avó. Que insight emocionante. E, como num passe de mágica, me dá uma vontade desesperada de comer... um Lollo. Quando é o lançamento mesmo?

Se você também se sente assim quando se depara com algo que lembra sua infância ou algum tempo bom do passado e isso invade sua alma a ponto de ser um critério de consumo, parabéns, você é uma pessoa absolutamente normal. É exatamente nesse ponto crucial da psique humana que age a indústria da nostalgia: queremos voltar a um tempo, ainda que romantizado e idealizado, através de sensações. Não pense que as coisas na sociedade de consumo são por acaso. Nada é impensado e, em especial no caso de marcas grandes como a Nestlé, há muita pesquisa por trás de cada projeto. Mas não tomemos isso como vilanice, por favor. Se nos faz bem e não prejudica ninguém, por que rejeitar? Todos merecemos momentos de autoindulgência, esses instantes ritualísticos de escapismo em que reencontramos nossa criança interior negligenciada pela salgada vida adulta.

Voltando ao tema principal, um livro muito interessante lançado ano passado trata justamente dessa obsessão atual com o passado. Em Retromania – pop culture’s addiction to its own past, o crítico musical inglês Simon Reynolds apresenta em um calhamaço de quase 500 páginas um verdadeiro dossiê sobre o tema, com muitos fatos, números, exemplos e uma análise de deixar qualquer progressista desolado. Vou resumir: desde os anos 80, quando o movimento raver/clubber saiu dos guetos americanos para conquistar o mundo, não surgiu nada verdadeiramente original na cultura pop. Ela está viciada em seu próprio passado, como decreta o título do best-seller. Durma com esse barulho. Simon diz que na primeira década do milênio– chamada pela mídia musical de noughties, algo como “nada, zero, vazio” – todos os movimentos jovens e musicais foram copiados. Ou, para não ficar chato, vamos usar o eufemismo atual, tudo é apropriação. O período pode ser chamado de re-década: releituras, reuniões, revivals, remakes, regravações, reedições, etc.. Os noughties, afirma ainda, foram sobre todas as décadas anteriores acontecendo de uma só vez, exceto sobre si mesma. “O avant-garde agora é arrière-garde”, proclama. Ou seja, antes a vanguarda olhava para a frente (avant = frente, garde = olhar), hoje volta o olhar ao passado (arrière = atrás). Pense nas pessoas mais modernas que você conhece, aposto que elas têm um não-sei-o-quê retrô.

A primeira metade do século 20 mirava o futuro. Vide Epcot Center, o boom da sci-fi, do futurismo entre tantos outros produtos da indústria cultural que vislumbravam um insano e superautomatizado ano 2000, com carros voadores, robôs e vida eterna. A partir dos anos 70, no entanto, com o novo milênio na soleira da porta, a impossibilidade de realizar esses projetos mirabolantes e – muito importante, não podemos esquecer - a instauração do capitalismo selvagem como ordem oficial do mundo, começa a tomar forma o mercado da saudade, que pega  justamente no mesmo ponto delicado que me levou da cadeira do meu escritório em 2012 à despensa da minha avó em 1985.

Na próxima coluna vou mostrar como essa mesma indústria da nostalgia que nos causa tanto prazer pode ser maldita ao impedir que a cultura pop caminhe para a frente sem olhar para trás.










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