Deus morreu. Ass: Nietzsche. – Nietzsche morreu. Ass: Deus.

Deus deve estar às gargalhadas, Nietzsche já está morto e o todo soberano ainda vive. Juno, que dá o nome ao corrente mês, foi para os romanos a rainha dos deuses, os gregos a chamavam de Hera.

Para os gregos, os da vida privada, do cotidiano, falar em rainha dos deuses é quase uma blasfêmia, pois eles tinham seus deuses próprios, não precisavam da Acrópole para agradecer, pedir, reverenciar, etc., etc. Não precisavam nem sair de casa, cada casa tinha um deus que protegia cada família. A religião era atividade doméstica. Então se você foi daqueles que ia à igreja para praticar o pecado com a menina que ajoelhava no genuflexório da frente, deu sorte de não viver no mundo grego. Aliás, todos nós demos sorte, afinal confessando bem todo mundo faz pecado, logo assim que a missa termina.

Os gregos mais antigos, os antigos aos gregos antigos, transformavam os familiares em deuses. Houve tempo em que o túmulo onde eram sacralizados os antepassados ficava no seio da família, dentro da casa, próximo à porta, e não era assombração, estava lá, sempre presente. Tão sagrado quanto os mortos, era também o fogo, da mesma maneira privado. Até era aceso em local onde o olhar gordo “herege” não alcançasse.

Então, Hera ser a rainha dos deuses tanto fazia para os gregos da vida de verdade, porque todas as divindades viviam na parte alta da cidade e não se misturavam com essa corja. Fustel de Coulanges muito claramente disse: “os deuses não aceitavam indistintamente a adoração de todos e quaisquer homens”. Eles estavam muito pretensiosos para quem foi vomitado.

Tanto tempo depois começaram a tirar a religiosidade do sagrado e deram-no características profanas. Os próprios medievos, tempo em que o cristianismo era moda e as pessoas acreditavam ainda nessas coisas de Deus, Cristo, purgatório, etc., etc., racionalizaram a existência divina. E os homens queriam cada vez mais compreender a existência, o sentido, a fôrma, que na modernidade chegaram a dizer: “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”. Más línguas contam que Deus chegou a falar: “Nietzsche está morto, permanece morto. E quem o matou fui eu”, mas não combina muito com o criador essa brutalidade, pois Nietzsche teve uma vida judiada, foi um enfermo do começo ao fim.
A apelar para a fenomenologia de modo bem grosseiro, Deus existe, se não existisse, não conceberíamos a ideia de Deus. Nada que nós pensamos pode não existir.

Enfim, em tempos antigos meu pai seria um ascendente a deus, a morte consumaria o fato, eu um aspirante e assim perpetuaríamos o Sagrado como iluminador da vida profana. Grande povo grego do universo particular que não usava a morte para matar deus, mas para pari-lo. Juno, Júpiter, Deus, Alá, Boreh, tanto faz, todos são deuses que matam e morrem. A certeza é cartesiana, logo, cogito, ergo sum e eu posso pensar que deus sou eu.

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