Donos do poder

Em novembro de 1958, Érico Veríssimo recebeu um jovem advogado na Editora Globo. Trazia dois calhamaços de título acadêmico: “A formação do Patronato Político Brasileiro”. Érico leu a obra e percebeu o seu alcance, muito além do que uma análise conjuntural do país. Um livro para ser lido hoje por todos que queiram compreender as raízes profundas e imutáveis de nossa formação.

Era um toque dissonante no espírito da época. O Brasil dos anos 50 parecia dourado. A alegria geral da Nação concentrada nos anos de JK. O crescimento de 7% em 1958 era a felicidade geral da Nação. Rasgavam-se estradas para o desfile da industrialização, reverenciada à passagem do Fusca. A inflação de 14% não assustava ninguém. Bastava vibrar com o futebol de Pelé e Garrincha. A Copa era nossa. A democracia parecia verdadeira. Levantada do chão, Brasília, a nova capital, coroava o esforço de todos. Inventou-se a bossa-nova e só restava sorrir e dançar conforme a música.

Nesse ambiente de otimismo e euforia nacional, uma cabeça pensante saiu na contramão. Aos 33 anos, Raymundo Faoro ousava fazer o mais profundo exame das elites brasileiras. “Sobre a sociedade, sobre as classes, o aparelhamento político impera, rege e governa, em nome próprio, num círculo impermeável de comando.” E desmascarava seus métodos e objetivos: “Esta camada muda e se renova, mas não representa a Nação, senão que, forçada pela lei do tempo,  substitui moços por velhos, aptos por inaptos, num processo que cunha e nobilita os recém-vindos, imprimindo-lhes os seus valores”.

Estas transformações, feitas para deixar as coisas no mesmo lugar, lembraram ao autor uma “viagem redonda” de um viajante que larga de um porto para retornar exatamente ao ponto de partida. Soterrada, uma corrente subterrânea, o povo, tenta emergir inutilmente; a sociedade tenta afirmar-se, o súdito tenta, desesperadamente e em vão, tornar-se um cidadão. Toda a luta desta estrutura superior de poder, o estamento, é para que nada se altere, nada capaz de provocar uma alteração na equação política.

Faoro encerrou os dois volumes do livro — que lhe custou dez anos de trabalho e muito estudo —, cético quanto à mudança de curso da sombria realidade brasileira. “De D. João I a Getúlio Vargas, numa viagem de seis séculos, uma estrutura político-social resistiu a todas as transformações fundamentais, aos desafios mais profundos, à travessia do oceano largo.”

O livro de Faoro é de leitura obrigatória para quem tem os neurônios em ordem e está livre de preconceitos intelectuais típicos na esquerda brasileira. Mas é de pouca leitura. Não faz sucesso na academia. Mas bem que podia arejar a cabeça de brasileiros que se põem em furor cívico e esperam mudar o destino da pátria nas urnas.

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