Aqui na terra tão jogando futebol

Guiada por chuteiras, por pés descalços; escorregando em canelinhas finas, canelinhas tortas; glorificando canhotas; alimentando ataques, contra-ataques: bola de futebol, que desperta a cobiça quando rola no gramado verdinho dos grandes estádios ou nos campinhos de várzea das periferias ou em qualquer pedaço de chão improvisado… Driblando as emoções mais intensas, num eterno duelo de estrelas, na edição deste mês, música e futebol.

Esta coluna vai percorrer o mês de junho e o início de julho, o que me coloca em desvantagem diante dos jogos, não sei dos rumos de nossa seleção enquanto a escrevo. Então, se por ventura algum desastre aconteceu e não fazemos mais parte do campeo-
nato enquanto você se embala por aqui, perdoe, leitor, não é provocação. Achei que essa era uma boa hora para falar de nossas duas preciosidades.

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Wilson Simonal comandava a massa: Aqui é o país do futebol

Para abrir os trabalhos, o inesquecível Wilson Simonal, que levantava poeira em seus shows e que fez cantar multidões a composição de Milton Nascimento e Fernando Brant Aqui é o país do futebol, nada é mais importante que uma boa partida: “Nesses noventa minutos / De emoção e alegria / Esqueço a casa e o trabalho / A vida fica lá fora / Dinheiro fica lá fora / A cama fica lá fora / Família fica lá fora / A vida fica lá fora / E tudo fica lá fora”.

Em uma objetiva pesquisa, Zuza Homem de Melo concluiu que provavelmente a primeira música ligada ao futebol coincide ter sido feita por um dos mais queridos músicos do país e dessa coluna: Pixinguinha, acompanhado de Benedito Lacerda. É o choro Um a Zero, inspirado na vitória sobre o Uruguai, em maio de 1919, quando o Brasil foi campeão Sul-Americano – gol do lendário Friedenreich na segunda prorrogação.

74 anos depois do lançamento instrumental, as famílias dos compositores autorizaram e Nelson Ângelo tratou-a com letra: “Vai começar o futebol, pois é, / Com muita garra e emoção / São onze de cá, onze de lá / E o bate-bola do meu coração / É a bola, é a bola, é a bola, / É a bola e o gol / Numa jogada emocionante / O nosso time venceu por um a zero / E a torcida vibrou”.

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Jackson do Pandeiro: Esse jogo não pode ser um a um


Havia a turma do Um a zero e havia também Edgar Ferreira, que não se conformava com o resultado Um a Um. O coco, sucesso na voz de Jackson do Pandeiro, trouxe, além da revolta do placar, as cores, a fazer alusão ao Santa Cruz, Náutico e Sport, os principais times do Recife: “Esse jogo não pode ser um a um / O meu clube tem time de primeira / Sua linha atacante é artilheira / A linha média é tal qual uma barreira / O center-forward corre bem na dianteira / A defesa é segura e tem rojão / E o goleiro é igual um paredão / É encarnado e branco e preto / É encarnado e branco / É encarnado e preto e branco / É encarnado e preto”.

Estamos todos acordados que em época de Copa do Mundo todo brasileiro é íntimo de futebol, já vi pessoas que não sacam nada do esporte a palpitar sobre impedimento, escalar jogadores e morrer em apostas. Um conselho: antes de se aventurar em mesas-redondas, dê uma olhadinha ou uma escutadinha em algumas regras essenciais. Kleber Albuquerque as explicou em sua Futebol para principiantes: “O futebol é uma caixinha de surpresa / Toda verdinha e amarradinha / Com uma linha / De branca cor / E bem no meio a gente bota uma bolinha / Só entre vinte dois jogadores / E a coitadinha toma chute / Cabeçada, pontapé e canelada / Só não pode pôr a mão / Com exceção de dois meio desinturmados / Fica um de cada lado / Só prestando atenção / Numa casinha toda enfeitada / Toda rendada de filó”.

Mesmo contrariando os amigos que não suportam lembrar ou falar de 1950, gosto de voltar à data porque foi lá, dias antes da grande tragédia do gol de Ghiggia, que se deu o maior espetáculo daquela Copa, e acho até que de todas as Copas. Quem teve a sorte de pisar no Maracanã no dia 13 de julho de 50 viu o Brasil vencer a Espanha por 6 a 1, mas viu mais, viu espetáculo nas arquibancadas. Animados com o placar, torcedores puxaram Touradas em Madri, de Braguinha e Alberto Ribeiro, que se espalhou num coro gigantesco de quase 200 mil vozes. Imagine!? Duzentas mil pessoas a cantar Braguinha, isso sim é que é espetáculo de futebol! A música em questão não tinha relação com o esporte, foi composta em 1938, quando a Espanha dominava os jornais com notícias de sua guerra civil, mas isso pouco importa, o que vale mesmo é como ela, por um dia, virou hino de futebol: “Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha / Queria que eu tocasse castanhola e pegasse um touro a unha / Carambas, caracoles, sou do samba, não me amoles / Pro Brasil eu vou fugir, isso é conversa mole para boi dormir”.

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1970: 90 milhões em ação

Pra não ficar na fossa de 50, melhor passar para data mais animada. Transmissão via satélite, Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino marcaram o tricampeonato brasileiro no México em 1970. O mérito proporcionou que a taça Jules Rimet fosse, pela primeira vez, entregue definitivamente a um país; ela veio para o Brasil e aqui permaneceu, oh!, até ser roubada e derretida. A glória do tri foi saudada pelo país ao som de uma encomenda de patrocinador. Pra frente Brasil era um jingle, caiu na boca do povo e mudou de status, virou música; a seleção ganhou o campeonato e a composição subiu mais um degrau e se transformou em hino. O autor? Miguel Gustavo, aquele que compôs maravilhas como Café Soçaite, Morengueira contra 007, E Daí? e o O Rei do Gatilho. A letra, todo mundo sabe, mas é bacana lembrar do tempo em que o país era menor e a seleção maior: “Noventa milhões em ação / Pra frente Brasil do meu coração / Todos juntos vamos / Pra frente Brasil / Salve a Seleção / De repente é aquela corrente pra frente / Parece que todo o Brasil deu a mão / Todos ligados na mesma emoção / Tudo é um só coração / Todos juntos vamos pra frente Brasil, Brasil / Salve a Seleção”.

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Vicente Barreto: Brasil, Mauro Silva, Dunga e Zinho / que é o Brasil zero a zero e campeão / ou o Brasil que parou pelo caminho, / Zico, Sócrates, Júnior e Falcão

O poeta nos disse que o amor só é bom se doer, tenho a impressão que no futebol isso também vale. Um pouquinho de sofrimento faz parte e prova disso é a insuperável dor de cotovelo de 1982. Tantas copas e títulos depois, parece que esse fracasso nacional ainda faz parte das manchetes informais, das pautas dos bares, das mesas de debates. Também faz parte da música, Vicente Barreto e Celso Viáfora lembraram o feito, ou o não-feito, comparando-o com outra época: “Brasil, Mauro Silva, Dunga e Zinho / que é o Brasil zero a zero e campeão / ou o Brasil que parou pelo caminho: / Zico, Sócrates, Júnior e Falcão”.

O campeonato de 1982 também entrou para a MPB com composição do jogador Junior e sua previsão às avessas em Povo Feliz. É uma pena que uma música tão singela e simpática tenha ficado como marca de ressaca moral eterna: “Voa, canarinho, voa / Mostra pra esse povo que és um rei / Voa, canarinho, voa / Mostra na Espanha o que eu já sei”. Se bem que o último verso da música anuncia: “tô aí e quero mais”, acho que todo mundo estava lá e queria mais…

E já que estamos no embalo dos sucessos que emplacaram durante os campeonatos sem êxito nos gramados, em 1986, Gal Costa espalhou a Setenta Neles, de Edgard Gianullo e Vicente de Paula Salvia. A música não levou a seleção além das quartas de final e ainda nos lembra vitória da Argentina, mas faz parte da história: “Vai começar de novo / É novamente tempo de paixão / Prepare o coração / Bate pé / É Brasil outra vez / Com a bola no pé […] Ô, ô,  ô, ô, ô, ô, ô, ô / Um grito novo a torcida uniu / 70 neles outra vez Brasil”.

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Wilson Batista, homenagem ao mais querido

Deixando um pouco de lado o campeonato mundial e focando no futebol cotidiano, não há como não pensar na maravilha do Samba Rubro-Negro, não penso no time em questão, mas na imagem poética, na categoria melódica e nas possibilidades de criação. A música é de Wilson Batista e Jorge de Castro: “Flamengo joga amanhã / Eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã / O mais querido / Tem Rubens, Dequinha e Pavão / Eu já rezei pra São Jorge / Pro mengo ser campeão [..] Pode chover, pode o sol me queimar / Que eu vou pra ver / A charanga do Jaime tocar: / Flamengo! Flamengo! / Tua glória é lutar / Quando o mengo perde / Eu não quero almoçar / Eu não quero jantar”.

E o Herivelto Martins, que em Nega Manhosa cheio de vontades, regulou dinheirinho para garantir diversão? “Deixei em cima do rádio uma nota de cinquenta / Vai à feira, joga no bicho / E vê se te aguenta / Economiza, olha o dia de amanhã / Eu preciso do troco / Domingo tem jogo no Maracanã”.

Ainda a tratar de flamenguistas, Jorge Ben Jor ganha taça dos que mais tratam do tema em suas composições, desde o ingrato do Fio Maravilha (que o fez trocar o nome da música num perrengue judicial) até quando ele conta que é Flamengo e tem uma nega chamada Tereza…

Chico Buarque também é daqueles que cantam sua paixão nas linhas na música. Compôs O Futebol para homenagear seus cinco atacantes preferidos: Garrincha, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro, a fazer comparativo entre jogador, pintor e compositor, porque há improvisos que, segundo ele, só a arte do futebol consegue. Lá pelas tantas de Meu caro amigo, divide com Francis Hime as notícias do país a contar que “aqui na terra tão jogando futebol…”. Mas está em Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném, a parte mais divertida de suas composições com bola. Chico a escreveu diante da ameaça do amigo: Cyro iria mandar de presente de nascimento para uma de suas filhas a camisa do Flamengo, Chico, tricolor desesperado, batucou a resposta antes do pacote aterrissar em Roma: “Amigo Cyro / Muito te admiro / O meu chapéu te tiro / Muito humildemente / Minha petiz / Agradece a camisa / Que lhe deste à guisa / De gentil presente / Mas caro nego / Um pano rubro-negro / É presente de grego / Não de um bom irmão / Nós separados / Nas arquibancadas / Temos sido tão chegados / Na desolação”.

Outro descontente foi o personagem de Gol Anulado, da dupla Bosco e Blanc. Ele é o marido de uma torcedora que assistia jogos em silêncio absoluto para não revelar sua preferência ao companheiro, até o dia em que a emoção do ponto a deletou: “Quando você gritou Mengo / No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar / Três anos vivendo juntos / E eu sempre disse contente: / Minha preta é uma rainha / Porque não teme o batente, / Se garante na cozinha / E ainda é Vasco doente”.

E como não lembrar de Lamartine Babo? Ele fez assim, como quem torce de verdade, o hino do Botafogo, do Flamengo, do Fluminense, do Vasco e até do América, o seu time do coração. Lupicínio Rodrigues também escreveu hino, mas só o do Grêmio.

Dizem os historiadores que os anos 30 foram decisivos na relação entre o futebol e a sociedade brasileira. Fábio Franzini explicou assim: “Enquanto o meio político-cultural começa a redefinir as concepções acerca do ‘nacional’, a popularidade do futebol é impulsionada tanto pelo desenvolvimento do rádio como meio de comunicação de massa quanto pela oficialização do profissionalismo dos jogadores, fato este que transforma o jogo em trabalho”. E a música, que também não é só diversão, usou de seus poderosos encantamentos para contar a grande paixão nacional e, mais uma vez, ser testemunha de um capítulo da história de nosso país.

Tenho cá, sem estudo nem método, meu jeito de explicar: ela musicista, ele oficial que trabalhava no Brasil. Ela pianista, ele desportista. Ela brasileira, ele inglês. Ela a música, ele o futebol. A intimidade do futebol com a música, pra mim, vem do casamento de seu pai oficial no Brasil, Charles Miller, com a pianista brasileira Antonieta Rudge.

De uma maneira ou de outra, tudo o que se observa em volta, é só para concluir que sim, aqui é o país do futebol! E é também o da música!

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