Uma revisão de arquétipos: nossa suposta introversão

Há clichês no exercício da política paranaense que se fixam, embora sua precariedade em sentido científico. Dois deles permanentes: o arquétipo de uma autofagia, muito usado para justificar a nossa dispersão, quando tem a virtude superior de opor-se ao conformismo, tão comum em nossa história, e outro, bastante empregado, o de uma timidez, de uma introspecção, de uma introversão capaz de neutralizar a fala. Nem em corrupção somos tímidos como as últimas ocorrências andam a indicar. Afinal o doleiro é da terra e ele surfou nos bilhões de dólares da CC5 do Banestado sob Lerner.

Um pouco de autofagia não faz mal a ninguém em processos de renovação político-eleitoral. Já a timidez pode timbrar os padecimentos do Hospital de Clínicas, o único nosocômio-escola que não recebe recursos federais para pagamento do pessoal, pela circunstância de que tivemos seis ministros nas áreas de saúde e educação que poderiam, se fossem mais expeditos, evitar esse drama, e mais do que isso proporcionar a federalização de pelo menos algumas das nossas universidades estaduais, como fez o gaúcho Tarso Dutra ao aninhar nesse regime todas as unidades gaúchas.

Na Educação, tivemos logo no golpe de 1964 Flavio Suplicy de Lacerda, que mobilizado para ações políticas teve destaque no Decreto 477, que interveio nos diretórios estudantis. Se fizesse no Ministério o que produziu na Reitoria como o consolidador das edificações, incluindo os centrais e o politécnico, e não se alinhasse apenas aos objetivos estratégicos da Redentora, teria sido bem mais produtivo. Mas não foi só ele, já que nosso maior político da época, Ney Braga, e seu sucessor, Euro Brandão, nada fizeram em sentido que não fosse “nacional”.

Já no fim dos anos cinquenta, quando o Paraná passou a ter ministérios, conquistamos o da Saúde com Aramis Athayde, cunhado de Munhoz da Rocha, e que iria para a Agricultura. Depois contamos ainda com Borges da Silveira e Alceni Guerra na pasta, sem que qualquer movimento fosse praticado em defesa dos nossos interesses relativamente à federalização de universidades e recursos para manutenção do Hospital de Clínicas.

 

Distância olímpica

Hoje temos três ministros como já havíamos conquistado quando Gleisi Hoffmann pegou o posto-chave da Casa Civil, o mesmo espaço do “premier” José Dirceu. É claro que ela, por ser candidata ao governo, tem sido apontada pelo governador Beto Richa como a causa do bloqueio aos empréstimos, quando se sabe que o maior infrator é a gestão estadual na agressão à Lei de Responsabilidade Fiscal na parte relativa a gastos demais com pessoal e de menos com a saúde.

Mas nenhum dos ministros, novamente três, com a designação do porta-voz, se envolve com as demandas provinciais, portando-se com uma distância olímpica dos varejos da aldeia como se deu com outros tantos em épocas diversas. O que há é excesso de escrúpulos na atenção ao regional na preponderância conferida ao que tem caráter e expressão nacional. No evento das enchentes isso se confirma.

Tirando o caso impactante da posição de Munhoz Rocha, como ministro no debate com seu colega da Fazenda, José Maria Withaker, na Reforma Cambial na gestão Café Filho, defendendo os interesses do nosso principal produto, o café, normalmente nosso papel é discreto e sem lances dramáticos como o da saída de Karlos Rischbieter da pasta do Planejamento, altamente afirmativa. Alguns dos nossos ministros serviram-se dos quadros da instituição como estafe, e em raros casos aproveitamos recursos humanos locais distanciando-se daquilo que colocamos como caricatural em relação especialmente aos nordestinos e da ação mineira que transformou o seu banco de fomento com seus quadros invadindo gabinetes federais.

Essa contenção nos tem prejudicado e aprofundado o conceito de que não há reciprocidade nas relações com a União, o que é verdadeiro e histórico, mas não tapa o buraco de irresponsabilidades como a destruição do modelo de gestão financeira nos dois últimos governos estaduais, especialmente o atual, e que se procura remendar agora com as atuações corretoras de Luis Eduardo Sebastiani, uma nova concepção de “sebastianismo” que não é retorno, mas recuperação.

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