Cidade dividida, legado prometido

Foto: Orlando Kissner

Evento movimentou a capital, mas não foi unânime. Legado alterna entre medidas provisórias, resultados pontuais e projetos a longo prazo

 

O sucesso da Copa do Mundo em Curitiba e a expectativa de que toda a cidade ganharia com a realização do evento dividiu a cidade – ou pelo menos parte dela. Enquanto alguns setores conquistaram lucro e comemoram perspectiva de legado definitivo, alguns trabalhadores com serviços ligados ao turismo parecem não ter aproveitado a Copa tão bem assim.

Taxistas de toda a cidade não escondem a decepção com a Copa do Mundo e a felicidade com o fim do mundial. Depois de esperar um mês de junho de muito trabalho, o taxista Roberto Freitas, há 22 anos na praça, conta que, para ele, a Copa trouxe prejuízo: “Pelo visto, em Copa do Mundo, turista não anda de táxi. Fechei o meu mês agora, final de junho, e percebi que ganhei 1/3 a menos do que em junho do ano passado. Trabalhei em todos os dias de jogo em Curitiba e não peguei um passageiro que estivesse indo para o estádio”, conta Freitas.

Levantamentos apontaram que Curitiba receberia aproximadamente 160 mil turistas estrangeiros e 500 mil turistas brasileiros. Para o setor hoteleiro, este número previsto pôde ser visto na prática e trouxe resultados positivos. Durante a Copa do Mundo – período compreendido entre 11 de junho e 13 de julho – a rede hoteleira de Curitiba teve ocupação de 52,5%. Nos dias 16, 20, 23 e 26 de junho, dias de jogos na Arena da Baixada, essa mesma média chegou a 68%.

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Foto: Luiz Costa

Os índices podem ser considerados generosos se for levada em conta a média histórica de ocupação deste mesmo período em anos anteriores. Geralmente o mês de junho apresenta baixa procura e uma média de 30% a 40% de ocupação na rede hoteleira.

Henrique Lenz, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Paraná, ABIH-PR, comemorou os resultados positivos: “Eu quero Copa todos os anos”, disse Lenz durante a divulgação da pesquisa que apresentou a taxa de ocupação dos hotéis de Curitiba durante o mundial.

 

Longo prazo

Enquanto em outros setores o benefício do mundial apareceu de maneira tímida ou alcançou benefícios e lucros temporários, na segurança pública do Paraná o resultado pode ser encontrado de maneira mais definitiva.

Trata-se do Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CICCR), que integra Polícias Civil, Científica, Militar e o Corpo de Bombeiros. Para Leon Grupenmacher, secretário de Segurança Pública do Paraná, o projeto já mostra resultados: “Profissionais de todas as instituições que trabalham com segurança pública ficam em um mesmo ambiente. Esse trabalho permitiu uma maior integração entre as instituições e uma maior agilidade no atendimento das ocorrências. Agora, o tempo de atendimento é muito menor e a disponibilidade é bem maior“, aponta.

Grupenmacher destaca o sucesso da operação envolvendo o mundial. “Fizemos um planejamento diferente de outros estados, em que a segurança no período de Copa ficou por conta das Forças Armadas. Aqui no Paraná todo o comando da segurança ficou com a Secretaria de Segurança Pública do Estado e as Forças Armadas ficaram como forças auxiliares. E, depois da Copa, a medida se mostrou eficaz, pois, neste setor, o Paraná foi considerado um dos melhores estados durante a Copa”, diz.

Dados divulgados pela Polícia Militar informam que os números de homicídios, furtos e roubos na capital paranaense no mês de junho caíram em relação aos índices de maio de 2014.

 

Legado definitivo

O Sistema Integrado de Mobilidade (SIM), financiado pelo PAC da Copa, é mais um exemplo de medida que promete um legado duradouro. O SIM instalou mais de 700 câmeras entre terminais e estações-tubo (622) e pontos-chave de ruas e avenidas (89).

A medida tem a finalidade de dar mais segurança aos usuários do transporte público e aprimorar o monitoramento das linhas de ônibus. Além das câmeras, atualmente painéis instalados nas estações-tubo e terminais avisam o passageiro a previsão de horário de saída do próximo ônibus.

 

O futuro

O tempo que o motorista leva para ir do aeroporto à rodoviária – reformada – diminuiu 10 minutos. A cidade tem mais câmeras para o monitoramento das ruas. Houve uma campanha (veiculada nos cinco idiomas dos turistas que vieram a Curitiba para a Copa) de conscientização sobre o respeito às mulheres. Quase 100 mil metros de sinalização foram revitalizados. Segurança e saúde prometem um trabalho de maior eficácia e integração. Centenas de profissionais de hotelaria e restaurantes foram treinados para melhor atender turistas. O intercâmbio cultural que a Copa do Mundo proporcionou promete ser um grande aliado de profissionais da educação.

Perspectivas de melhora não faltam e podem ser encontradas em cada um dos setores. Agora, encerrado o mundial e com a cidade fora dos holofotes, resta acompanhar a eficiência e o desenvolvimento desses e outros projetos.

 

Os últimos serão os melhores

Quase excluída e confirmada de última hora no mundial, capital paranaense surpreende e supera as expectativas

Dentro de campo, a Copa do Mundo de 2014 apresentou resultados imprevisíveis que fizeram deste um dos mundiais mais emocionantes. Não por acaso, a organização do mundial também trouxe algumas surpresas. Na contramão do fracasso da seleção brasileira, Curitiba foi destaque na Copa. A cidade-sede, que preocupou as autoridades envolvidas na organização do evento e entregou o seu estádio na última hora, surpreendeu e apareceu como uma das sedes mais eficientes e elogiadas por turistas e torcedores.
Ao final da primeira rodada, com 16 jogos realizados alternados entre os 12 estádios, dia 17 de junho, a Fifa e o Comitê Organizador Local da Copa fizeram uma avaliação geral das sedes e apontaram a Arena da Baixada como o estádio que teve a melhor operação nos jogos.

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Joseph Blatter esteve em Curitiba e encontrou Mario Celso Petraglia, presidente do Atlético Paranaense

No segundo jogo da Copa na capital paranaense, entre Honduras e Equador, no dia 20, o presidente da Fifa, Joseph Blatter esteve na cidade para ver de perto a Arena e conferir como a cidade recebeu o evento. Após o jogo, via Twitter, Blatter parabenizou o presidente do Atlético Paranaense, Mário Celso Petraglia, pelo sucesso na realização da Copa do Mundo em Curitiba.

A aprovação da Fifa e do COL tem fundamento. Enquanto outras cidades-sedes enfrentaram situações críticas com infraestrutura no local dos jogos (alguns estádios apresentaram problemas no banheiro e serviço de alimentação precário), mobilidade urbana ineficaz e confuso acesso ao estádio, Curitiba não teve grandes problemas nos quatro jogos do mundial.

Até o último e problemático jogo, dia 28, entre Argélia e Rússia, aconteceu sem maiores percalços. A partida era considerada “de risco” pelas autoridades de segurança nacional – preocupadas com protestos políticos da torcida russa, e com a pirotecnia tradicional da torcida argelina.

Felizmente, nada de preocupante. O juiz apitou o final da partida, a seleção argelina garantiu a histórica classificação para segunda fase, e Curitiba encerrou sua participação com excelência.

O reconhecimento do sucesso curitibano na Copa do Mundo veio na festa argelina, que tomou conta da cidade. A torcida da Argélia comemorou a classificação e cantou pelas ruas da capital paranaense: “Obrigado, Obrigado! Obrigado, Curitiba!”.

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