Guarda-chuva, guarda-chuva sem parar

Foto: Lina Faria

 

Do tempo da primeira gota brotar no céu e cair na calçada da XV e você pensar que deixou a roupa no varal já tem pelo menos oito vendedores a gritar “guarda-chuva, guarda-chuva”

 

Quando cai a primeira gota de chuva a mente das pessoas vai imediatamente para a roupa no varal, a janela aberta e as sandálias nos pés. Há quem pense de maneira mais pueril, quem pense na frase “cê tem broxove?”, uma brincadeira dos tempos de escola. Não sei se é original e exclusiva da minha geração ou se antes e depois fizeram ou ainda fazem. A pergunta parece que fala de alguma doença muito vergonhosa, aquelas que a gente tem vergonha de contar até para a mãe ou uma alergia muito peculiar, mas não, é uma pergunta tosca se dispusermos as sílabas de outra forma, “setembro chove?”Chove!
Em Curitiba, chove setembro, outubro, novembro, dezembro e por aí vai. E por que cargas d’água você não tem um guarda-chuva quando começa a chover?

Por vários motivos, preguiça de carregar; estou sem bolsa; estou sem mochila; a previsão dizia que não ia chover; a previsão dizia que ia chover, mas o céu estava azul; vou até ali, é bem rápido e já volto; se começar a chover eu pego um táxi (que táxi? Não tem táxi na cidade, cara pálida).

Quem faz a forra com essa displicência dos curitibanos, com esse audacioso desafio a São Pedro são os ambulantes que vendem guarda-chuvas. Do tempo da primeira gota brotar no céu e cair na calçada da XV e você pensar que deixou a roupa no varal já tem pelo menos oito vendedores a gritar “é dez real, é só déizão”. Houve quem pensasse que eles saíam dos bueiros, há outra teoria que acredita que todos estão locados na Praça Rui Barbosa, onde tem um subsolo. Ninguém sabe donde eles surgem, do que eles sobrevivem, onde que pegam os guarda-chuvas. Eles são tão rápidos quanto uma chuva de verão.

 

Eudes
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Foto: Lina Faria

Eudes tem 38 anos, parece que tem quase 60, diz ser natural de União da Vitória, chegou a Curitiba há quinze anos, é ambulante há quatorze e faz oito meses que conseguiu um emprego de entregador de água numa distribuidora.

O encontrei na Rua Dr. Muricy, quase esquina com a Rua XV, estava a sair de uma lojinha de quinquilharias, carregava cinco guarda-chuvas. Quando fui falar com ele já veio a frase mais ouvida em meia hora de conversa, qual seja, “vai um guarda-chuva?”. Só queria conversar, foi simpático, aberto e me contou toda a labuta de quem vende guarda-chuva.

Foi difícil encontrar alguém como ele, os ambulantes são ariscos a muitas perguntas, até parece que estão a ser invadidos na intimidade e nos segredos mais sórdidos, mas tudo não passa de um escudo contra os fiscais. Sabem que o que fazem é uma atividade clandestina, não podem correr riscos. Um chegou a dizer que não era vendedor, “só estou levando desta loja pra aquela”.

“Eu tô na praça faz tempo já, aí os fiscais dão uma boiada.” Mas conta que já perdeu muita mercadoria. “Já vendi de tudo, eletroeletrônico, roupa, cocada, tapioca, pipoca, cigarro”, afirmou Eudes.

Enquanto conversamos, chega um sujeito querendo um guarda-chuva, pechincha e pede para que ele venda por oito, sendo que custa dez, o ambulante diz que não dá, o mão de vaca oferece nove, mas realmente não dá, é dez reais ou vai chegar em casa molhado. Desgostoso e seco o negociador vai embora.

Eudes me explica, “cara, não é porque eu quero lucrar muito em cima das pessoas, mas eu comprei esses guarda-chuvas ali na lojinha que a gente se encontrou, paguei oito reais, como que eu vou vender a oito pro cara?”.

Assim já sano uma dúvida, onde é que eles descolam os guarda-chuvas? Eudes falou que agora pega nas lojas, “os vendedores me conhecem e vendem mais barato pra mim, tudo consignado”. Houve um tempo em que quem vendia guarda-chuva conseguia ganhar dinheiro na cidade, ele aponta outros três vendedores da sua época, “olha aquele ali, é chileno, e têm mais dois nordestinos que vendiam anos atrás, esses são do meu tempo. De cabo a rabo da XV tinha no máximo dez vendedores, agora são dez a cada esquina”, lamenta com exagero e nostalgia.

Nem todos, no entanto, compram nos 1,99 da vida. Um ambulante que não quis se identificar contou que os deles vêm de São Paulo e que os estoca em sua casa, já que mora no Centro. Mas o papo dele não passou muita confiança, apesar de tudo me animou. “Se quiser entrar pra essa vida de ambulante vou te dizer que dá pra ganhar dinheiro.”

O Eudes falou a mesma coisa, disse que ganhava em torno de 3 mil reais por mês quando vivia só na rua, sem contar as regalias em não precisar dar satisfação pra chefe, não ter que conviver com pessoas inconvenientes da firma. “Eu tô na rua né, cara, e a rua é de todo mundo, trabalho quando eu quero.”

O máximo de inconveniência são os pontos, cada ambulante tem o seu, o anônimo que me incentivou a entrar na profissão é um dos poucos vendedores que não ficam a perambular pelo centro, fica estacionado – e isso justifica a pança – na saída do tubo do Pinheirinho na Praça Rui Barbosa.

 

Darci

Darci também é simpático. O encontrei na Praça Tiradentes, chovia muito forte na ocasião, e passamos a conversar pela necessidade, não pela matéria, pois tive que adquirir um guarda-chuva.“Ia ficar ensopado hein, Bin Laden”, falou, ao fazer referência à minha aparência como se fosse meu amigo mais íntimo.
Um nordestino de Alagoas, “mas todo mundo por aqui me chama de Paraíba”. Diz ter um amigo que tem uma loja no centro, aí ele armazena os guarda-chuvas que, de acordo com ele, chegam da China. “Mas como? Em contêiner?”, eu pergunto desconfiado. Ele diz que tem um esquema com outro parça: um descola os guarda-chuvas, o outro os revende.

E quando não chove, faz o que a maioria dos vendedores de guarda-chuvas, com exceção de Eudes, que serve para confirmar a regra, faz: é um periódico ambulante que vende o que querem comprar. “O que dá mais dinheiro pra mim é jogo de futebol, sempre vendo tudo.”
E como todos os outros ambulantes, que não tem exceção, mas é regra, Darci já perdeu mercadoria. “É f*, é um prejuízo danado.”

 

História do guarda-chuva

Tudo começou num dia de sol há 3.400 anos, um rei mesopotâmico não poderia se sujeitar ao calor que reinava mais que ele, a solução foi criar uma proteção para que pudesse circular sem derreter como os mortais.
A versão contemporânea guarda-chuvesca foi desenvolvida por um inglês, só seria mais óbvio se tivesse sido criada por um curitibano, mas no século 18 Curitiba ainda caminhava a passos curtos, poucos eram os pensantes neste pedaço do planeta, como diz Fábio Campana.

Jonas Hanway, comerciante inglês, obsessivo por guarda-chuvas, esforçou-se para torná-lo um artigo para cavalheiros, pois até então era exclusividade das damas. Hanway era um feminista às avessas, lutava pelos direitos iguais, pelo menos em dias de chuva.
Morreu como grandes gênios morreram, ele não descobriu que a Terra não era o centro do Universo, também não descobriu a América, muito menos inventou a lâmpada, mas, embora em vida tenha sido ridicularizado, após sua morte todos perceberam a genialidade simples que há nos guarda-chuvas. Uma falha. Os pés não se salvam. Para tanto, há as cafonas galochas.

 

De volta aos ambulantes

Eles não saem dos bueiros, eles não estão escondidos na Rui Barbosa, eles não têm a mesma história, eles são variados, todos pegam firme ou mais ou menos firme no batente, tendo a rua como local de trabalho, sem cartão-ponto, sem hora para entrar ou sair. Como em toda profissão, têm suas vantagens.

Uns moram no Centro, outros em bairros distantes, o que faz deles surgirem do nada é apenas a atenção que o trabalho exige, ventou muito, fechou o tempo? Recolhem os DVDs, passam na loja de Beltrano e catam os guarda-chuvas.
Estão como os bombeiros, sempre alerta com os fiscais, com o tempo ruim ou com o tempo bom.

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Foto: Lina Faria

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