Prateleira. Ed. 153

A Era Vargas

eravargasQuem pode escrever a História? Este é um debate que a historiografia ainda não foi capaz de solucionar. Mas dizer quem pode escrever a história de Getúlio Vargas é uma dúvida que foi solucionada em 2001 e ressolucionada em 2014. Depois da leitura de A Era Vargas, trilogia reeditada no mês de maio, de José Augusto Ribeiro, os historiadores poderão largar mão dos preconceitos acadêmicos e verem a beleza que é a obra que conta a vida do gaúcho que conquistou um quadrinho na cozinha de muitos brasileiros.

Zé Augusto dedicou uma vida para compor a obra, em 1979 já era fervoroso estudioso de Getúlio Vargas, fez um documentário junto com Alzira Vargas (filha e biógrafa) sobre os 25 anos do suicídio. Foi consultor do filme Getúlio, em cartaz até pouco tempo, norteou o diretor e o elenco. “O João [Jardim, diretor e roteirista] trabalhou e pesquisou muito para entender o personagem, que é muito complexo. Quando começamos a conversar, há pelo menos cinco ou seis anos, ele tinha outra visão de Getúlio: um homem indefeso, passivo, inerte diante da crise. Tentamos, Celina Vargas, Reynaldo de Barros, um amigo nosso e eu, convencê-lo de que não tinha sido assim”, disse o autor. E quem viu o filme pode constatar justamente o que Zé Augusto afirmou, um Getúlio Vargas muito consciente do que se passava, embora já cansado de brigar. E por sugestão de Leonel Brizola, José Augusto Ribeiro escreveu mais de 1.500 páginas divididas em três volumes sobre a vida do homem Getúlio Vargas, do início, em 1882, em São Borja, até o célebre testamento em que deixa a vida para entrar para a história.

O primeiro volume recua antes de Getúlio e apresenta o contexto vivido, o que era o Brasil e o Rio Grande do Sul – um lugar muito peculiar, um pouco díspar do resto do país. Em 1884, dois anos depois do nascimento de Vargas, os gaúchos já tinham alforriado 90% de seus escravos. Seu avô e seu pai eram homens ativos na política, um lutou na Revolução Farroupilha e o outro na Guerra do Paraguai, portanto o ambiente e a família propiciavam a vinda de um Getúlio Vargas, homem que rompeu com a política aristocrática do café com leite, o coronelismo e as mazelas que reinavam na República Velha. E é até esse rompimento que o primeiro volume caminha.

O segundo conta os períodos de Getúlio Vargas no cargo máximo do Executivo, os primeiros quinze anos (1930-1945), onde ele é um homem bem contraditório, pois sabe que o governo brasileiro tem uma dívida social com seu povo por tanto tempo de escravidão e indiferença da República Velha, porém torna-se um ditador. E a segunda etapa (1950-1954), quando já passa por tempos difíceis, de muitas manifestações públicas e de gabinete contra ele, mas ainda consegue feitos que perpetuam na história, como a criação da Petrobras.

Zé Augusto dedica o último volume a um único mês, agosto de 1954, quando acontece o suicídio. O autor esclarece qualquer picuinha ou falácia criada em torno da morte do presidente, cada detalhe dos últimos vinte dias é desvendado no virar das páginas.

José Augusto Ribeiro não foi o único a estudar uma das mentes mais brilhantes que esse país já fabricou, logo as contradições e contestações são inúmeras. Ele diz: “Sinto como se estivesse dando a um amigo uma gravata que não corresponde a seu gosto e ele se sentirá obrigado a usar”. Não precisamos vestir a mesma gravata todos os dias, mas uma de tão bom gosto vale o uso.

 

O Poder das Ideias

O_PODER_DAS_IDEIAS_1333657389PCarlos Lacerda é lembrado por ter sido a principal oposição de Vargas e demonizado por ter apoiado o golpe de 1964. No entanto, sua habilidade para discursar é algo que não pode ser esquecido. O Poder das Ideias trata de registrar alguns de seus discursos. Lançado em 1963, um ano depois já estava na sua 4ª edição, esta, que chegou às prateleiras antes do golpe, tem um discurso escrito especialmente para o volume: Manifesto Pela Reforma Democrática. Por ter sido contra o populismo estatólatra, muitos, equivocadamente, associaram a sua imagem à direita, porém na leitura de cada discurso transparece o seu espírito democrático que ultrapassa as barreiras entre jacobinos e girondinos.

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A morte de Ivan Ilitch

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Não à toa, Dalton Trevisan disse certa vez que todo mundo morre duas vezes, a primeira é quando lê Ivan Ilitch, novela publicada em 1886. De fato, Leon Tolstoi em poucas páginas nos mata, morremos junto com Ivan, um funcionário do Império dos Romanov que adoece e não conseguem tratá-lo. Sofremos a dor de Ivan por causa da indiferença de sua mulher ou de sua filha, que chega alegre com o noivo; queremos, como ele, desfrutar da morte – ora agonizante, ora serena – em paz. Mas Ivan percebe que aquela angústia, outrora desprezada pelos familiares, agora trazia desespero ao filho, desamparo à mulher e pedia um fim. O destino é anunciado no título, mas Tolstoi conduz-nos de tal maneira que a morte não é mais o último suspiro, passa a ser a desgraçada labuta de poder, em paz, nunca mais suspirar.

Mia Couto

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Quem abrir um livro do Mia Couto tem que estar preparado para tudo de mais sensível, ou melhor, ir despreparado, sem pudores, assim o moçambicano irá tomar de assalto suas abstrações e as levará para cada enredo mágico, fantástico e belo. Ele nasceu em 1955, na Beira, Moçambique, além de escritor — de prosa e poesia — é também biólogo. Seu romance Terra Sonâmbula está entre os dez melhores livros africanos do século XX – há quem encontre semelhança com Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, pelas inversões nas frases e invenção de palavras. Além de tudo isso, Mia Couto foi vencedor do Prêmio Camões em 2013.

O trato que Mia Couto tem com o texto em Venenos de Deus, remédios do diabo é sedutor, diz o óbvio com surpresas. A vida dos cinco personagens é mentirosa, chega a ser quase esquizofrênica, onde não consegue diferenciar o sonho da realidade. Bartolomeu é um enfermo, velho e ex-mecânico naval, Sidónio Rosa é um médico português que tenta tratar sua doença. Munda é mulher de Barto — como ela o chama — uma senhora muito rancorosa. Nas palavras dela “Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor”. Deolinda é a única filha deste fracassado casamento, já adulta foi ganhar a vida e é muito ausente. Além de Suacelência, o suarento e corrupto administrador de Vila Cacimba, um lugarejo imerso em poeira e neblinas enganadoras. O envolvimento dos cinco personagens na trama é pasmoso.

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