Colunista
Renan Machado

06.03.13
Num pensionato qualquer
Ilustração: Andrey Michalzechen

Em uma rodovia escura e deserta, vento morno lambia meu cabelo e deixava-o mais oleoso que eu considerava ser possível. Não bastassem dois dias sem tomar banho e umas seis horas, as últimas antes de chegar àquele fim de mundo, sacolejando na caçamba de uma caminhonete Ford que carregava esterco, a brisa de verão do deserto californiano insistia em lamber meu cabelo como um maldito cachorro brincalhão. Tarde da noite. Tudo quanto eu sentia era cansaço. Uma canseira do dinheiro que esvaía. Escorregava das mãos para o balcão do bar em troca do uísque. Dupla dose de procedência duvidosa. Cansado da vida safada, puxei ao ombro meus tarecos ensacados. Pus-me em marcha, passo capengo, quando, ao longe, enxerguei uma luz vacilante. Resistia bravamente no candeeiro que pendia sobre a varanda de um grande prédio. Por desespero e, em certa medida-surpresa, curiosidade, caminhei na direção do ponto amarelento. À aproximação, cruzei por um letreiro apagado no qual lia-se: “Hotel California”; atravessei um jardim, ornamentado por areia e vegetação morta, e acessei à recepção.

 Empurrei a porta de vidro e surpreendeu-me a mulher mais linda que já vi. De um pulo recuei. Ela sorriu e abriu por inteiro a porta à minha passagem. Adentrei bobo, aturdido. Soltei minha bagagem precária no assoalho e permaneci em pé, sem ação. Ela fechou a porta, deu a volta no balcão e, numa simpatia singular, saudou-me: “bem-vindo ao Hotel California”. Pouco me lembro da conversa que tivemos ao fazer check-in. Com destreza no movimento, ela apanhou, às costas, uma chave e convidou-me a segui-la. O fiz arrastando comigo meu saco de roupas.

Se dei gorjeta e ela aceitou não sei. Envergonhei-me com a possibilidade de ter dado, pois sei que, no caso então, foram míseros níqueis. Ainda da pindaíba pela qual eu passava não me esquecera dos bons modos aprendidos com meus pais, no Brasil. Fui sempre um guri obediente, à exceção de quando me bandeei para os EUA contra vontade dos velhos. Lamentações eu não proferia. Mas uns trocados para entornar cairiam bem.

Eu era um garoto apaixonado no Hotel California. Apaixonado pela mulher mais linda da história, de quem, inevitavelmente, exalava um quê de superioridade para comigo, um imigrante sem eira nem beira. Sentado na cama, num quarto charmoso quanto antigo, num pensionato qualquer da Califórnia, eu não sabia o que fazer. Queria levá-la comigo. Aquela musa, a mais maravilhosa das mulheres. Apresentaria aos meus pais sem medo. Faltava-me, porém, a maldita coragem. Decidi apelar ao inapelável: chamei pelo bar no telefone. Uma voz rouca atendeu. Pedi uma garrafa de vinho. Não que eu gostasse de vinho, mas o pileque e o bafo seriam mais brandos. Precisava apenas de um empurrãozinho para declarar meu amor e convidá-la a fugir comigo. Eu disse “traga-me um vinho”. A voz rouca riu e respondeu “não temos vinho aqui desde 69, filho. Há-há. Tem uísque ruim, quer?”.

Não preciso dizer que aceitei. Bebi. Desci aos tropeços a escada e cheguei à recepção. Ela, minha Gioconda, fazia palavras cruzadas com os óculos à meia-escala do nariz adunco. Olhei-a fixamente: as palavras presas na garganta. Finalmente disparei aos balbucios. Depois aos berros, torcendo para me fazer entender. Cheguei a acreditar que conseguira, pois ela riu. Em seguida, porém, bateu a mão com violência sobre a campainha no balcão. Tinha maldade nos olhos. Um grupo de homens saiu de uma sala anexa à recepção. Vagarosamente acercaram-se de mim. Eu estava encurralado. A última coisa que recordo foi que tentei correr rumo à porta de saída. Sem sucesso. Fui imobilizado no chão pelos homens. A mulher aproximou-se dizendo “esses são meus amigos; lindos, não acha?” e pisou-me a cara com uma bota sete léguas.

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