Quem tem medo de Jaime Lerner?

Dizia Alexis de Tocqueville que o futuro é um juiz esclarecido e isento, mas que infelizmente chega sempre tarde demais

 

Sempre que penso em Jaime Lerner, esta frase me vem à cabeça. Apesar de sua obra transformadora como prefeito de Curitiba ou governador do Paraná, Lerner é excluído do debate político. No mínimo, os atores atuais da vida paranaense fazem de conta que ele não existe. E quando seu nome é citado se apressam a informar que nada têm a ver com ele. Os principais candidatos ao governo, Beto Richa e Osmar Dias, estão na lista dos que perderam a memória.

Ora, pois, Lerner vive uma estranha situação. Além das fronteiras da província é reconhecido como planejador urbano e formulador de ideias e projetos que podem ajudar a humanidade a viver melhor em futuro próximo. Dá aulas em universidades ranqueadas entre as dez mais importantes dos Estados Unidos, recebe prêmios pela obra em todos os continentes, tem projetos em desenvolvimento em várias áreas do planeta, foi listado entre os dez pensadores mais importantes do mundo. No entanto, os políticos nativos fogem dele como o diabo da cruz.

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Jaime Lerner. Foto: Daniel Katz

O curioso é que a ma­ioria desses políticos cresceu à sombra de seu prestígio, mas hoje acredita que pode perder votos se tiver a imagem associada a Lerner. Para que se tenha uma ideia desse fenômeno que põe em dúvida o caráter dos protagonistas, um dos principais beneficiários do apoio de Lerner, Rafael Greca de Macedo, afirmou que trocou de líder por razões de consciência.

Greca foi vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal e ministro graças a Jaime Lerner. Hoje, rende vassalagem ao principal algoz de Lerner, Roberto Requião, que tempos atrás acusava o mesmo Greca de vícios devastadores para a moral e os bons costumes praticados da alcova ao tesouro municipal.

Não que Lerner não tenha cometido equívocos como governante. Ele mesmo os aponta. E mostra como foi necessária e inteligente a privatização do Banestado, banco estatal que estava à beira da falência de tanto emprestar para políticos e seus apaniguados em troca de favores. Esta prática Lerner enterrou e todos podem imaginar o quanto desagradou a esses políticos e seus empresários apaniguados. Foram eles que promoveram o rombo no banco estatal que ainda hoje custa muito aos cofres do Paraná.

No entanto, os antigos beneficiários dos privilégios oferecidos pelo Banestado uivam suas teses contra a privatização. Em causa própria. E o pior é que o discurso do gênero, temperado com todo tipo de aleivosia, faz sucesso nas camadas mais ingênuas da população.

 

O principal algoz de Jaime Lerner é o ex-governador Roberto Requião, do PMDB. Fez de Lerner o seu dragão da maldade para apresentar-se como santo guerreiro e vingador

 

O algoz de Jaime Lerner

Mas o que explica essa reação contra Jaime Lerner em certos espaços da vida pública paranaense é uma campanha persistente para destruir a sua imagem e a de seus governos. É essa campanha e seus efeitos que fazem os políticos das duas bandas que se enfrentam na disputa do governo fazer esforços para dissociar suas imagens de Jaime Lerner, preocupados com a possibilidade de que uma associação desse tipo possa tirar-lhe votos.

Em gesto de inteligência, Jaime Lerner soltou uma nota avisando aos navegantes que oferece atestados de não lernistas para quem quiser. Especialmente para os candidatos que temem defender ideias próprias ou que não querem se engalfinhar em debates com Roberto Requião, o inimigo mais agressivo de Lerner.

Não apareceu ninguém para buscar seu atestado, embora saiba-se que os egrégios representantes das elites políticas nativas, acos­tumadas a ter pleno êxito no jogo da falsa mudança, aquele de que falava o príncipe de Salina, “muda alguma coisa para não mudar coisa alguma”, quando se trata de Jaime Lerner pretendem ser guiados pela prudência, conselheira bela e sábia, e em nome dela só conseguem conceber a dissimulação, como o Leão da Montanha, inolvidável herói das histórias em quadrinhos.

O principal algoz de Jaime Lerner, todos sabem, é o ex-governador Roberto Requião, do PMDB. Ele fez de Lerner o seu dragão da maldade para apresentar-se como santo guerreiro e vingador. Tratou de demonizar Lerner perante o olhar da população com acusações muitas vezes inconsistentes, mas que, bem manipuladas e reduzidas a um discurso simplório e emotivo, conseguem sensibilizar as camadas mais carentes da população.

A fórmula ajuda Requião a se livrar do adversário e do exame de seu próprio governo. Nos últimos vinte anos o Paraná só teve dois governadores. Jaime Lerner e o próprio Requião. Se comparados os feitos dos dois e mesmo desconsiderando que Requião teve três mandatos contra apenas dois de Lerner, fica evidente que Lerner foi um administrador muito superior em tudo. E que Requião faz por merecer o conceito de homem de muitas bravatas, muitas irresponsabilidades e nenhuma obra que possa justificar seus doze anos de nepotismo.

Além do que, essa hostilidade teria outro vezo. Requião, inepto, se comporta diante de Lerner como Salieri, obscuro compositor, se comportava diante de Mozart. A inveja o consome. Isso fica evidente todas as vezes que Lerner é citado no plano internacional. Requião reage com maus bofes, mal dissimulando o rancor.

 

Em gesto de inteligência, Jaime Lerner soltou uma nota avisando aos navegantes que oferece atestados de não lernistas para quem quiser

 

A trajetória de Lerner

Lerner assumiu a prefeitura de Curitiba por três vezes. Foi eleito governador do Paraná para dois mandatos sucessivos. Poucos tiveram carreira tão longa e bem sucedida na política paranaense. Sem contar que elegeu dois outros prefeitos da capital com a promessa de que eles continuariam a sua obra.

As transformações ousadas que promoveu em Curitiba mudaram a face da cidade e a autoestima da população. De aldeia recatada e tímida a cidade passou a modelo de planejamento urbano e de qualidade de vida no país.

No governo do Paraná, Lerner agiu com a mesma coragem ao operar mudanças profundas na economia. Ao atrair as montadoras de automóveis inaugurou novo ciclo. Encerrou a hegemonia agro-exportadora para ingressar o Paraná, tardiamente, na produção industrial de ponta.

Governou em período de crise. Recebeu o Paraná sem recursos para aplicar em obras quando o estado precisava ao menos renovar a infraestrutura. As estradas estavam deterioradas. Os corredores de exportação até o porto de Paranaguá eram intransitáveis. Lerner planejou o anel viário de integração e licitou concessões de pedágio para recuperar a malha rodoviária essencial.

A solução, inteligente e inevitável, não era popular. Ninguém gosta de pagar uma nova taxa. Mas Lerner teve a coragem de adotar a fórmula. Requião imediatamente passou a criticá-la e a prometer que se voltasse ao governo o pedágio seria eliminado. “O pedágio ou baixa ou acaba”, bradava. Em oito anos de governo, não baixou nem acabou com o pedágio. Ao contrário, o pedágio subiu e o sistema foi ampliado com novas praças.

Essa história tem a sua moral. Carecemos de heróis, há muitos vilões à solta, erramos o alvo dos problemas mais sérios. A discussão ainda está aberta em torno da eficácia técnica e da correção das medidas adotadas por Jaime Lerner em seu governo. Mas os nossos atores preferem debater outros temas, em vez de enfrentar os mais ásperos e polêmicos, em proveito de uma sociedade não somente mais justa, mas também mais inteligente. Mesmo que a administração de Lerner exija ainda correções de rota, a situação propõe questões que o Paraná terá de enfrentar e resolver.

É possível admitir que a máquina burocrática do governo, um trambolho gigantesco, sempre foi preservada a bem dos votos que seguram nas suas cadeiras um gordo contingente de deputados e senadores? Não deveria ser, mas é, na prática. E Lerner não atacou esta frente. Não fez a reforma do Estado, não reduziu o tamanho da máquina.

 

As transformações ousadas que promoveu em Curitiba mudaram a face da cidade e a autoestima da população

 

O reino da indiferença

Mas tudo bem, como se diz, talvez com frequência adequada a almas parvas. O que mais impressiona é a indiferença de setores que teriam de expressar suas opiniões de maneira clara diante dessa disposição explícita de Requião et caterva de produzir o linchamento moral de Jaime Lerner.

Qual o que. Esta é uma Província de Proprietários e Prebendários. Perceba o leitor: estes senhores exibem ares de quem anda de braços com a modernidade, mas seu comportamento faz suspeitar de que a história ainda não passou por aqui. A maioria dos empresários nativos depende de favores. Quem banca este jogo, para perder sempre, é o Estado, à custa da desorganização de suas finanças. Esta gente berra de irritação quando lembra que o Banestado foi privatizado. E não há quem os conteste, porque a chamada intelligentza nativa, se existe, é pobre e pouco corajosa quando se trata de colocar em risco alguns de seus privilégios, mesmo que seja o privilégio de um curto salário mensal.

Diga-se que nesta terra ignara, os que se acreditam intelectuais ou críticos desse processo não entram em bola dividida. São raras as exceções. Alguns, que exerceram funções no governo de Jaime Lerner, hoje tecem loas a Requião e fazem o possível para que esqueçam o seu passado. A verdade é que esses intelectuais estão desesperados na perspectiva de perderem benesses concedidas pelo governo e outras fórmulas criadas pelo poder para manter em sossego cabeças pretensamente pensantes, em troca de prebendas, isenções e incentivos.

Os intelectuais nativos gostam do Estado Mecenas nem mais nem menos que os empresários gostam do Estado Pronto-Socorro. Todos querem amparo rápido, abrupto, porém seguro, do Príncipe, do Senhor, do Pai. E Jaime Lerner já não é promessa de nada disso. Quem prefere ficar de cabeça acesa, de certo já vive uma grande depressão.

 

Lerner concede atestado de não lernista

Jaime Lerner decidiu acabar com a pendenga dos candidatos que se esforçam para dizer que não possuem vínculos com ele. Decidiu passar atestados de não lernista.

O texto, de sua autoria, foi publicado em primeira mão no blog de Fábio Campana (www.fabiocampana.com.br).

 

ATESTADO

Jaime Lerner

Sempre que chega o período eleitoral, a or­dem entre os candidatos é de se descolar de qualquer político ou coisa que seja polêmica ou que tenha reações contrárias sem levar em conta todas as coisas positivas as quais esses políticos também se associaram.

Beto Richa, não precisa jurar que não é lernista; Osmar Dias, também não.

Vou facilitar a vida de vocês e de seus marque­teiros. Estou emitindo atestados de “não lernistas”. Podem apanhá-los na chapelaria.

Digo chapelaria porque certamente o chapéu de Curitiba fornecerá muitos votos. Herdou-se uma cidade que é referência no mundo todo, apesar de todas as suas carências e mazelas.

E ao Estado que se candidatam também creio ter dado alguma contribuição, como a onda de industrialização que multiplicou empregos e arrecadação.

Espero que o atestado de “não lernista” possa contribuir para que os ilustres candidatos aproveitem melhor a campanha, com mais propostas e menos sofismas.

E que tenham a coerência de pedir aos lernistas que não votem neles.

 

 

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