Folclore desdenhado

Manoel Ribas

 

Sebastião Neri consolidou um gênero de arte jornalística com o seu Folclore Político, alvo de várias edições e abordando figuras fortes da vida brasileira como Getúlio Vargas (de quem se dizia que até produzia piadas em seu favor) e Juscelino Kubitschek, este acompanhado de perto pelo autor. Não há coluna de política que não tenha um registro caricatural em torno de pessoas e eventos. Aqui no Paraná vários se empenharam no gênero como Antonio (Caco) Carlos Lacerda e Pedro Washington, este com um livro sobre situações paranaenses.

Do Caco há uma genial: nos tempos em que se dava bem com o guru Aníbal Curi fez uma crônica destacando a malícia e a sabedoria do homem que Canet Júnior chamava adequadamente de “o poder”. Como se desentendeu com o “turco” passou a criticá-lo asperamente. Como a pressão se tornava frequente, Aníbal fez enorme reprodução do artigo elogioso e colocou-o em destaque, um quase outdoor, no seu gabinete para que todos o vissem e relessem. Ao saber da manobra de Curi, Caco Lacerda saiu-se com uma mais do que espirituosa: “artigo de jornal como remédio em farmácia tem prazo de validade e aquele está vencido”.

Há personagens como Manoel Ribas em eventos exagerados às vezes tentando sugerir, como os mineiros fizeram com Benedito Valadares, que era ignorante, o que estava longe de condizer com a realidade. Mas da burrice suposta há algumas como a da inauguração de um bebedouro de animais em Castro: Maneco Facão se aproxima do objeto inaugural, apanha um copo e bebe o primeiro gole. No instante um cavalo teria relinchado.

Ou então aquela do presidente Eurico Dutra, que em viagem a Curitiba se refere ao Paraná como terra das araucarías. Ribas o justifica ao lado: está certo, não se diz estrebária, mas sim estrabaria. Isso para confinar o conhecimento do estadista ao mundo dos cavalos e dos rodeios ao gosto dos seus muitos inimigos.

 

O mito e a recriação

Maurício Fruet criava o folclore com situações constrangedoras para os seus amigos, que assimilavam tudo com fair play, e se transformavam em show: lembro dele cantando uma de suas obsessões “Voa, minha linda borboleta// voa procurando a ilusão// voa, porque a vida é tão boa// quando se tem um amor no coração”. Pois no comício das diretas, em meio à sua oratória, engoliu uma borboleta, uma bruxa enorme, uma nada reluzente mariposa.
Do Manoel Ribas há a clássica de sua chegada na Lapa e que não encontra uma só alma nos serviços do Estado, como no posto de saúde, na delegacia de polícia, na agência fiscal etc. Muito irritado, dá o brado, que aborrece até hoje os lapianos: “Lapa, berço de heróis; terra de vagabundos!”.

 

Uma cena no Palácio

Há estórias que precisam ser contadas com o fluxo dos causos, adequadas ao falar dos estancieiros dos Campos Gerais. Um cidadão humilde de Bocaiúva do Sul vai ao Palácio São Francisco pedir uma audiência com o interventor e o encontra no jardim a tratar as flores. Não sabe que se trata do governador e perguntado sobre o que pretende relata uma questão de terras no seu município em detalhes. O “jardineiro” o ouve com extrema atenção e feito o relato pergunta: e se ele não o atender? O cidadão responde de bate-pronto: “eu mando ele, com todo respeito, à pqp!”.

Entra no Palácio, vai ao segundo andar e fica horas olhando o passar de burocratas até que lhe abrem a porta do gabinete presidencial e ele vê que o homem que o vai atender é aquele que cuidava das flores no jardim. O ritual se repete e ele volta a relatar a questão de terras com todos os detalhes. Aí o presidente olha bem no olho do reivindicante e diz-lhe: “e se eu não puder atendê-lo?”.

O caboclo respira fundo e tasca “aí fica como nós combinamos lá embaixo”.
Dizem que Manoel Ribas testava as pessoas e o seu caráter, e teria atendido, no que foi possível, a petição do caboclo sincero.

Na verdade o folclore político, entre nós, tem sido desdenhado e tanto o factual como o mítico, aquele que se reproduz em variadas versões, é uma forma de axiologia, de apropriação dos valores, do comportamento político e nem os mais fechados, como Moisés Lupion, dele se safaram, como naquela estória do prefeito que perguntado como estava a sua zona (referia-se a zoneamento geoeconômico), o burgomestre replicou: “estava uma maravilha e recebia até mulheres de Londrina, aí o padre enfezou e fez uma campanha danada e conseguiu fechá-la!”.

Deixe uma resposta