Colunista
Renan Machado

05.03.13
Jolene

A cada minuto, instante, passado, o medo de Maria tornava-se maior. Debruçada sobre o balcão do bar xexelento, fitava José, seu marido, que jogava sinuca junto de outros três bêbados. Não que José fosse bêbado; até era, mas pouco quanto mais lúcido que os parceiros. José tem estilo na sinuca – pensou Maria. Bebe um gole longo de cerveja, corre o taco pelas mãos e reclina-se sobre a mesa atoalhada de verde. Funga: rugas surgem em sua testa. Mira. Dispara. A bola branca explode em direção à bola nove. Choca-se. Não a derruba. José, porém, ergue a cabeça triunfante, como se tivesse dado uma tacada boa pra diabo. A melhor do século.

José encantava Maria de um jeito. E nem era o jeitão bravata. Também, mas o carinho; por Maria e os filhos (um deles não era nem de José). Mas ele não fazia distinção. Tratava todos, igualmente, como filhos. E era por essas e outras, um tantinho de amor, que Maria sofria e tremia de medo naquele balcão ensebado. Ela tinha certeza que Jolene não falara por brincadeira. Vagabunda! Entendeu errado e jurou vingança. Maria disse, deixou claro, que as moedas deixadas sobre a bancada da lavanderia pertenciam a ela e não a Jolene. Aquela história: o dinheiro de Maria era contado. A reserva do mês para comprar as moedas da lavanderia calculada por dia. Afinal, as roupas precisam ser lavadas. E lá estava Jolene com seu cesto passando a mão nas moedas de Maria. Onde já se viu?! Vagabunda essa Jolene. Maria foi cordial ou tentou ser. Mas Jolene não quis saber: “tá me chamando de ladra, é?”. Maria disse que não, imagina, jamais, nunca nessa vida. Mas a merda estava feita. Jolene disse que iria ao bar do José naquela noite mesmo. E Maria tremeu na base.

Como viria, aquela cachorra? De minissaia, decote generoso e badulaques pendurados no pescoço e nas orelhas? Quem sabe. Ou um vestido curto, curtíssimo, desses tubinhos que as gurias usam nos bailes. Não são mais bailes, são baladas – lembrou Maria. Os tempos mudaram. Perdeu-se o respeito. Mas como Jolene era gostosa! Isso era inegável, Maria sabia bem. Sabia bem que os homens babavam por ela, sem exceção. José babava por Jolene discretamente. Certa vez quase caiu na teia da putinha. Provocante como o diabo, apareceu no bar, tarde da noite. Maria já havia ido para casa. Jogaram sinuca, José e Jolene. José sempre com as rugas na testa, dessa vez mais expressivas, pois os olhos do homem estavam hipnotizados pelos peitões da loirinha Jolene que ria da patetice de José, meia-idade, com medo de ficar broxa. A sorte, naquela noite, foi que Maria esquecera suas agulhas de tricô e voltou ao bar. Encontrou José e Jolene bebendo: nada de mais. E fez um barraco. José achou exagero. Jolene pediu desculpas, cinicamente, e disse que ao bar não tornaria.

E não tornou. Até aquele minuto, instante, que corroía as entranhas de Maria para correr no relógio. Será que Jolene viria? Passava da meia-noite. Talvez não viesse: obrigado, espírito-santo, amém. Talvez fosse blefe. Queria assustar. No dia seguinte encontraria Jolene na lavanderia e não se olhariam na cara. Um ódio saudável. De respeito. O relógio corria e Maria levantou a cabeça do balcão e lá estava José na sinuca, pronto à próxima tacada. A melhor do século. Então a porta do bar se abriu. José segurou a tacada, levantou o taco. Rugas surgiram em sua testa, mais expressivas que o normal: olhos no par de peitões que surgia do sereno, exalando odor de luxúria. Maria estremeceu, borboletas revoaram seu estômago. Num ímpeto, correu na direção da figura feminina, imponente, à porta, e ajoelhou-se aos balbucios: “Jolene, eu lhe imploro, não pegue meu homem”.

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