Colunista
Andrea Greca Krueger

13.11.12
Retromania #3 – This is the end

Eis que chega a hora, queridos leitores, de colocar um ponto final na discussão, ou melhor, no monólogo, sobre o vício da cultura pop em sua própria memória. Porém, antes de dizer adeus ao tema, vamos dar um pulinho rápido ali no passado. Na edição de outubro contei-lhes sobre os noughties, como os principais jornalistas culturais do mundo chamam a primeira década do milênio. Noughtie, expliquei, é um neologismo para zero, nada, vazio. No primeiro artigo da série, publicado em setembro, vimos que a indústria da nostalgia é bilionária e reflete o bombardeio de oferta e informação a que somos expostos sem a menor proteção. As consequências são ansiedade, insegurança e confusão mental. Nossa psique, então, é acionada, e para nos proteger assume a função de bússola na navegação emocional rumo ao porto seguro dentro de nós: o passado, quase sempre idealizado, onde moram objetos que conhecemos e memórias afetivas que gostamos de acessar.

Chegamos agora à questão crucial desta trilogia: será que a retromania está travando a evolução da cultura pop? Vamos aos fatos. Em 2005, a banda inglesa Coldplay lançou o single “Talk”, que estourou nas paradas mundiais com uma famosa sequência de sintetizadores oitentistas usada pelos pais da música eletrônica, os alemães do Kraftwerk, na faixa “Computer Love”. Em 2006, o musical “Rock of Ages” foi lançado, e fez pelo hard rock dos 1980s (Bon Jovi, Poison, Twisted Sister, Whitesnake, etc.) o que “Grease – Nos Tempos da Brilhantina” fez pelo rock’n’roll dos anos 1950. Ainda em 2006, o Cirque du Soleil estreou em Las Vegas o espetáculo “Love”, cuja trilha sonora foi composta exclusivamente de músicas dos Beatles. Em 2007, o Rage Against the Machine, banda fundada em 1992 cuja última aparição nos charts remete à mesma década, foi a atração principal do famoso festival Coachella; o Devo, grupo de pós-punk surgido em 1972, ocupou o mesmo lugar no respeitadíssimo Sónar, em Barcelona, que em 2009 teve Grace Jones, sessentona e com tudo em cima, como estrela principal. Ao lançar o álbum “Memory Almost Full”, em 2007, Paul McCartney disse que tudo o que temos, no fim das contas, é o passado. E quem somos nós para discordar? No ano seguinte, a terceira turnê mais lucrativa da história chegava o fim. Com 159 shows em estádios lotados, a “The Police Reunion Tour” faturou exorbitantes 400 milhões de dólares. Os astros do rock começam a perceber que terminar e voltar pode ser, além de um mal necessário em alguns casos, extremamente lucrativo. Fora do âmbito musical mas de certa forma ainda dentro dele, a Disney se associou à Apple em 2009 para refilmar em 3D o clássico da psicodelia “Yellow Submarine”, de 1968, inspirado no álbum homônimo dos Beatles, que, aliás, continuam muito rentáveis. Infelizmente o projeto foi adiado devido às pífias bilheterias arrecadadas pelo diretor Robert Zameckis, que estava à frente do projeto. Ele ficou de castigo, e nós também.

Esses são apenas alguns exemplos da sede com que a indústria cultural bebe em fontes de outrora. Os noughties oficialmente terminaram, mas a falta de criatividade da indústria pop não. Hoje, a maior estrela da música e eleita mulher do ano pela revista GQ não pode ser mais retrô. Lana del Rey é a musa cool do dia e fatura alto em campanhas de moda que exploram seu visual vintage-chic. E o que dizer de Amy Winehouse e Adele?

Para piorar, vem a ciência e comprova o que poderia não passar de especulação. O Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha divulgou mês passado o resultado de uma pesquisa que evidencia que a qualidade das músicas de fato piorou com o passar do tempo. Pesquisadores analisaram timbre, tom e volume de quase 500 mil faixas lançadas no Ocidente entre 1955 e 2010 e concluíram que a variedade de notas é menor, mas o barulho é maior. E como a voz do povo é a voz de Deus, é importante analisar outro fato na notícia publicada no site de O Globo: mais de 13 mil internautas “curtiram” – e portanto endossaram – os resultados encontrados pelos espanhóis. É “like” para ninguém botar defeito.

Pois bem, meus amigos, as perguntas ainda pairam sobre nossas cabeças: chegará um tempo em que não haverá mais de onde tirar inspiração, em que tudo já terá sido feito, refeito e viveremos num eterno dèja-vu? É preciso lembrar, no entanto, que a primeira década do novo milênio foi marcada pelo medo. Acredito que a alegada “falta de criatividade” está intimamente ligada ao medo. Pessoas trancadas em casa não convivem, não interagem e não socializam com estranhos. Sem encontro, não há ideias. E sem ideias, não há inovação. Mas não precisamos nos sentir mal por conta disso, afinal, a retromania é uma das maiores delícias da pós-modernidade.










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