A música do Prata

Foto: Elisandro Dalcin

Documentário de Luciano Coelho mostra a borbulhante e contemporânea música feita no eixo Brasil-Uruguai-Argentina

 

Quando Zé Celso Martinez no teatro, Glauber Rocha no cinema e, sobretudo, Caetano Veloso e Gilberto Gil na música fundiram elementos dos mais diversos de maneira híbrida e sincrética sabiam que estavam a dar um novo rosto à cultura popular, era algo que já existia, já estava pronto no seio da brasilidade, só faltava pôr no liquidificador e bater.

Caetano e Gil bateram Beatles com Bossa Nova, Luiz Gonzaga com Jazz, Samba com Jovem Guarda. Dava-se início assim, no final dos anos 1960, ao Tropicalismo, movimento que buscou expressar o velho de jeito novo. Introduziram no que viria a ser a MPB a guitarra elétrica, um dos grandes símbolos que marcou a história tropicalista. Em 1967, costumes velhos de ditaduras e marchas, artistas reuniram-se contra este instrumento, a ala conservadora emepebista, inflamada pelo nacionalismo, acreditava que a guitarra não traria somente o instrumento em si, por trás dela tinha “um monte de lixo americano”, como falou Chico de Assis, um dos jurados nos famosos Festivais de Música Popular. A galera da Jovem Guarda, influenciada pelo rock americano e pela americanização, com suas bandinhas de rock e cortes de cabelo, foi posta à margem da dita Música Popular Brasileira.

Porém, Caetano e Gil, e não só eles, que fique bem claro, deram um jeito de unir o programa de Carlos Imperial, responsável por revelar os talentos da Jovem Guarda, com músicas de Carmen Miranda. Conseguiram. Ponto positivo.

O Brasil, no entanto, vai além do eixo Rio-São Paulo ou na melhor das hipóteses Sudeste-Nordeste. Há outras coisas que ficaram à margem do Tropicalismo, a começar com o próprio nome. Pois para quem tem o mínimo de conhecimento de geografia sabe que o Brasil não é só litoral, muito menos exclusivamente tropical, pois do Trópico de Capricórnio para baixo revela-se o Brasil temperado.

E no Sul, como a história mostra, o país é outro, é um dos vários brasis. E querer unir todos num único estereótipo é algo descabido e impossível. Por menos deterministas biológicos que sejamos, o clima não permite que nós sulistas tenhamos uma vivência tropical, tropicalista talvez, mas com uma identidade própria. Foi isso que fez Vitor Ramil.

O compositor de Pelotas não se identificou como um brasileiro tropical e acertou na escolha. Cá no Sul temos frio, precisamos nos encapar para sair de casa, temos neve e geadas. Temos nossa cultura e necessitamos de uma estética que nos una. Ramil sugeriu a “estética do frio”, escreveu um livro para descrevê-la, eis o que diz: “Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do Extremo Sul, contribuíamos minimamente; havia uma ideia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças”, ele vendeu seu peixe e aplicou sua estética para os gaúchos, mas a apropriação dela para os que habitam a região Sul e se identificam com tal cultura parece válida.

O sentimento de distanciamento das pessoas do Sul com o resto do Brasil, talvez pela grande carga de imigrantes, ou pelos desfechos históricos, em determinados aspectos, poderia marginalizar esta parte do país, mas Ramil expressou de maneira sensata a região Sul:“Não estamos à margem, mas ao centro de uma outra história”.

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Daniel Drexler. Foto: Cristobal Severin Garces

Linha fria do horizonte

O hibridismo sulista é tão rico quanto o brasileiro, talvez mais. Estamos a fazer três fronteiras políticas e uma linguística, no caso do Rio Grande do Sul. Logo, a interlocução é enriquecedora. E há algum tempo a região do Prata vive numa constante troca musical entre os músicos uruguaios, gaúchos e argentinos. Luciano Coelho, cineasta, curitibano, interessado pela música de Vitor Ramil, não necessariamente nesta ordem, resolveu documentar esse momento efervescente que já tem alguns anos e está quase a chegar numa maturidade balzaquiana. São muitos músicos envolvidos. Jorge Drexler (uruguaio), dito por Nelson Motta como o que de melhor surgiu na música brasileira nos últimos anos; Kevin Johansen (argentino), que adotou o termo “subtropicalismo”, Daniel Drexler (uruguaio), responsável pelo movimento Templadismo, além de infinitos outros.

Aqui cabem parênteses para falar sobre o Templadismo. O nome em espanhol deriva de templado, ou seja, temperado, de clima, e foi um trocadilho feito com o Tropicalismo, Daniel, influenciado pela estética do frio de Ramil, percebeu que esse triângulo amoroso musical entre Brasil, Argentina e Uruguai tinha em comum a milonga, ritmo tido muitas vezes como regionalista, folclórico. Mas a demanda de músicos que se envolveram com o Templadismo tornou a aldeia em universo, isto é, deu contemporaneidade à música.

E todo esse intercâmbio entre as culturas da região do Prata foi captado pelas lentes de Luciano Coelho no longa-metragem A Linha Fria do Horizonte. Por meio da música, o filme busca os conceitos de identidade e sincretismo cultural. A frase do crítico de cinema Amir Labaki traduz o documentário:“Eis enfim uma raridade: um documentário musical que pensa tanto quanto embala”.

O lançamento nacional será dia 19 de dezembro no Teatro Bom Jesus, às 19h, com entrada franca, no mesmo dia haverá um show com os músicos uruguaios Daniel Drexler e Dany López, o gaúcho Marcelo Delacroix e o argentino Pablo Grinjot, que fizeram parte do documentário e participam dessa miscigenação sulista que está a enriquecer a música latina.

Em 31 de janeiro de 2015, o projeto será apresentado em formato de série no Canal Brasil. Serão cinco episódios de cerca de 30 minutos cada. O primeiro aborda Vitor Ramil e sua relação com Pelotas/Satolep; o segundo será sobre a Estética do Frio e o Templadismo; o terceiro, sobre a Milonga; o quarto, sobre Jorge Drexler e a fronteira; e o último episódio, sobre Kevin Johansen, novos cancionistas argentinos e o intercâmbio entre os músicos.

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Vitor Ramil. Foto: Elisandro Dalcin

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