Um pouco de comida… Um pouco de amor

Sou um admirador de mulheres inteligentes, intensas, contestadoras e com o perfil atormentado pela mesmice da vida. Em geral são as que procuram distanciar-se do cotidiano servil do politicamente correto e da hipocrisia endêmica dessa sociedade doente que finge constantemente uma banal felicidade na forma tão bem retratada pelos filmes Beleza Americana e Veludo Azul. Tenho então a maior consideração por Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Virginia Woolf, Camile Claudel, Edith Piaf, Amy Winehouse, Janis Joplin, Muktaran Bibi e tantas outras por quem me apaixonei ao longo desses anos a fio e que agora não recordo. Todas merecem homenagens em separado.

Trato agora de honrar a minha querida Billie Holiday, extraordinária companheira de tormento, e que desde o seu nascimento nunca deixou de ser maltratada pela vida. Negra e pobre, numa época em que a sociedade americana vivia o auge da segregação racial, ela foi violentada aos dez anos e internada numa casa correcional para crianças abusadas. Trabalhou aos doze anos limpando chão de prostíbulos em troca de comida, e aos quatorze cedeu de vez à miséria, prostituindo-se para sobreviver. Entrou na música por acaso e teve em Lester Young seu grande mestre, que carinhosamente lhe chamava de Lady Day.

Cantando nos clubs do Harlem em Nova York, Billie consagrou-se apresentando-se com as orquestras de Duke Ellington, Teddy Wilson, Count Basie e Artie Shaw e com Louis Armstrong. Billie cantou e gravou muito, mas foi encarcerada em 1947 por posse de droga, o que a fez com que mudasse sua carreira, indo para a Europa onde fez muito sucesso.

Em 1956, Billie foi presa pela última vez e mandada para a reabilitação que Amy Winehouse tanto despreza na sua canção Rehab. Lady Day teve uma vida pessoal e conjugal infeliz e foi maltratada pelos três homens com quem foi casada. Morreu em Nova York em 17 de julho de 1959 aos 44 anos vítima da heroína e do álcool, que lhe traziam conforto à alma atormentada. No entanto, Billie teve tempo de escrever sua autobiografia denominada Lady Sings the Blues em 1956 – quando eu tinha apenas dois anos. Sua história foi filmada em 1972 tendo Diana Ross no papel de Billie. Com rara sabedoria, ela definiu assim a sua arte e a sua vida: “Já me disseram que ninguém era capaz de cantar as palavras ‘fome’ ou ‘amor’ como eu. Talvez porque nunca pude esquecer o que estas palavras significam. Todos os Cadillacs e casacos de pele do mundo, e tive alguns, não chegam a compensar o que sofri, ou me levar a esquecer. Tudo o que aprendi em todos aqueles lugares e com todas aquelas pessoas está resumido nestas duas palavras. Você precisa ter um pouco de comida e um pouco de amor em sua vida antes de ser obrigada a se perfilar e ouvir um maldito sermão sobre como deve se comportar”.

Tenho um sonho que sempre se repete. Estou no Harlem, em um club esfumaçado qualquer e aguardo a entrada triunfal de Billie. Ela entra com as suas eternas gardênias brancas no cabelo, vai até a minha mesa e olha nos meus olhos. Sorri, talvez imaginando seja eu o homem que ela escolheu para amar, tal qual o da sua eterna canção The Man I Love, e imagina que talvez eu apareça outro dia no repente ou numa segunda ou terça-feira ou talvez nunca. Levanto, chego próximo ao seu rosto e digo: “Boa noite, Billie!” Ela me olha com ternura e começa a cantar… Someday he’ll come allong…

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