O cão antinazista de Curitiba

“Curitiba falando para o mundo” poderia ter sido, muito antes do “Pernambuco falando para o mundo”, da Rádio Jornal do Comércio do Recife, o slogan da antiga PRB-2, hoje Rádio Clube Paranaense, uma das mais antigas emissoras no país, a segunda, diz uma amiga bem informada da história do rádio no Brasil, mais recente apenas que a atual Rádio Ministério da Educação, antiga PRA-2.

Os prefixos originais eram uma espécie de certidão de nascimento e de domicílio das poucas rádios então existentes, não só no Brasil como no mundo todo. Não me lembro de nenhum prefixo terminado no algarismo 1. Assim a mais antiga teve a letra A e o algarismo 2. A Rádio Clube Paranaense pegou a letra B e também o 2.

Outras rádios, de muito mais alcance e audiência, receberam prefixos menos expressivos. A maior de todas, a poderosa Rádio Nacional, comparável à Rede Globo de hoje, era apenas PRE-8, mas tornou-se mais conhecida por sua emissora de ondas curtas, a PRL-7. As Rádios Tupi, do Rio e de São Paulo, eram provavelmente as seguintes, em público, mas não passavam de PRG-2 e PRG-3.

O transmissor da PRB-2 não devia e não precisava ser tão potente quanto os da Nacional, que transmitia diariamente uma programação em espanhol para os demais países latino-americanos. O mercado e o público da B-2 deviam concentrar-se no Paraná ou talvez em Curitiba, mas ela podia ser ouvida bem longe daqui, assim como daqui era possível sintonizar a Nacional, as duas Tupis, com algum esforço, e à noite a Ministério da Educação e até rádios de Porto Alegre e Belo Horizonte, além, naturalmente, daquela que se proclamava “Pernambuco falando para o mundo”.

Creio que por serem as rádios ainda relativamente poucas em todo o mundo, as ondas da PRB-2 iam longe, não apenas no Brasil, mas bem longe dele. Na Segunda Guerra Mundial foram ouvidas até em Berlim. Quem me contou isso foi um jornalista paranaense da maior credibilidade, J. D. (João Dedeus) Freitas Netto, por muitos anos diretor de redação do hoje extinto jornal O Estado do Paraná.

Freitas era filho de outro jornalista, o dr. Rodrigo de Freitas, comentarista de assuntos internacionais da PRB-2. Presumindo falar apenas para um público local, para informá-lo, o dr. Rodrigo tratava sempre da guerra e criticava Hitler, provavelmente com a intenção, também, de fazer a cabeça dos muitos simpatizantes da Alemanha nazista e da Itália fascista que existiam (e em alguns casos agiam) nos Estados do sul do Brasil, sobretudo no Rio Grande e em Santa Catarina.

O dr. Rodrigo não tinha a pretensão daquele jornalzinho de Lagarto, pequena cidade de Sergipe, que, como contava um filho da terra, Joel Silveira, fez campanha contra a Alemanha nazista e, no dia da derrota desta, publicou um editorial que dizia: “Nós bem que avisamos o sr. Adolf Hitler de que sua aventura não ia acabar bem”.

Para surpresa do próprio dr. Rodrigo, seus comentários foram ouvidos na Alemanha, pela rádio escuta do governo nazista, e devem ter incomodado, porque a Rádio Berlim, em suas transmissões em português, que podiam ser captadas em todo o Brasil, desencadeou uma campanha feroz contra ele, na qual o mínimo de insultos a que recorria era chamá-lo de “o cão antinazista de Curitiba”.

Freitas integrara como enfermeiro (era ainda estudante de Medicina) as forças da FEB no teatro de guerra da Itália, e contou rindo, mas com mal disfarçado orgulho, essa façanha involuntária de seu pai. Não sei se os comentários do dr. Rodrigo de Freitas eram de improviso ou se deixaram alguns scripts. Gravações não deve haver, mas seria muito bom que se descobrisse o que ele dizia.

Espero que Freitas tenha contado com mais detalhes a seus sobrinhos, também jornalistas, Hélio de Freitas Puglieli e Rodrigo de Freitas Neto, esse episódio que me contou num encontro apressado e de passagem, na fila de um lançamento de livro. Ou que os jornais da época tenham registrado a história do cão antinazista de Curitiba. É uma bela história, que merece ser ouvida nestes dias de intolerância que estamos vivendo.

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