Colunista
Andrea Greca Krueger

11.07.13
#euprotestando

Pense rápido, o que era símbolo de status nos anos 1990? Um carrão na garagem de uma casa enorme servida por um pequeno exército de empregados, ou quem sabe um jatinho particular para facilitar a visita mensal ao apartamento de Miami? Na década da supremacia do ego, da individualidade sem limites e da ganância desprovida de constrangimento, cool mesmo era ter um monte de coisa que os outros não podiam ter. Quanto mais coisas caras eu acumulava, mas rico e admirado eu era. Esse cenário se estendeu até meados da primeira década do século 21, os chamados noughties ou a década que perdemos para o medo, quando, mais precisamente em 2008, a coisa começou a mudar radicalmente de figura. A crise do crédito impactou muito mais do que a confiança do mundo no modelo econômico/capitalista-selvagem dos EUA, ela transformou profundamente valores sociais.

Hoje quando se pensa em status, em especial entre as classes altas, provavelmente vêm à cabeça menos coisas materiais que custam muita grana, como helicópteros e apartamentos, e mais coisas que não podemos pegar e que não têm preço, como tempo, experiências, valores e vivências. A democratização do consumo tornou o luxo acessível, sendo assim, como é que o ser humano, imerso até o pescoço nesses mesmos valores capitalistas (que hoje é super cool renegar) onde marcas definem identidades e estilos de vida, faz para se diferenciar dos demais? Afinal, desde o início dos tempos desejamos ser únicos em nosso caos e nossa glória e é justamente dessa forma que queremos ser reconhecidos até hoje. Com a observabilidade possibilitada pelas redes sociais, o indivíduo jamais se preocupou tanto com seu avatar, ou seja, com a imagem que passa para o mundo através dos meios online. Numa época em que todos somos produtos à venda em uma enorme vitrine cujo tamanho e alcance não conseguimos sequer imaginar, o que te faz mais caro do que eu? Obviamente, depende de quem está do outro lado do vidro.

E o que a hashtag #euprotestando tem a ver com esse novo conceito de status? Tudo. A medida que o luxo torna-se menos palpável e mais experiencial, ir às ruas denota responsabilidade, coragem, preocupação, engajamento (a palavra do momento), etc. O que se viu nos protestos da Revolta do Vinagre – ou sabe-se lá como será chamada nos apps de História do futuro – foi uma multidão de jovens agarrados ao smartphone, como se ele fosse a arma mais potente de todas. E não é? Uma pesquisa recente da Telefónica divulgada pela Folha de SP aponta que 63% dos jovens entre 18 e 30 anos possuem um desses aparelhos. Procurando rapidamente no YouTube, há quase 60 mil vídeos dos protestos no Brasil, a maioria sem qualquer toque profissional. Na verdade, a tremedeira é o grande charme da obra.

Como se vê, foi-se o tempo em que podia mais quem tinha mais. Hoje, pode mais quem participa mais, quem (se) doa mais, quem se posiciona mais. Mas atenção – muito importante – não basta doar, participar, posicionar-se e ninguém saber: tem que postar. Como diriam os americanos, hoje em dia you gotta kiss and tell.










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