Nós, os bárbaros

Imagem: Jean Baptiste Debret

O que explica a nossa proverbial incapacidade de adotar valores e respeitá-los?
Vicente Ferreira costuma dizer que somos herdeiros da cultura latina e francesa, mas descendentes de um país como Portugal, que, como toda a periferia bárbara da Europa, não teve um Renascimento no sentido estrito, racionalista e científico.
O Brasil é de formação católica e ibérica. Durante quatro séculos foi um país escravagista. Impossível não admitir que essas raízes e essa experiência não tenham modelado a mentalidade brasileira.

Não se pode imaginar nada de mais retrógrado, nem supor que esse alicerce ultraconservador, que até hoje não nos permitiu aceitar plenamente a Reforma e o Século das Luzes, não tenha suas consequências. Eu as vejo na veia autoritária e estatólatra, principal traço de nossa formação e responsável pelos momentos mais odiosos de nossa história republicana.
Com essa cultura, nos tornamos um povo dado a fundamentalismos de toda a espécie, inclusive do mais chinfrim, aquele que separa as pessoas em dois blocos: os do bem e os do mal.

Assim caminha a humanidade nesta área do planeta. Somos obrigados a aceitar decisões como a do juiz que sentenciou que a umbanda e o candomblé “não contêm traços necessários de uma religião, a saber, um texto base (Corão, Bíblia), ausência de estrutura hierárquica e ausência de um Deus a ser venerado”.

Com isto o Meritíssimo excluiu todas as outras formas de religião – que não os cristãos, judeus e muçulmanos – do direito de terem sua fé tolerada e respeitada. Aliás, excluiu até uma das mais antigas, o judaísmo, já que esta não tem “estrutura hierárquica”.

O juiz certamente não leu (se leu não aprendeu) o que ensina Gilberto Freyre, cuja maior contribuição foi jogar por terra, desde 1933, com seu Casa Grande e Senzala, a pregação anacrônica em torno de definições precisas sobre etnias e religiões (tão ao gosto das teses nazi-fascistas de arianismo e “raça pura” vigentes na Europa, à época), provando ser o Brasil o grande território da mestiçagem e sincretismo. Leiam o que ele disse:

“A mediação africana no Brasil aproximou os extremos, que sem ela dificilmente se teriam entendido tão bem, da cultura europeia e da cultura ameríndia, estranhas e antagônicas em muitas das suas tendências. Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena (…) Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo.”

Pois, pois, o senhor e o escravo continuam pairando nas sentenças (proferidas pelo senhor juiz), definitivas, excludentes, permitindo a profanação das crenças religiosas que não, Deus meu!, definidas em tais ou quais critérios. É o mesmo fundamentalismo que continua rondando, não apenas na Nigéria ou no Irã distantes, mas cada vez mais próximo a nós.

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