Londres, 1888

Londres sempre me impressionou muito. Sua história é cercada por uma atmosfera misteriosa, e a cidade se caracteriza por permanentes chuvas finas, noites longas e gélidas, brumas impenetráveis e becos amedrontadores. Londres de Oliver Cromwell, o regicida enforcado depois de morto e que me fascinou ao derrubar a monarquia milenar. É um fascínio que avança sobre seus personagens históricos e também aos fantasiosos, que, em geral, são estruturados com uma dose extra de morbidez.

Leitor assíduo de Arthur Conan Doyle, na década de sessenta, li assustado as investigações de Sherlock Holmes no livro O Cão dos Baskervilles. Atravessei a barreira do tempo até 1665, o ano da peste bubônica que quase dizimou a cidade, segundo a brilhante narrativa de Daniel Defoe e que nos causa arrepios no seu Diário do Ano da Peste. Assim, sempre desejei ardentemente ir a Londres encontrar a Máquina do Tempo de H.G. Wells e descobrir a verdadeira identidade de Jack, the Ripper em 1888.

Interessei-me por Jack, O Estripador ainda garoto, quando li uma extensa reportagem em um magazine muito famoso no Brasil naquela época, a Seleções Readers Digest. Onze terríveis assassinatos foram cometidos na Londres vitoriana do final de 1888. Todas as vítimas eram prostitutas. No entanto, a polícia considerou como canônicos (autênticos) apenas cinco deles, os quais seriam de autoria de Jack, the Ripper, nome assinado em uma carta anônima enviada à polícia, mas provavelmente forjada. Foram elas Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowes e Mary Jane Kelly (a última e a mais violenta e aterradora de todas as mortes). Nesse tenebroso outono, ao longo de três meses, o sórdido e miserável distrito de Whitechapel, em East End, foi aterrorizado por esse assassino em série, o primeiro da história policial. A única carta considerada como verdadeira veio acompanhada por um pedaço de um rim da vítima e assinada From Hell (do inferno). O mais instigante de tudo isso é que depois de ter eviscerado e dilacerado o corpo de Mary Jane Kelly, Jack desapareceu para sempre por entre as brumas londrinas.

Desembarquei em Londres pela primeira vez em 1994. Estava com um mapa das ruas onde foram encontradas as vítimas canônicas de Jack, em Whitechapel. Tenho cá minhas “teorias” e precisava ainda “comprovar” alguns aspectos geográficos dos locais dos assassinatos. Não funcionou, Londres estava ensolarada e deslumbrante. Não havia brumas e nem chuva fina e muito menos “clima” para uma investigação criminal. Optamos, minha mulher e eu, por programas turísticos e dias inteiros no British Museum e National Gallery.

Voltei outras vezes, mas sempre encontrava uma Londres incrivelmente ensolarada e com uma profusão de atrações de todos os gêneros. Jack ficava em segundo plano. Sempre partia com a sensação de não ter cumprido o meu dever de “investigar” esse lendário assassino. Então fiz uma promessa: na próxima viagem, Jack teria prioridade.
Em 2012, com muito mais informações, desembarquei focado na minha missão. Foram seis dias intensos de programas culturais e gastronômicos e já antevia outra vez falhar em meu objetivo. No ultimo dia reagi ao fascínio que a Londres moderna exercia sobre o meu espírito e embarquei para a Whitechapel de 1888.

Na estação de metrô de Tower Hill, em frente à Torre de Londres, o relógio marcava 19h30. Era o início de uma noite fria e chuvosa, o clima adequado para o início de minhas “investigações”. Em seguida, chegaram os guias da London Walking, um pessoal que percorre em caminhadas os lugares históricos de Londres. Nessa jornada sobre o Estripador, em geral os guias são ex-agentes da Scotland Yard aposentados e que sabem tudo sobre Jack. Vários aficionados pela história do estripador se encontravam presentes. Pagamos oito libras por pessoa e começamos o tenebroso passeio pelos lugares dos assassinatos canônicos. A excursão é uma aula sobre a Londres vitoriana e tudo fascina. Os becos se sucedem e de repente estamos na Mitre Square, onde encontraram o corpo eviscerado de Catherine Eddowes. A praça parou no tempo e para quem conhece a história, o clima noturno, frio e chuvoso, ajuda nos arrepios. Naquela época era comum contratar uma prostituta por 3 centavos de libra em Whitechapel. Ruas e praças eram mal vigiadas e pessimamente iluminadas, o que facilitou a atuação de Jack. Assim, quanto mais a noite avançava, mais a caminhada, que durou cerca de 2 horas e meia, se tornava tenebrosa.

Paramos, finalmente, no velho mercado Spitalfields, na Commercial Street, onde muito próximo foi encontrado o corpo de Annie Chapman. Ali, tarde da noite, fomos “abandonados” à própria sorte pelo guia, a uma quadra do tenebroso Ten Bells, o pub centenário frequentado por Jack. Entramos e sentimos o clima de 1888. O ambiente estava escuro e soturno, com gente jogada nos cantos, bebendo, se agarrando e fumando. Um cheiro acre nos invadiu as narinas, o que nos fez bater em retirada. Voltamos para a Commercial Street e a encontramos deserta. Em silêncio, caminhamos em direção ao que achamos ser a estação de Tower Hill. De repente, um táxi desocupado saindo do nada desponta na esquina. Faço sinal e ele pára. Peço que nos deixe no hotel. No seu interior, senti um frio incomum. Um misto do clima gélido e um pouco de medo. Enfim, a Londres de 1888 e Jack, ficaram definitivamente para trás.

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