Desconhecidos do trajeto

Rosel Soares, editor da Casarão do Verbo, Marcio Renato dos Santos e o ilustrador Osvalter Urbinati. Ilustração: Simon Taylor

 

Este texto é um verbete do Dicionário Amoroso de Curitiba, livro que Marcio Renato dos Santos acaba de lançar pela editora baiana Casarão do Verbo.

O sujeito pode estar dentro do ônibus ou em um trajeto pedestre. O importante, nesse caso, é ter uma rotina. Caminhando seria mais interessante. De preferência no mesmo horário. De segunda a sexta. De casa para o emprego, para a escola, para a academia até. No caminho, isso pode acontecer em qualquer cidade, mas em Curitiba há os desconhecidos do trajeto. É aquela mulher, que já passou dos quarenta, trabalha no banco e leva nas mãos, além da bolsa, o jornal Metro, distribuído na esquina. Um rapaz de mais de vinte, talvez até trinta anos, segue de bermuda, camiseta, tênis sem meia e óculos escuros até quando chove e os termômetros acusam dez ou menos graus. Podem passar outros transeuntes. A mulher que faz você virar a cabeça ou o homem que te faz suspirar. Há os desconhecidos da ida e os da volta, e também aqueles que seguem na sua contramão na ida e na volta, como aquele carinha que usa fone de ouvido e boné e aquela mulher que parece com quem, com quem? São desconhecidos, com os quais você nunca falou, nem vai falar. Mas se um deles fica doente e deixa de seguir no trajeto, você sente falta. Quando um deles entra em férias, o seu cotidiano se desequilibra. É, nem oi, nem olhar você olha, mas a ausência deles causa. São companheiros que compartilham o silêncio e, apesar do abismo, essas presenças oferecem alguma segurança. Se você cair, estrebuchando, um deles pode ajudar e dizer para a equipe de socorro que te conhece, de vista: ele sempre passava por aqui, ela era pontual, veja só. Então, um dia, aquele prédio em obras, que pareciam permanentes, começa a ser finalizado. Uma casa, aparentemente eterna, é demolida. Pintam a fachada daquele shopping. A sua missão na empresa está, misteriosamente, concluída. Você pode ser despedido. Ou convidado para atuar em outra corporação. Algo mudou. Aquela rota diária, com aqueles desconhecidos, vai desaparecer. Você mesmo não estará mais lá, ali. A sua cadeira no escritório é, enfim, utilizada por outra pessoa. Há um novo roteiro. A cidade se transformou, já é outra, com outros desconhecidos no seu caminho e só você ainda não viu.

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