As Copas das Copas

As 19 Copas das Copas consagradas por suas histórias

O pretensioso governo de Dilma Rousseff proliferou nas mídias que a Copa de 2014 será a Copa das Copas. Eita, Dilma, há tantas Copas das Copas desde 1930, tivemos 19 Copas das Copas. Imagine só que no México em 1970 a seleção de Pelé, Tostão, Jairzinho, era só mais uma entre as 69 nas eliminatórias, estava totalmente desacreditada, e o Pelé chegou a ficar no banco já no campeonato, paradoxalmente o elenco estava bom. Ou em 1958 na Suécia, o nosso primeiro título em cima dos donos da casa, uma chuva encharcou o Råsundastadion, foi tão catastrófico o temporal que os anfitriões passaram noite adentro enxugando o gramado. Como se enxuga um campo de futebol? Com colchões, amigo, isso mesmo, a escalação divulgada antes do jogo foi a de trabalhadores para secar o campo que assistiria Garrincha, Vavá, Zagallo, etc., etc. erguerem a taça de campeão depois do trauma de duas Copas antes.

E esse trauma? Se Uruguai pegar como primeiro do grupo e o mesmo acontecer com o Brasil, o estádio Mário Filho vai estremecer, a memória vai resgatar um nome: Ghiggia, o Vilão, ou Ghiggia, o Silenciador. Em 1950 bastava um empate para consagrar o primeiro título para nós, estava 1x1, gritaria sem fim, Brasil seria campeão, porém aos 34 minutos do segundo tempo Ghiggia, o Vilão entra no nosso gol. Um único homem calou 200 mil torcedores, mais, foram 52 milhões de brasileiros que emudeceram. Ironicamente, Ghiggia é o único da seleção uruguaia de 1950 vivo, ele conta que depois do torneio a amizade com os jogadores brasileiros continuou, no entanto em sinal de respeito, a pauta dessa Copa nunca entrou nas conversas, falou também que se soubesse que causaria toda essa tragédia pensaria duas vezes em marcar o gol. 1950 foi uma Copa das Copas que já está mais ou menos enterrada, o tempo fez o trabalho de cicatrizar essa ferida e poucos são os que ainda se abalam com a lembrança dessa derrota. E 1982?

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1958

1982 pulsa em quase todos os brasileiros, futebol bonito, futebol arte e blá-blá-blá que fracassou. Essa Copa sim está bem viva ainda, parece ter sido superada pelos dois títulos que vieram depois, contudo ainda assim somos receosos quando tem alguém de muita graça, é caneta aqui, drible da vaca ali, balãozinho acolá, não demora muito para começar os comentários “esse cara não tem objetividade”, “cadê o gol?”, “o que adianta fazer isso e estar 0x0”. É uma sequela que deixou a talentosíssima seleção de 1982: Zico, Sócrates, Junior, Falcão e companhia. Nesse ano Paolo Rossi foi o vingador, italiano, mafioso, é claro! Anos antes tinha se envolvido em um escândalo de combinações de resultados e foi afastado dos campos por dois anos. Voltou para acabar com o sonho do tetra brasileiro.

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1962

Ficamos tão alarmados depois de 1982 que em 1994 foi bruto o negócio, mesmo a contar com o talentoso Romário, o inexplicável Raí, que esquentou o banco com a camisa 10, e Bebeto a eternizar a comemoração do neném. Era uma seleção que queria fazer o serviço, cumprir a função, sem espetáculo, sem graças, sem surpresas, passe aqui, lança lá e pimba, é gol! Simples. Tanto que nesse mundial o Brasil marcou 11 gols, por um que a Hungria em 1982 não marca o mesmo número em um único jogo, os húngaros meteram 10 na equipe de El Salvador, que fizeram o seu de honra. Foi a maior goleada na história das Copas.

E por falar em Hungria, vale lembrar a Copa de 1954, pois, embora queiramos, as Copas das Copas não é apenas Brasil. Nesse ano os húngaros eram uma máquina, atropelavam quem passava pela frente com placares que carimbaram oito, nove vezes as redes dos adversários num único jogo. Ferenc Puskás, de Budapeste para o mundo, foi eleito o melhor jogador da Copa, um dos melhores da história do Real Madrid. Os húngaros foram os responsáveis pela eliminação brasileira nas quartas-de-final. Quatro pra eles, dois pra nós.

Eles também meteram oito e sofreram três contra os alemães do ocidente (tempos de Guerra Fria) na fase de grupos, mas como cada jogo é um jogo e em futebol são onze contra onze e nada mais, na final se cruzaram de novo e desta vez a história foi outra, a Alemanha acabou com a invencibilidade de 32 jogos da Hungria e sagrou-se campeã.
Outro timaço que os germânicos deixaram com o título adorado pelos vascaínos – o vice-campeonato – foi o holandês em 1974. Com a própria Alemanha como anfitriã, a décima edição da Copa do Mundo foi uma Copa das Copas, trouxe Beckenbauer, Müller, Maier, etc., etc., além do inesquecível, inestimável, insubstituível, só não invencível, Carrossel Holandês, com o comando de Johan Cruyff, no meio, no ataque e na defesa. A Laranja Mecânica esmagava quem estivesse à frente, rápida e sem posições definidas, deixava os adversários perdidos em campo. O Brasil contava ainda com Rivelino, Uruguai tinha Fórlan. O número da edição caiu como uma luva, só tinha camisa 10, mesmo que jogasse com a 14 (Cruyff) ou com a 5 (Beckenbauer).

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1970

Holanda e Vasco têm em comum, de fato, o vice-campeonato, isso vale para os alemães também. Na última Copa – 2010 – os holandeses, depois de eliminarem o Brasil e chegarem à final, entregaram a taça para os espanhóis, cujo título foi novidade. Assim como em 1966 para os ingleses. Contudo, nesse ano de 1966, o protagonista da Copa foi o bandeirinha da final Tofik Bakhramov. O jogo foi entre Inglaterra e Alemanha, pediu prorrogação e já nos tempos adicionais o inglês Hurst chuta ao gol, a bola bate no travessão e volta pro chão, porém visivelmente fora do gol e o bandeirinha soviético valida. Rumores que já haviam acertado a vitória inglesa antes da Copa, a versão de Tofik é outra: “Stalingrado”. Na guerra, em 1942-43, teve a batalha de Stalingrado, onde os alemães deixaram milhões de civis e soldados soviéticos mortos. 24 anos depois o bandeirinha vinga seus conterrâneos e dá o gol decisivo para o único título inglês. E na profecia de Nelson Rodrigues dois dias depois da final, “nunca mais a Inglaterra vai conseguir impor o seu futebol sem imaginação, sem arte, sem originalidade”.

Os boatos de acertos, compras, vendas, etc., etc., em Copas do Mundo não é exclusividade da Copa de 1966. Quem não se lembra de 1978 na Argentina? Bastante gente na verdade, porém todo mundo já ouviu falar da marmelada que foi o jogo Peru e Argentina. Entrou um Peru em campo, saíram seis. Depois da vitória do Brasil por 4 a 1 sobre a Polônia, os hermanos teriam que tirar um saldo de quatro gols para passarem à final. E a seleção peruana era uma baita seleção, classificou-se como primeira do grupo à frente da Holanda, cujo futebol não era o mesmo de quatro anos antes, mas ainda assim o favoritismo batia em sua porta. Sem contar que os argentinos jogariam depois dos brasileiros, dessa forma saberiam quantos paus precisariam para construir a canoa. Nunca se comprovou a facilitação do Peru, más línguas contam que o goleiro peruano recebeu uma gorda quantia em dinheiro, nada se sabe, contudo a pulga fica atrás da orelha. Não podemos também desmerecer a seleção argentina, mas 6 a 0?

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1994

Ficou feio para os argentinos essa desonestidade, por isso que o bicampeonato era importante para de fato os consagrarem melhores do mundo. Em 1982 não tiveram muita sorte, caíram no grupo da morte e foram desclassificados pelo Brasil de Zico e a Itália de Rossi. Quatro anos mais tarde era a oportunidade perfeita, Maradona estava em plena forma física e técnica, vinha comendo a bola, mas o que a gente pode esperar dos argentinos? Sem dúvida era um bom time, porém sem fatores externos não sabemos se seriam campeões. O que veio na Copa de 1986 de fora foi “la mano de Dios”, contra a Inglaterra pelas quartas. Diego Maradona dá uma de levantador de vôlei e manda de segunda a bola pro fundo da rede inglesa. Porém, se retrata com um belíssimo gol, onde ele pega a bola no meio do campo, a deixar quase todo o time inglês para trás. Esse gol foi eleito em 2002 o mais bonito de todas as Copas. 1986 foi uma Copa das Copas, o estádio Azteca, no México, estava lotado com 114.600 pagantes, Argentina campeã sobre a Alemanha, mesma final de 1990 na Itália, com uma história diferente. Maradona já não era um jogador em ótima fase, mas a Argentina vinha embalada pelo título e a Alemanha pelo trauma de duas derrotas seguidas em finais. Neste ano, no entanto, Franz Beckenbauer comandava o time, agora fora dos campos. A responsabilidade era o tri. Para quem derrotou um dos mais memoráveis times da história das Copas – a Laranja Mecânica – a tarefa de estraçalhar um Maradona cansado não era de outro mundo, o placar e o jogo, entretanto, foram murchos: um para os germânicos de pênalti e zero para os hermanos.

Quatro vezes os argentinos chegaram às finais, levaram duas e perderam duas, uma foi essa de 1990 e a outra foi a primeira final da Copa do Mundo: 1930. O adversário era o bicampeão olímpico (1924 e 1928) Uruguai, adversário duro na queda, a primeira grande seleção de futebol que a história eternizou: a “Celeste Olímpica”. Ficou difícil para a Argentina vencer a Celeste, pois além de ter um timaço, quase imbatível, tinha o apoio dos uruguaios ali no pé do ouvido, corneteando os adversários e incentivando o time. A Fifa decidiu realizar a primeira Copa do Mundo no Uruguai por dois motivos: comemoração do centenário da independência e os dois títulos olímpicos da seleção. Com José Leandro Andrade no meio de campo a pensar por esse time – o que já tinha feito nas conquistas passadas – e com mais de 70 mil torcedores, o Uruguai entrou para história como primeiro time campeão da Copa do Mundo.

Em 1930 as viagens para cruzar o Atlântico ainda eram feitas a navio, pela demora e condições da viagem os italianos se recusaram a participar da primeira Copa, para dar o troco, os uruguaios não foram até a Itália. Deveriam ter ido e devolver dentro de campo.

Sem a implacável Celeste, a final combinou os italianos contra os tchecos. A Azurra contava com Giuseppe Meazza (que hoje dá o nome ao estádio da cidade de Milão, porém quando o Milan joga é chamado de San Siro, o nome de Meazza é pronunciado para os jogos do Internazionale), além de grande elenco, inclusive internacional, pois Bento Mussolini tratou de naturalizar ótimos jogadores para ter uma Itália campeã, inclusive a Copa se realizaria lá para que o fascismo pudesse mostrar a sua cara. Era um ótimo time, estreou com golea-
da, 7 a 1 em cima dos estadunidenses, mas a frase do ditador deve ter sido a motivação-mor: “Vencer ou arcar com as consequências”. Deu Itália, os jogadores deveriam estar tão traumatizados com a frase de Mussolini que deu Itália nessa e na Copa seguinte.

Em 1938 o cenário era um pouco diferente, a Copa foi na França, sem a pressão de Mussolini. Mas a Azurra estava embalada, tinha, além de Meazza, Piola. Porém, esse ano trazia um adversário, que dizem ser o melhor futebol do mundo, há controvérsias, o Brasil. Leônidas da Silva, inventor do gol de bicicleta, e Domingos da Guia guiavam o time. Na semi, no entanto, a então atual campeã do mundo teria que passar por esse Brasil, sorte italiana: Leônidas da Silva, o Diamante Negro (o chocolate foi batizado em sua homenagem), não jogou e a Itália carimbou o passaporte: final contra a Hungria. E com o time que tinha, a Itália foi bicampeã em terras francesas, que só receberiam uma Copa do Mundo novamente 60 anos depois.

Pois, 60 anos depois os franceses não deixariam passar, e após aquele time da década de 1980, que tinha Platini e companhia, não surgira nenhum outro a altura até 1998, o time todo era bom, time de craques. Zidane, Barthez, Petit, o jovem Henry, etc., etc. A assistir esse time da França, sem falar da surpreendente Croácia, cujo terceiro lugar foi merecido e quiçá pouco, é difícil afirmar que a Copa cá no Brasil vai ser a Copa das Copas – o governo deve estar com um lobby muito bom sobre o espetáculo dentro de campo. Pois, aquela final de 1998 foi inesquecível, os franceses passearam em campo, foi um espetáculo, há quem diga que foi comprado, mas a França com todos aqueles nomes não precisava comprar nada. Zidane se tornou um mito, bom e mau. Quem se esqueceu da cabeçada que o Zizou deu em Materazzi? Em 2006, na Copa da Alemanha, era outro Zidane em campo na final e desta vez não deu para os franceses, a Itália depois de 24 anos voltou a ser campeã.

Quatro anos antes o título foi nosso. Foi a primeira Copa realizada em continente asiático (Japão e Coreia do Sul), entramos no torneio um pouco desacreditados, com Ronaldo, o nosso craque, a voltar de contusão e todos insatisfeitos com Felipão por não levar Romário, mas fomos campeões, era uma Alemanha cascuda que aceitou dois gols nossos.

1958, 1970, 1994, 2002, são quatro títulos, porém somos penta. Falta 1962. Com certeza foi uma Copa das Copas, mostrou ao mundo nomes que jamais seriam esquecidos: Garrincha, Didi, Amarildo, Vavá, Nilton Santos, etc., etc., depois dessa seleção apenas outras duas teriam atuação semelhante: a consagrada tricampeã de 1970 e a injustiçada e derrotada de 1982, depois dessas nunca mais o Brasil assistiu outra seleção com tamanha qualidade técnica, nem as posteriores vitoriosas de 1994 e 2002 encantaram como essas três. E 1962 pôs, de fato, o Brasil no mapa futebolístico mundial, para nós brasileiros foi uma Copa das Copas.

E agora, 84 anos depois da primeira Copa, com 19 grandes Copas, temos que ouvir que esta será a Copa das Copas. Poxa, Dilma, 1954 foi fantástico com os húngaros e alemães, vinte anos depois teve o Carrossel Holandês, em 1958 foi nosso primeiro título, em 1950 nossa primeira grande derrota, em 1930 foi a primeira, o que lhe faz pensar que esta será melhor que as outras? Que esta será a Copa das Copas? Mais cautela. Em 1950 todos pronunciavam que o título já era nosso antes do apito final, foi desastroso. Anunciar que esta será a Copa das Copas pode ter o mesmo rumo, ainda mais com essas histórias e esses jogos tão ricos.

 

Inacreditáveis de 1930

juiz-fluminense

O árbitro uruguaio Anibal Tejada (ao centro) e um dos bandeirinhas estão vestidos com paletós do Fluminense. Os jogadores são os capitães: Preguinho (Brasil) e Milutin Ivkovic (Iugoslávia)

 

Fluminense na primeira

Copa Era a estreia do Brasil em Copas, o adversário era a Iugoslávia, apenas cinco mil pessoas foram ao Parque Central prestigiar o espetáculo, o frio de 2ºC deve ter contribuído para espantar os torcedores. O árbitro uruguaio Aníbal Tejada para se proteger da baixa temperatura vestiu uma jaqueta do Fluminense (???).

 

Uniforme reserva

Também em 1930 teve outra interessante anedota. Brasil tinha caído no grupo dois, com a Iugoslávia e a Bolívia. Na estreia havia perdido de 2 a 1, restava o jogo contra os bolivianos para cumprir a tabela. Ambas as seleções jogavam de branco, o árbitro exigiu que a Bolívia vestisse o uniforme reserva, problema!, ele não existia. Solução: emprestaram dos uruguaios o azul celeste que não deu muita sorte, perderam de 4 a 0 para os brasileiros.

 

Última bola de 1930

Para finalizar a primeira Copa, a final. Uruguai e Argentina se enfrentariam ainda sem o padrão Fifa. Cada país tinha uma bola com peso diferente. A dos argentinos era mais leve. O jogo só aconteceu quando ambos concordaram em jogar cada tempo com uma bola. Os uruguaios venceram (4x2).

 

As Copas pelos cartazes

1930

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1998

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2002

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2006

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2010

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