Colunista
Andrea Greca Krueger

05.03.13
O simples e o complexo

Esta é a época em que eu mais trabalho. É no final de um ano , começo do outro, que o volume de empresas que contratam pesquisa de mercado cresce. Cada vez mais existe consciência da importância de subsidiar e definir com responsabilidade planos de crescimento. Os projetos são variados: alguns contratam apenas pesquisa e análise de tendências, outros precisam de investigação de campo e há os mais precavidos que optam por ambas. Seja qual for a opção, cada projeto é uma imersão profunda em universos quase sempre inexplorados. Saímos um pouco especialistas ao final de cada um.

Quanto mais pesquisa de campo faço, mais aprendo. Porque não basta ir até o local de investigação, conversar com as pessoas e transmitir informações estratégicas de demandas e inovações para o cliente. Isso não é suficiente. O trabalho frio e sem envolvimento profundo cujo fim principal é apenas ganhar dinheiro nunca me atraiu. Na pesquisa, em especial, é preciso mais, muito mais do que se motivar unicamente pelos honorários que vão pingar ao fim do projeto. É necessário envolvimento total para sentir, vivenciar e compartilhar de verdade o discurso do interlocutor. Olhar nos olhos e escutar com atenção relatos de dor e alegria; ter compaixão.

Estou em vias de entregar um projeto que me envolveu profundamente em uma região da cidade que eu não conhecia. Às vezes me sinto um pouco alienada por viver na “bolha” e fico feliz quando o trabalho me leva a desbravar lugares nunca antes explorados, seja por falta de interesse ou de necessidade. Pois bem, trata-se de uma daquelas zonas esquecidas, precárias, sem esgoto, sem calçada e sem dinheiro, que os candidatos de oposição costumam mostrar em campanhas eleitorais: “o prefeito esqueceu essa região, só pensa nos ricos do Batel...”. Lugares que estão fora da minha “bolha” confortável, quentinha e cheirosa. O primeiro dia de campo é sempre cheio de expectativa e receio, sentimentos que se dissipam e viram familiaridade e conforto nos retornos. Esse projeto incluiu diversos métodos de coleta de dados, inclusive o meu preferido que é, disparado, a etnografia urbana. Sempre fui curiosa, adoro visitar as pessoas e ver como vivem. O lar entrega a essência mais secreta do indivíduo. Quantas vezes não nos surpreendemos ao visitar uma pessoa que conhecemos há bastante tempo pela primeira vez? As aparências até podem enganar, mas a casa – com destaque para o criado-mudo, o lixo da cozinha e o armário do banheiro –, essa não engana jamais. O olhar, porém, não é inquisitivo ou violador, muito pelo contrário: na retina do pesquisador há apenas curiosidade e um profundo sentimento apreciativo.

Nas últimas incursões etnográficas constatei algo que já foi um clichê, depois uma mentira e agora, após ser vivenciada (ninguém me contou, eu vi), tornou-se uma bela verdade. Quanto mais simples se é – e, portanto, menos complexo – mais felicidade se tem. A felicidade é um tema menos complicado do que parece, ele inclusive já foi objeto de pesquisa da Berlin. Aristóteles disse que à felicidade nada falta, ela é autossuficiente. É isso: os indivíduos mais satisfeitos com a vida são aqueles que amam o que têm. Querem mais? Sim, mas não se frustram se não conseguem. Não fazem drama e se relacionam com simplicidade com as situações mais complexas. Por exemplo, algo que chama a minha atenção é a constituição das famílias nesses lugares. A dona da casa tem, digamos, três filhos, mais um ou dois adotados de uma vizinha alcoólatra, inapta para criar um bebê, ou de uma parente falecida. Sem drama, elas adotam e pronto, acabou. Mais uma boca para comer ou mais um motivo de alegria? Dadas as circunstâncias, a segunda opção é provavelmente a que mais se aproxima da realidade. Já em famílias abastadas – com condições, quartos e banheiros de sobra  – a adoção é em geral um tema tratado com (muito) mais ponderação, sendo, inclusive, tabu em alguns casos.

Uma vez um antropólogo me disse que a pobreza protege, mas acho que a vida é que tem suas próprias maneiras de equilibrar o que é felicidade para cada um de acordo com o carma, este sim individual, intransferível e sem prazo de validade. Na verdade tendo a crer, graças à própria observação na “bolha” e no campo, que a alegria está mais comumente presente no ser do que no ter. O que protege é a simplicidade.

A questão é que quanto mais recursos temos, mais acesso à informação conquistamos e maior é o repertório de coisas que queremos e não temos. Aí mora o grande xis da questão. Acho que os ricos simples são tão satisfeitos com a vida quanto os pobres simples. Não é o dinheiro. O complexo, seja ele milionário ou mendigo, é, quase sempre, um reclamão enfadonho.










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