As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

O Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos disponibilizou neste ano sua décima primeira edição da lista de aves do Brasil. Entre residentes, vagantes, possíveis só em cativeiros e visitantes sazonais, elas são muitas e estão todas lá registradas e nomeadas com o latim nosso de cada táxon: 1.901 tipos diferentes.

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Ilustração de 1881 de John Gerrard Keulemans, Uirapuru-Verdadeiro. Imagem: Domínio Público

Esse espanto de número que assim, solto, serve para competição mundial de recorde com Colômbia e Peru, tem importância natural, sobrenatural, em nossa música. Muitos foram os compositores que se maravilharam com as penas e plumas que, em sinfonia muito particular, cederam ideias e inspiração.

É claro que nem todos os 1.901 tipos têm canto poético e são capazes de comover o mais sensível dos ouvidos, mas a quantidade garante que aqui e ali, lá e acolá, volta e meia, um passarinho sopre notas ou faça pose ou mostre cores ou revele comportamento para que um trovador registre e nos traduza.

Nosso mestre dos mestres, o compositor número um dessas bandas, Heitor Villa-Lobos foi o grande ornitólogo da pauta. Com todos os poros disponíveis à natureza e seus sons e mistérios, ele oficializou e decretou, dentro de sua genialidade, que o caminho para trazer os cantos de pássaros para a música estava aberto – não como temática, mas como som, como possibilidade estética, formal, nota por nota. O uirapuru, que tem aquele fantástico poder de fazer calar os bicos alheios em cantos que se demoram por dez minutos em míseros 15 dias por ano, deu nome ao poema sinfônico que Villa compôs em 1917. Lá dentro, lendas, histórias, tramas, lamentos; por fora, timbres e tons traduzidos para linguagem dos músicos que em alguns momentos denunciam a voz do pássaro.

Maravilha atemporal que serviu de afirmação à nossa identidade amazônica e de comoção para o futuro.

Asa-Branca

Asa Branca, inspiração do folclore nordestino que encantou Luiz Gonzaga. Foto: Dario Sanches

“Você sabe que o Villa-Lobos era profundo conhecedor de passarinhos? Ele conhecia esses passarinhos todos que eu estou falando. De vez em quando, eu escuto uma sinfonia do Villa, e o passarinho está lá. Ele aparece no meio da melodia, no tom certo. Villa-Lobos tinha ouvido absoluto. Então, ele sabe aquilo desde pequeno. E foi criado aqui no Brasil, que era uma floresta!” A entrevista de Tom Jobim para o livro 3 Antônios e 1 Jobim coloca os interesses de seu declarado mestre como seus também e por toda sua obra é possível encontrar as aves cantantes em melodia, em tema ou em metáfora. Alguns exemplos: Gávea havia sido composta para a soprano Maria Lúcia Godoy e depois de dar uma voltinha pelas mãos de Chico Buarque virou Sabiá, aquela que foi vaiada no III Festival Internacional da Canção. Há também Passarim e Pato Preto intitulando canções, mas em muitas outras, em que não estão no nome, os pássaros de Jobim figuram como importantes personagens, como por exemplo a denúncia em Águas de Março: “Passarinho na mão, pedra de atiradeira / É uma ave no céu, é uma ave no chão” ou a citação em Chovendo na Roseira: “Olha um tico-tico mora ao lado / E passeando no molhado / Adivinhou a primavera” ou os pedidos em Borzeguim: “Deixa o mato crescer em paz […] / O jacu já tá velho na fruteira / O lagarto teiú tá na soleira / Uirassu foi rever a cordilheira / Gavião grande é bicho sem fronteira / Cutucurim / Gavião-zão”. E por aí vai…

Como um mestre inspira o outro, Chico Buarque também atentou ao seu maestro soberano e, ao lado de Francis Hime, fez alerta às aves sobre os perigos do bicho-homem: “Ei, pintassilgo / Oi, pintaroxo / Melro, uirapuru / Ai, chega-e-vira / Engole-vento / Saíra, inhambu / Foge asa-branca / Vai, patativa / Tordo, tuju, tuim / Xô, tié-sangue / Xô, tié-fogo / Xô, rouxinol sem fim / Some, coleiro / Anda, trigueiro / Te esconde colibri / Voa, macuco / Voa, viúva / Utiariti / Bico calado / Toma cuidado / Que o homem vem aí”. Depois da letra pronta, Francis voltou à melodia e arranjou os metais para dar piados à música.

Os homens ligados à natureza conhecem o ritmo da vida em outra escala. Luiz Gonzaga, a partir de um tema folclórico e ajustes de Humberto Teixeira na letra, levou o voo da Asa Branca, como sinônimo de tempos ruins do Nordeste e saudade, para muitos lugares do Brasil: “Inté mesmo a asa branca / Bateu asas do sertão / Entonce eu disse, adeus Rosinha / Guarda contigo meu coração”. E se há pássaro que foge da seca, há aquele que comemora o verde da plantação, caso do Assum Preto, da mesma dupla, que canta cego o seu lamento: “Tudo em vorta é só beleza / Sol de Abril e a mata em frô / Mas Assum Preto, cego dos óio / Num vendo a luz, ai, canta de dor”.

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O nosso canário, o mais amarelinho dos pássaros brasileiros. Foto: Dario Sanches

As flautas do choro vez ou outra assobiam feito passarinho, batem asas e contam para o mundo sobre a voz dos que têm penas, talvez por isso o tema seja tão recorrente no gênero: Urubu Malandro, Tico-Tico no Fubá, Tico-Tico no Farelo, Gavião Calçudo e muitos outros.

Há ave que não canta, tipo o Meu Canário, de Jayme Silva, que ficou mudo por conta da desilusão amorosa: “Pela primeira vez, eu chorei / Porque fui desprezado pelo meu amor / O meu barraco agora ficou desarrumado / O meu canário já não canta, com certeza se desgostou / Piu-piu, piu-piu, piu-piu / Canta meu canarinho, para amenizar a minha dor”. E tem aquele outro tipo, o que não canta mesmo!, coisa da fisiologia, cantar nem é para todos. Mas essas aves meio desengonçadas que não afinam nota também encontraram espaço na MPB, a Galinha d’Angola e o Pinguim estão lá, a representá-las na Arca de Vinicius de Moraes.

E já que ocupar voz de pássaro para dar recado à pessoa amada é prática recorrente, é bom lembrar de Caetano Veloso, em Sou seu sabiá, que quando Marisa Monte canta, fica ainda mais bonitinha com a flexão de gênero: “Eu sou / Sou sua sabiá / Não importa onde for / Vou te catar / Te vou cantar / Te vou, te vou, te vou, te dar”, e de Vital Farias, que soube bem falar de saudade e surpresa: “Não se admire se um dia / Um beija-flor invadir / A porta da tua casa / Te der um beijo e partir”.

Esta é a terra de muitos canários. Cantadores, assobiadores, declamadores, eles estão por aí, a alegrar nossos dias, como compôs Carvalho e Zapatta para Tim Maia nos explicar: “Não precisa de dinheiro / Pra se ouvir meu canto / Eu sou canário do reino / E canto em qualquer lugar / Em qualquer rua de qualquer cidade / Em qualquer praça de qualquer país / Levo o meu canto puro e verdadeiro / Eu quero que o mundo inteiro / Se sinta feliz”.

E temos ainda o Canarinho, aquele da camisa da seleção, mas essa é conversa da edição passada…

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