Colunista
Ernani Buchmann

05.03.13
Férias à beira-mar

Há quem não goste do verão. Um cantor de corpo imenso declara na TV que dele só aprecia o ar-condicionado. Embora eu não me alinhe com os saradões, discordo do velho roqueiro. Já começo a gostar do verão a partir do horário assim denominado. Em fins de outubro passo a sonhar com a praia, a brisa, a leveza do nada fazer a não ser levantar o copo de cerveja e, após os goles de rigor, cumprir a pauta da revista Ideias. Assim me programo para os dias de ócio à beira-mar.

Ocorre que os equipamentos instalados na casa de praia não leram o livro de Domenico de Masi. Não fazem ideia do que seja ócio criativo, confundem o conceito com faina braçal. Tratam de me afrontar. A primeira ausência de sinais vitais surge assim que abro a porta: as luzes da sala não acendem. Subo em uma cadeira, a Tânia agarrada a essas pernas que há décadas tentam me sustentar. Eu mesmo jamais confiei nelas, a ponto de tentar prover o sustentáculo da família por meios intelectuais, mas há controvérsias sobre a capacidade cerebral.

O fato é que ali estava, a balançar as lâmpadas junto à orelha, como se assim ouvisse uma voz oriunda dos condutos a dizer “estou viva”. Se alguma delas ainda mantivesse pretensão à existência posterior, tudo se encerraria ali: aquela balançada seria fatal a qualquer sobrevivência.       

Saio a comprar lâmpadas, em lojas que já fecharam. Encontro produtos similares em um supermercado, o que ilumina, mas não resolve: o ambiente agora parece sala de cirurgia. Ouço alguns chiados que tento não ouvir. E em vista da necessidade de preservar o casamento, considero melhor mudar de parágrafo.

No minuto seguinte, alguém grita que o chuveiro caiu da base. Assumo ares de catedrático em sustentações e pilastras, imagino causas, coço a cabeça e todas as partes do corpo, eis que já sou dominado pela urticária. Realizada a anamnese do apetrecho, declaro soberano: vou ligar amanhã cedo para o Alex, velho amigo com casa em Guaratuba, engenheiro calculista dos melhores. Como solução emergencial, sugiro que esta noite nosso chuveiro seja usado à moda francesa.

Sob protestos que nem Sartre patrocinaria, uma hora mais tarde consigo acalmar a multidão de duas mulheres, mãe e filha, que me habitam o lar. Amanhã, predizia o profeta Roberto Carlos, tudo será diferente.

A conexão da internet cai já ao amanhecer, mas sou tinhoso. Encontro o telefone de um técnico recém-chegado da Bosch, filial de São Paulo, Frankfurt ou Bagdá, já esqueci. Está disponível, com a ressalva de que sua especialidade são as máquinas de lavar. Coincidência mágica: a nossa acabou de quebrar. Esqueço o Alex, mesmo porque não o encontro há décadas.

Anselmo, dito colaborador da Bosch, surge ao meio-dia, caixa de ferramentas à mão, a barriga esbarrando nos balcões. Porta calça jeans dois números aquém do exigido, expulsando a bunda pelas costas. A máquina de lavar também expõe obscenidades semelhantes, como polias puídas e correias que não correm. Resta-me correr à busca de tais preciosidades, inexistentes no quarto mundo formado pelo litoral paranaense. Menos mal que na volta encontro Anselmo aplicando doses cavalares de cola na base do chuveiro. O serviço é de uma plasticidade lamentável, adornando com o cinzento do silicone o entorno da tomada e alguns azulejos mais. Há reclamações femininas quanto à pobreza da solução, mas somos pragmáticos.

Ao fim do dia, depois da nossa dupla ter consertado também duas bocas do fogão, um grito paralisa tudo, inclusive as ondas do mar: junto à janela da cozinha, há um ninho de vespas se formando.

Mas já encerrei o expediente. Como um general a desembainhar a espada, abro com um largo gesto a lata de cerveja que há 24 horas aguarda a sede do proletariado litorâneo.

As vespas, mando servir de tira-gosto, depois de recomendar ao Anselmo que mantenha a calça em torno do umbigo. Nada como um dia de verão. 

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