Colunista
Ernani Buchmann

06.03.13
Sobre navegantes e navegações litorâneas

O jornal conta que dois navegadores, discípulos do Vasco, largaram-se ao mar em frente à praia das Gaivotas em direção aos Currais, a bordo de um caiaque. Foram resgatados horas mais tarde, plena madrugada, em frente ao Balneário Flórida. Descobre-se logo que os remadores não descendem de Vasco da Gama, o descobridor, mas de Vasco Moscoso de Aragão, o capitão de longo curso que não sabia navegar, personagem de Jorge Amado.

Durante muitos anos fui morador das Gaivotas. Ali, nas manhãs dos verões, tratava de caminhar pela praia até o Santa Mônica, percurso de uns cinco quilômetros, ida e volta. Os Currais quase em frente, a 12 quilômetros de distância mar adentro, foram testemunhas de centenas dessas caminhadas, das quais a maior de todas teve como destino a praia do Grajaú. Mas não voltei caminhando, fui conduzido até em casa de automóvel, dirigido por uma moça linda, que preferiu tempos depois viver em Londres e hoje talvez leve os filhos para conhecer as escarpas da costa inglesa.

A casa das Gaivotas foi trocada por um apartamento, por coincidência no Balneário Flórida, de onde agora vislumbro os Currais de esguelha, plantados lá no mar azul, além das águas cinzentas que dominam o primeiro quilômetro a partir da praia. Jamais me ocorreu que as ilhas estivessem a 12 ou a 20 quilômetros, como devem estar aqui do Flórida. Tanto se me dá, não me atreverei a tal aventura. A única vez em que participei de uma travessia, a distância equivalia a meras centenas de metros, entre a Praia do Grant e a ilhazinha em frente, no litoral catarinense, na companhia de uma prima e seu marido, ambos vigorosos remadores. Foi o que nos trouxe de volta. Dei à praia como o náufrago vivido por Tom Hanks, arrastando o corpo com o que me restava de unhas, já roídas de preocupação. Uma semana mais tarde, prometi que jamais voltaria a remar a não ser para fugir de sir Francis Drake, se ele e seus corsários ousassem voltar à vida e às pilhagens. O prazo de uma semana para a formulação da promessa tem sua lógica, visto que foi quando consegui levar o garfo à boca, depois de sofrer dores musculares tão fortes que imaginei ter erguido sobre os braços a própria arca de Noé, com todos os elefantes, rinocerontes e hipopótamos a bordo.

Hoje, escrevendo na varanda nesta manhã de carnaval, vejo ao longe os Currais e logo atrás a frota naval que aguarda para atracar no porto. Tenho a impressão de estarem os navios tão perto que chegam a bordejar as calçadas das ilhas. Bem sei que lá não existem ruas, casas ou gente. Sua população é formada de répteis e roedores, aos quais suponho não importar o intenso tráfego marítimo que congestiona a vizinhança.

Quem sabe os navios nem estejam assim tão próximos como nos parece a observação de longe. O que existe de real é que preciso terminar logo este texto. Já escuto alguns barulhos na casa, daqui a pouco a garotada acorda com vontade de beliscar coisa ou outra, ajeitar o estômago depois da carnavalância de ontem. O melhor é tomar um café, apreciar as ilhas no horizonte.

Ainda antes do meio-dia estarei a caminho, tênis nos pés, para um trajeto pela avenida até o Cambuí, talvez pouco menos. Ainda tenho muito a andar e a escrever durante o Carnaval – e só me restam quatro dias.

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