Em 10 vezes, por favor!

Estamos em dezembro, Natal, férias, viagens, décimo terceiro e tudo mais. Um tempo de consumo, de muitas ofertas, de muitas propagandas e de muitos gastos

 

Prestações, prestações, prestações. O brasileiro gosta delas, adquire o produto e não paga na hora, frui da televisão, do carro, do smartphone, etc., etc., mas uma hora as prestações batem à porta, trazem junto um amiguinho, o juro. E o juro é aquele amigo folgado, espaçoso, que acha que estamos a serviço para suprir seus prazeres.

E mesmo sabendo que se continuar a ter como amiga a prestação, ela trará o juro junto. Insistimos. Ela é sedutora, o Iphone 6 de R$ 3.199 pode estar às mãos de muita gente no Natal próximo, uma caixinha branca com uma maçãzinha que encanta, “ah, é só parcelar em oitocentas mil vezes”.

Triste é pensar que a taxa Selic sobe, já está em 11,25%, isso que de outubro de 2012 a abril de 2013 ela bateu o recorde mínimo desde a sua criação em 1986, com 7,25%. A taxa Selic é uma base que o mercado tem para cobrar seus juros, porém é só uma base, não necessariamente a fatura atrasada do seu cartão terá uma taxa de 11,25%. Também é triste pensar que há países como o Japão, por exemplo, que a taxa de juros é de 0%, ou os Estados Unidos e França, que têm 0,25%.

Os cheques especiais viajam longe da casa dos 11%. Os juros em cima deles tiveram o maior valor em 15 anos. Em abril de 1999 bateram a marca de 193,7%, e setembro deste bateu 183,28%, ou seja, se você usar 100 reais do cheque especial virá um valor de R$ 283,28 a pagar, coisa pouca, mas se usar 1.000 reais, já fica mais puxado, vai para quase 3 mil reais.

Pensar que houve um tempo em que esse tal juro era considerado pecado dos brabos. Os católicos medievais o chamavam de usura e quem o praticasse ardia no inferno, sem conversa. Outros pecadores ainda tinham a chance de passar uma temporada no Purgatório, uma espécie de rehab. Os usurários? Esqueça! Andar de baixo, subsolo.

 

Consumo

E agora, depois desta inspiradora introdução que mostra o Brasil como um país em que fazer negócios a prazo não é um prazer, ao que interessa.
Estamos em dezembro, Natal, férias, viagens, décimo terceiro e tudo mais. Um tempo em que o sol brilha todos os dias, descolamo-nos da realidade cruel diária e vivemos nem que seja por uma semana como nativos de uma ilha, donos de um pedaço de areia. Sol, suor e cerveja. Mais uma porção de camarão, mais uma dose de caipirinha, vai pra sombra, o limão queima. É uma diversão quase sem fim, como as contas, quase sem fim.

O filho pediu o videogame do ano; tem a rematrícula do colégio, da faculdade, do inglês; a família é grande e para não ter problema no Natal tem que dar presente pra todo mundo.
As marcas, os shoppings, os eletrodomésticos, tudo isso catalisa e invade a vontade de gastar. E a famosa pergunta se repete, “débito ou crédito?” e a natural resposta, “crédito”. Crédito? Mesmo depois de todos aqueles números apresentados? Todos conhecem aqueles números, se não pelos telejornais, pelos correios e pela vivência com certeza. A correspondência bate à porta, uma cartinha de dois gramas, que necessita de balança de traficante para medir seu peso, porém quando aberta pesa mais que a bigorna do desenho do Papa-léguas.

O que nos leva ao consumo de coisas que não precisamos com o dinheiro que não temos? É uma pergunta que tenta ser respondida desde o início do século. O alemão Emil Kraepelin (1856-1926) e o suíço Eugen Bleuer (1857-1939) foram os primeiros a escrever sobre o comprar compulsivo (ou oniomania), de acordo com eles o que motiva o excessivo consumo é o mesmo que faz um jogador entrar num cassino e apostar incansavelmente, uma eterna busca de excitação.

Tatiana Zambrano Filomensky, coordenadora do atendimento de pacientes com Compras Compulsivas do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti) e psicóloga do ambulatório de Jogo Patológico (Amjo) do Instituto de Psiquiatria da USP, fala que uma pessoa compulsiva por compras “não consegue controlar um desejo intrusivo e repetitivo. O ato é imediatamente seguido por intenso sentimento de alívio”. Caso haja a impossibilidade de passar o cartão de crédito, a pessoa compulsiva pode ter taquicardia, sensação de desmaio iminente e irritação. Depois da tempestade vem a bonança, opa!, não nesse caso, um círculo vicioso interminável não permite a calmaria, após a sensação de alívio promovida pela compra, vem a sensação de culpa que só sara com uma nova compra, que gera nova culpa, é uma dízima periódica. Inacabável.

Esta patologia vai ao encontro com a pesquisa sobre o processo de endividamento que o Banco Central divulgou na metade de novembro.
Foram pesquisados dois perfis. O perfil 1 é de consumidores em situação de endividamento excessivo. Já o perfil 2 é para aquelas pessoas com dívidas e restrições cadastrais, isto é, as que estão com o nome no Serasa. O resultado preliminar mostrou que entre os principais fatores de endividamento destacam-se dois que se desdobram em muitos: fatos inesperados, como gravidez, perda de emprego, doença e separação (para muitos vale mais ficar endividado que mal amado); e falta de planejamento financeiro, é aqui que o consumidor compulsivo entra, é também aqui que entra o parcelamento e uso desmedido do cartão de crédito, é o amigo espaçoso juro fazendo a farra.

Os consumidores, ainda de acordo com a pesquisa do Banco Central, também se sentem vítimas das linhas de crédito, inicialmente as consideram úteis e benéficas, porém depois recebem aquela correspondência que deve ser pesada com uma precisão de arqueiro e quando aberta precisa de um halterofilista para carregar tantos números. Uns dos principais fatores que faz com que a bola de neve de dívidas aconteça é o pagamento mínimo da fatura, e isso acrescido da falta de informações claras sobre as condições da operação, com ênfase nas facilidades e benefícios, sem mencionar os riscos.

Para estes consumidores que foram “tapeados” pelas linhas de crédito nem tudo foi uma tempestade. Disseram aos pesquisadores que tornar-se-iam mais responsáveis e que parariam de ficar falando “crédito, crédito, crédito”. Parece simples não entrar em dívida, se não tem dinheiro para comprar uma televisão do tamanho de um cinema não compra, mas os publicitários e as placas a dizer off, sale, saldão, promoção, blackfriday, faz a mão tremer e coçar, leva-a até a carteira e faz a boca dizer “crédito”. Estima-se que nos Estados Unidos o impulso de comprar movimentou 4 bilhões de dólares.

Alguns podem ser reféns de aspectos biológicos relacionados ao cérebro, alguns neurotransmissores desenvolvem importante papel na regulamentação do impulso, é o caso da serotonina e da dopamina. Caso haja alterações em um ou em ambos, o sujeito pode estar mais vulnerável a desenvolver qualquer tipo de dependência: sexo, drogas, comida e até compras.

Estamos em dezembro, Natal, férias, viagens, décimo terceiro e tudo mais. Um tempo de consumo, de muitas ofertas, de muitas propagandas e de muitos gastos. O importante é manter bem ativas a serotonina e a dopamina para não cair na besteira de trocar o Iphone 5, comprado na metade do ano, pelo Iphone 6 em oitocentas mil prestações e ter que pagar juros de 11,25%.

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