Jeito brasileiro

Apesar da fama do “jeitinho” brasileiro, que é vista pelo viés negativo, pejorativo e muito ligado à esperteza como tentativa de se dar bem a qualquer custo, vejo com muita alegria o jeito brasileiro de ser, que não tem nada a ver com o jeitinho. Não é regido pela lei de Gerson, mas sim pela descontração, leveza, um certo descompromisso com a formalidade reta, chata e cansativa.

É bem verdade que às vezes precisa-se de muito cuidado para não atravessar a barreira da inconveniência. Para isso é preciso bom senso, como tudo na vida.
O brasileiro, via de regra, é cortês por natureza. Adora dar bom dia, esboça sempre uma tentativa de ajudar outrem em situações que possa. É solícito, tem facilidade para agrupar-se em amigos, seja para o futebol ou um joguinho de baralho, e de maneira geral pode ser visto como bem descontraído.

No trabalho, normalmente busca deixar o clima mais alegre e menos formal na presença de um chefe mais carrancudo. Talvez por isso muitas multinacionais que aqui se instalam levam choques de adaptação a esse estilo “brazuca”, mas, normalmente, são condescendentes, pois no fundo gostariam de ter também essa leveza de espírito.

Não precisamos ir longe para ver esse jeito. Querem exemplo mais emblemático que o ex-presidente Lula? Perdoando-lhe os erros de português e intervenções pretenciosas, bem como todo o verniz político que aqui não cabe, com seu jeito brasileiro de autenticidade nata, arrancou de Sua Excelência Mr. Obama a exclamação: “ele é o cara”. Por que será que o comandante supremo do império norte-americano prestou- lhe esta distinção? Certamente por identificação. Na verdade, Mr. Obama teve um acidente geográfico de nascitura, o endereço da cegonha era o Brasil, sem dúvida. Vejam a expressão nos olhos dele, é brasileira. Vejam o estilo descontraído, é brasileiro! Come hambúrguer com assessores em lanchonete, anda de sandálias havaianas nos finais de semana com a família. Lembram-se dele dançando com a primeira-dama? É brasileiríssimo.Como é bom identificar nosso jeito brasileiro de ser no presidente dos EUA.

O jeito brasileiro de ser é o jeito feliz e descontraído de viver a vida. Quem não se lembra dos garis limpando o Sambódromo após o carnaval? Sentem-se os verdadeiros astros na avenida, executando seu trabalho e fazendo evoluções num mundo à parte. Se entrevistados fossem, talvez dessem depoimentos comoventes de dificuldades de uma vida, mas não transparecem, galhardamente empunham suas vassouras e seguem desfilando seus sorrisos e contaminando a todos.

Devemos nos esforçar cada vez mais na preservação de nosso estilo, livrando-o sempre do viés negativo pertencente ao famigerado “jeitinho”, não permitindo que a globalização, que às vezes formata e pasteuriza padrões e costumes, na tentativa de tornar tudo muito “politicamente correto”, faça perder muito da essência primária das origens.
Separando o jeitinho do jeito, reafirmo minha admiração pelo encantamento que o brasileiro espalha. Não podia ser diferente, afinal Deus é brasileiro, e isso é lógico e aritmético.

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