Superamos 1950

A mais vexatória derrota do Brasil tem um nome: Luiz Felipe Scolari

 

Finalmente superamos 1950. A humilhante derrota por 7 a 1 no dia 8 de julho de 2014 foi o maior revés da história do futebol brasileiro, só levamos mais gols num amistoso em 1934 contra a antiga Iugoslávia, na ocasião assinalamos pelo menos quatro. Em 1920, o Uruguai carimbou um 6 a 0, mesmo número de gols que os argentinos em 1940, na Copa Rocca, naquele momento chegamos a marcar um. Em Copas do Mundo o maior número de gols levados tinha sido quatro contra a Hungria de Puskás, em 1954. A maior diferença negativa no campeonato mundial era a derrota de 1998 por 3 a 0 para França, ou seja, levamos em seis minutos da Alemanha o que não tínhamos levado em toda a história da Copa.Tudo leva a crer que a Amarelinha, como com piedade o jogador alemão Podolski pediu respeito depois do massacre, não impõe mais autoridade como outrora.

Estas sete bolas nas costas trazem questionamentos e respostas sobre amplas esferas, desde dentro das quatro linhas, a passar pelos bancos da comissão técnica e pelas cabines e salas de imprensa nos estádios, até os camarotes onde os cartolas brindam suas conquistas financeiras.

Criar novos Barbosas – Barbosa foi o goleiro da Copa de 1950 que o Brasil perdeu por 2 a 1 do Uruguai — parece desnecessário e injusto, como assinalou José Trajano, comentarista da ESPN. Vaiar Freds, Hulks e Júlios nos estádios é tão sensato quanto vaiar a Dilma Rousseff. Porém, o brado retumbante desgostoso da torcida brasileira do Oiapoque ao Chuí, nos estádios, nas casas, nos churrascos e botecos do país, reflete a ineficácia, o atraso e a ignorância do futebol brasileiro, isto não significa que não temos mais material humano, ao contrário, temos. A zaga brasileira é a mais cara da história do futebol, Thiago Silva e David Luiz juntos valem 318,8 milhões de reais, Neymar é o novo candidato a melhor jogador do mundo, Marcelo foi campeão do torneio de clubes europeu, Bernard do americano, outros que não foram convocados também têm currículos invejáveis. Logo, se temos tantos jogadores cá, o problema pode estar em quem os comanda e, aí sim, o caso é grave. Luiz Felipe Scolari é velho para o globalizado futebol, mas antes de Luiz Felipe Scolari ser velho, o próprio futebol brasileiro já o é. Entenda…

O Brasileirão é um forte candidato ao mais competitivo campeonato de futebol nacional do mundo na atualidade — o argentino, o inglês e o italiano também são bons concorrentes — e parte da crônica esportiva e os apaixonados por futebol sempre batem nesta tecla como sinônimo de qualidade futebolística, argumento frágil. O Campeonato Brasileiro é um torneio de baixa qualidade técnica e de poucas inovações táticas, é relativamente atrasado em relação a outros grandes futebóis. E como em tudo que existe no mundo, o futebol não é inerte, nem estático, reformula-se, e mais rápido que imaginamos, a considerar o próprio elenco, jogadores de futebol muitas vezes não sobrevivem duas Copas do Mundo. Isto não significa que vez ou outra não se fabrique times campeões.

Entretanto, a partir de 1982, depois da frustrante derrota do Brasil para a Itália, as coisas começaram a gradativamente mudar e inaugurou-se o futebol moderno. A consagração deste futebol zero a zero campeão é a Seleção Brasileira de 1994. E desde então assistimos às metamorfoses, porém no pós-82 a seleção que encantou, de fato, o universo futebolístico foi a da Espanha de 2010, times no Brasil não tivemos um que foi unanimidade, caso do Real Madrid ou Barcelona.

As causas que levam o futebol brasileiro a se nivelar por baixo podem ter diversas facetas, das sociológicas e culturais às esportivas e financeiras, contudo se usarmos o metafutebol já é suficiente para reconhecermos nossas muletas. A partir disso, podemos colocar Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira como protagonistas do massacre alemão. Eles são dois velhos, velhos que não se renovaram, ficaram ultrapassados, não veem que o futebol é dinâmico, a prova disso — se não bastasse a catastrófica derrota por 7 a 1 e a campanha capenga de 2014 – são as palavras do técnico Scolari quando assumiu pela segunda vez o comando da seleção brasileira, “o futebol não muda tanto” e, se for pouco, vale lembrar que Carlos Alberto Parreira estava aposentado quando foi chamado para ser o coordenador técnico e havia sido eliminado na Copa anterior ainda na fase de grupos pela África do Sul.

O substituto de Neymar no jogo contra a Alemanha — Bernard — não treinou com os titulares e o gaúcho argumentou que eles estão sempre juntos e sabem como deve-se jogar, insistiu em nomes com pouco rendimento na Copa, caso de Hulk. E não assistiu aos jogos da Alemanha, pois usou um jogo tático equivocado, mas, mesmo assim, depois do 7 a 1, ele insistiu nas coletivas em dizer que faria tudo da mesma forma e com os mesmos jogadores. Luiz Felipe pensou que a sua fórmula paternal de 2002 traria o mesmo resultado, uma vez que o futebol não muda tanto.

 

“Gostou, gostou. Não gostou, vai pro inferno”, disse Luiz Felipe Scolari sobre seu péssimo trabalho que levou a maior humilhação da Seleção Brasileira.

 

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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Todavia, nem todos os técnicos no Brasil são como Felipão, soberbos ao ponto de acharem que só porque ganharam títulos estão acima do bem e do mal. As críticas, que estavam mais para dúvidas e sugestões, eram recebidas com quatro pedras na mão, agia como um ignorante. Tite, por exemplo, depois de ganhar todos os títulos possíveis com o Corinthians, afastou-se um pouco da função de técnico para estudar as inovações futebolísticas. Muricy Ramalho depois de perder por 5 a 2 para o Fluminense no Brasileirão deste ano respondeu ao repórter que “o futebol hoje está muito diferente”, o oposto de Luiz Felipe. Estes dois são na atualidade as principais referências de técnicos no Brasil, cuja função de comandante — e não de pai — da Seleção Brasileira serviria como uma luva.

O vice-presidente da CBF, Delfim Peixoto, disse que Luiz Felipe Scolari nunca mais assumirá o comando da Seleção Brasileira, que assim seja, pois o futebol do Brasil não precisa de mamma que apara os chorões em hora de pênaltis ou abraça o capitão do time, cuja função é de liderança e na hora da decisão se acovarda (Thiago Silva nos pênaltis contra o Chile pediu a Felipão que o colocasse depois do Júlio César nas cobranças). Ou de paizões que não podem fazer uma substituição senão o filho fica triste, caso de Fred que foi posto no time reserva no treino e foi chorar as mágoas para Parreira.

A Seleção do gaúcho foi (des)motivada através da emoção, estavam todos perturbados, não conseguiam bater pênaltis, não conseguiram buscar placar, tinham que ficar trancados na Granja como se fossem galinhas em histeria. Jogadores emocionalmente alterados não seriam e não foram competentes para ganhar. E a pieguice da Família Scolari chegou ao patamar em que Parreira leu uma carta motivacional de uma “torcedora” a dar palavras de apoio ao Felipão em plena coletiva de imprensa. Mas estes foram os menores dos problemas, Luiz Felipe Scolari não perdeu por ser piegas, perdeu por ser incompetente.

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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Mauro Cezar Pereira, comentarista da ESPN, assinalou que em 1998 o estilo de Zagallo estava tão ultrapassado quanto o do Felipão está em 2014. E que em 1998 a Seleção chegou aos trancos e barrancos à final e se mascarou numa possível convulsão de Ronaldo após o insucesso. A Seleção de 2014 chegou aos trancos e barrancos na semi e só chegou até lá pois não enfrentou a Alemanha ou Holanda antes e tinha — como sempre tivemos — uma mão de obra abundante, e agora não há desculpa que se possa dar. O Barbosa em 2014 tem nome, porém, diferentemente de 1950, agora Luiz Felipe Scolari será crucificado com justiça.

Este desonroso placar pode servir como um choque de realidade para os cartolas e técnicos brasileiros. Vivemos durante muito tempo como os melhores futebolistas do mundo, temos ou tínhamos porque: o atleta do século e rei do futebol é brasileiro, tínhamos o maior artilheiro de todas as Copas, somos os maiores vencedores com cinco títulos, todos respeitam o peso da camisa brasileira, somos o único país que se classificou em todas as Copas. Se tivéssemos dirigentes e técnicos abalizados não precisaríamos passar por essa vergonha, mas precisamos para superar o atraso, foi necessário o nocaute, agora é esperar pelo rehab. E apenas mudar a comissão técnica não resolverá o problema da Seleção Brasileira, a selvagem busca de prazer e poder dentro da CBF tem que ser extinta.

 

O jogo dos sete erros

1º Erro – Escancarar o meio de campo.

Com Bernard aberto na ponta esquerda, o meio de campo tornou-se uma avenida para o time alemão.

2º Erro – Levar 5 gols em 18 minutos e não fazer nada.
Luiz Felipe Scolari não arriscou uma modificação, mesmo estando claro que o meio de campo estava deficitário.

3º Erro – Pouco treino.
Os alemães estavam bem entrosados, coberturas e passes precisos. Diferentemente dos brasileiros, os quais estavam perdidos em campo e tentavam resolver tudo individualmente.

4º Erro – Dante marcou a bola.
Em três gols da Alemanha é explícita a marcação do zagueiro na pelota, não marcava nem o adversário, nem a zona. O resultado foi uma sacola de gols.

5º Erro – David Luiz descontrolado.
A partir do quarto gol alemão, David Luiz tornou-se um meia de criação sem criatividade, a destemperança e o desespero tomaram conta do zagueiro.

6º Erro – Hulk.
Hulk é o erro, a única participação em gol que ele teve foi sofrendo a falta que o David Luiz bateu contra a Colômbia, as outras participações terminaram em erros: passes errados, chutes errados, dribles errados.

7º Erro – Marcelo e as bolas nas costas.
Depois de ter resolvido o problema com Daniel Alves, que levava muitas bolas nas costas, foi a vez de Marcelo protagonizar o papel deixando passar três bolas que resultaram em gol alemão.

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