Alguma coisa está fora da ordem

Michel Foucault na aula inaugural no Collége de France, em dezembro de 1970, discursou sobre o discurso, rendeu um livro: A ordem do discurso. Seus temas levantados renderiam outros livros e mais outros, uma sucessão de livros. Foucault mostrou que há três formas externas de se isolar e controlar o discurso: a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade.

A primeira: Neto estava a discutir numa roda grande onde nem todos eram intimamente amigos e estranhamente bebiam Kaiser sobre os assuntos polêmicos da vida pós-moderna: aborto, as colunas do Luiz Felipe Pondé, homossexua-lismo, PT, os comentários do Bolsonaro, as esquisitices da Maria Bethânia, enfim, essas coisas. E ele descaradamente falou com essas fortes palavras: “esse cara sabe de nada, é um bicha”. Assustou a plateia, a patrulha pós-moderna não permite “bicha”, logo, Neto passou a ser ouvido com mais atenção e com mais cuidado. (Foucault nessa aula disse preciso: “é sempre na manutenção da censura que a escuta se exerce”.) Continuou a discursar com seus argumentos leves e soltos, aí um amigo derrubou cerveja, não pestanejou e brincou “ê, macaco”. Foi demais, Neto recebeu uma avalanche de censuras, chamaram de preconceituoso, racista, homofóbico, foi mais discriminado que discriminador, diga-se de passagem. Com certeza, ele não assistiu à aula do Foucault, não podemos proliferar qualquer coisa, em qualquer lugar, para qualquer pessoa, alguns pensam menos que macacos, é a ordem do discurso, a palavra proibida delimita e controla o discurso.

A segunda trata da loucura: Foucault falou que desde a Alta Idade Média o louco não pode mesclar-se com os outros discursos, exceto no teatro, onde a sua palavra é mascarada e pode ser ouvida, mas não levada a sério, porém já lhe é um privilégio poder falar. Vou um pouco além de Foucault e elevo a palavra do louco para toda e qualquer manifestação de arte, incluindo a música, incluindo a Balada do Louco. Na letra de Arnaldo Baptista e Rita Lee fica bem clara a delimitação do discurso proposta pelo francês: “Se eu sou muito louco por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz”. O louco é tão maluco que todo mundo é despirocado, menos ele, assim, seu discurso se isola dos outros.

Quando formos discursar não podemos ser loucos, nem falar o que os ouvidos não querem ouvir. Temos que fazer mais ou menos o contrário de FHC quando foi indagado por Boris Casoy sobre sua fé em Deus: balbuciou qualquer coisa, a deixar em evidência que não era um completo convencido da existência do criador, ou seja, falou o que ninguém queria ouvir quando não disse que acreditava e é louco de não crer em quem inventou o mundo.

Tem ainda a terceira maneira: a vontade de verdade. Hesíodo era poeta, Platão era filósofo. Hesíodo declamava a própria verdade em seu discurso, mas Platão desmentiu isso e mostrou que o poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor.

A dor que deveras sente. E a partir de então começou a labuta pela busca da verdade, tudo se embaralhou e alguma coisa ficou fora da ordem, fora da nova ordem mundial.

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