O delirante mundo de uma casa de swing

Ninguém é de ninguém. Ou quase isso.
A noite tudo oculta. E as mulheres dominam

 

Quarta-feira, 23h15. A loira um tanto encorpada é, à primeira vista, uma mulher sem maiores predicados. Entretanto, Vitória fala com objetividade e clareza, como se soubesse todos os segredos do mundo. Ela conduz os cinco homens da vez, que pagaram entre R$ 100 e R$ 150 para entrar na Noite dos Solteiros. Apresenta-nos os espaços internos da Desireé Swing Club, localizada num local ermo entre o Santa Felicidade e o Butiatuvinha, autointitulada a maior casa do gênero no Brasil.

“Rapazes, não constranjam as mulheres, sejam educados, conversem, mostrem interesse, mas, por favor, não forcem nada. Aqui são elas que mandam. Vejam se são respondidos ao primeiro contato, conversem com as meninas, as respeitem. Quando elas se aproximarem, mesmo que não façam o perfil de vocês, não sejam grossos. Vocês não estão numa balada qualquer para agirem como idiotas. Importante: não invadam a intimidade de casais sem que eles peçam isso. Também não bebam da bebida das mulheres que ganham drinks”, completa. Mulheres que ganham drinks.

Na Desireé, as mulheres solteiras que frequentam a casa não pagam nada. Quando é a primeira vez, elas têm direito a cinco doses gratuitas, geralmente uísque com energético. Se chegam em dupla, ainda ganham um espumante. Estou acompanhado por duas amigas. Estão empolgadas com os seus direitos.

Fernanda tem 32 anos e um decote de fazer o frentista até se perder nos cálculos do troco. Em matéria de sexo, numa escala de zero a dez, seu grau de libertinagem é onze. Mentiu: é a segunda vez que vem a uma casa de swing. A outra foi há mais de dez anos, com um namorado. Ela relembra que não pegaram ninguém, mas fizeram sexo em público por todos os cantos da casa.

Aliás, na Desireé não falta lugar para fazer sexo. Pode ser no quarto-aquário, um espaço apertado com apenas uma cama e muito papel higiênico, protegido por um vidro e feito para os curiosos e voyeurs observarem as performances dos mais exibidos. Se a porta de correr estiver aberta, significa que desconhecidos podem entrar no quarto para participar da brincadeira, modo como Vitória se refere ao ato sexual. Há também as dark rooms, salas claustrofóbicas, completamente tomadas pelo breu, onde ninguém é de ninguém, sendo até difícil saber com quem ou com o quê se faz sexo. Entre as dark rooms e o quarto-aquário, o corredor das gloryholes, onde os casais de um lado chupam solteiros do outro (ou vice-versa) através de uma parede com buracos. Por fim, os quartinhos reservados, cinzentos e sem decoração, que custam R$ 60, sem limite de tempo.

Isabela tem 21 anos, loira, 1,72 m, cabelo curto e uma certeza: sempre faria sexo com pessoas desconhecidas. “Eu gostaria de sentir um pinto inédito todo dia. Essa sensação inaugural é única.” Ela se recorda que, certa vez, diante de uma crise existencial – afinal, é uma moça de traços rodrigueanos –, fez sexo com dez homens em dez dias, usando os recursos do aplicativo Tinder. Tal como um poema de Whitman, seu ideário filosófico-sexual contém todas as esperanças, benefícios, dádivas, paixões, amores, encantos e gozos da terra.

Sentamos, nós três, numa mesa ao canto da pista, formada por jogos de luzes intensos, quatro mastros de pole dance e uma jaula da sedução acima de nossas cabeças, permitindo a folia com vista privilegiada. Muitas mulheres têm a fantasia de dançar ali sem calcinha. É quase uma hora da madrugada e a noite ainda não começou, de fato, embora já se tenha um público considerável, principalmente de mulheres de saia curta. Do lado de fora, a fila aumentou muito. De modo geral, as mulheres têm que entrar de salto, ao passo que os homens usam um traje fino, mais para esportivo. Por isso tudo, em certos momentos, a Desireé lembra uma balada da Avenida Batel transportada para um conto de Marquês de Sade.

Enquanto termino minha cerveja long neck de R$ 18, passeio pela pista tentando encontrar padrões. Mas não há padrões. Em um canto, uma coroa deliciosa, talvez uns 45 anos, rebola apenas de calcinha branca para o marido, um senhor careca e gordo. Seus seios são pequenos e bonitos. Os rapazes passam por ela, encostam em seu ombro, mas ela educadamente os repele. Ninguém insiste. Enquanto o marido vai ao banheiro, converso rapidamente com ela, Adriana. “Me sinto mais segura aqui do que em qualquer outro lugar”, define, mexendo-se de um jeito freestyle. O marido volta, ela encerra o número, senta em seu colo e beija-o freneticamente. É comovente. Ela me aponta e o marido faz um joinha pra mim, simpático, a bordo de sua camiseta da banda Pantera.

Num outro canto, quatro mulheres negras, que parecem irmãs e primas, estão um pouco tensas com o ambiente. Mas uma delas chega com uma garrafa de tequila e parece que em breve irão se soltar – a certeza de que a bebida é uma contribuição maior à civilização do que a roda. Resolvo passar no meio do grupo. Uma diz: “Ah, mana, não gosto de homem barbudo, é estranho, fica coçando o rosto”. A outra responde: “Mas quando eles chupam a gente, dá um arrepio gostoso…”.

Na entrada da pista, seis mulheres conversam sobre amenidades. Reclamam do frio e da chuva. Outra diz que não deu tempo de ir ao cabeleireiro. São garotas de programa. E muitas, de diversos estilos e estirpes. Há das potrancudas com ares de funkeira às baixinhas de traços mínimos e feições de que, após o fim da noite, irão à quermesse. Em comum, todas são lindas. Por isso, quando os homens são liberados da turnê de reconhecimento realizada pela Vitória e entram na pista, elas são as primeiras a responder aos contatos visuais. É realmente impactante.

Volto a sentar com as minhas amigas. Elas já tomaram duas doses cada uma e me chamam para dançar uma versão bem pitoresca de Everybody’s Free, do Aquagen e, se não me engano, da Rozala, um hit do final dos anos 1990 – o que faz todo sentido, já que a média etária da casa percorre dos 30 aos 45 anos: “Brother and sister together we’ll make it through”.

A música segue numa frequência algo escandalosa e Fernanda me ensanduícha entre a nossa amiga. Ela começa a esfregar seus peitos no meu rosto, o que me convence plenamente a participar do ritual. Então me beija, enquanto Isabela puxa meu cabelo para trás. Viro-me e beijo-a. Fernanda começa a massagear minha bunda, o que me incomoda um pouco. Recuo um pouco para que nós três nos beijemos juntos, dando as boas-vindas ao famoso sarau do beijo triplo, até que saio discretamente da sagração para que as duas se beijem violentamente, formando uma cena muito interessante. Quatro homens, que acabaram de chegar, observam quase hipnotizados.

Resolvo dar uma volta para deixá-las mais à vontade. Logo sou abordado no corredor por uma morena alta, que elogia meu cabelo. Diz que gosta de homens cabeludos e altos. Se chama Débora. “Eu sempre imagino que eles irão me bater e isso me dá tesão”. Ela chama sua amiga, Milena, uma loirinha magrinha, algo tímida, miudinha, de olhos verdes e comissão de frente invejável. “Milena, o que achou dele?” Milena me olha, chega mais perto de mim, me dá um beijo de leve e completa. “Parece o que precisamos. Mas não sei. Estou há dez dias sem dar, amiga, mas hoje não posso com homem muito bruto, não.” Débora pergunta se me incomodo de deixar que ela tome as rédeas da situação. Após meu “aval”, ela pega na minha mão e na mão da Milena e nos leva até um dos quartinhos reservados, onde uma mulher pede minha ficha e anota o preço da estadia temporária + R$ 8 referentes às duas camisinhas. Entramos no quarto e Milena tira a saia, para logo explicar com sua voz um tanto grave. “Querido, eu não posso tirar a parte de cima porque ainda estou em pós-operatório de silicone. Coloquei 300 ml em cada um. Não dá pra encostar, tá?” Débora me tranquiliza. “Compensaremos de outra forma.” Outra forma significa, no dicionário das duas moças, eu em pé, nu, vendo as duas se beijarem e chuparem meu pau sem pressa, uma semântica bem digna. Milena fecha os olhos quando faz isso, mas segura os seios para não se mexerem, o que a deixa em um tom entre o ridículo e o encantador.

Ela pede, após reclamar de um pouco de desconforto nas costas, que eu me deite na pequena cama redonda e fique com os pés no chão. Então, senta em mim, na velocidade 1, como se evanescesse e fosse virar sonata. Crio um carinho por ela. Pergunta por que estou rindo. “De você, que é uma linda.” Ela ri também, rebolando. A sua amiga se aconchega ao meu lado e me beija. Logo Milena se cansa da posição atual também, se deita e pede que eu venha por cima, mas, repete, sem encostar-me em seus peitos. Enquanto isso, Débora se masturba. Milena pede que eu seja um pouco mais rápido e então, mágica, ela diz que vai gozar, o que me diverte mais um pouco, pois desconhecia esse meu potencial de fazer mulheres gozarem rápido. E ela (diz que) goza. Então, é a vez da Débora, que insiste, com um rosto de súplica, para que eu a pegue de quatro edê uns tapas. Começo numa velocidade à Milena, que vai narrando o desenrolar dos acontecimentos: “Isso, come ela”, “Mete gostoso”, “Pauzudo delicioso”, “Faz assim que eu sei que ela gosta”. Tento não ouvir o que ela diz para não perder a ereção, por isso penso no time do São Paulo sendo campeão (eita) e, quando vejo, Débora também diz que gozou. Milena tira a camisinha e as duas voltam, então, a me chupar. Perguntam se quero gozar. Digo que não, é muito cedo. É que se eu gozar, informo, morro. Isabela e Fernanda sabem bem disso e até pediram para que eu me controlasse, assim aproveitaria melhor a noite. Milena e Débora começam a se vestir. Eu também. Levantam-se, me beijam mutuamente e voltam a se beijar. Penso que estou sendo feliz.

Saio do quarto. Débora pergunta se quero alguma coisa para beber, recuso e reencontro as minhas acompanhantes. Estão um pouco despenteadas, pois acabaram de se chupar no quarto-aquário e alguns rapazes as parabenizaram na saída pelo desempenho. Atraíram-se por um moço musculoso, que disse integrar o elenco de Malhação do ano que vem, o que me pareceu uma mentira melancólica. Mas, ainda mais triste, ele broxou e elas tiveram que se resolver sozinhas, o que não parece ter sido exatamente um problema.

São quase três horas da manhã, a casa está lotada e cometo um erro: me apaixono pela Amanda, uma das dançarinas do pole dance, cabelos castanhos, rosto de adolescente de cursinho pré-vestibular, uma tatuagem de dragão na perna esquerda. A noite total se perde em interesse. Ela dança apenas de fio dental e biquíni branco e é um espetáculo, ainda mais quando toca Satisfaction, do Benny Benassi. Os homens a apalpam constantemente, mas com alguma dificuldade: ela não para de dançar nem um segundo sequer.

Impressiona-me sua expressão de estranha felicidade, completamente desconhecida, como se realizasse um sonho antigo, dançar para ser desejada, uma personagem de velho cabaré. Ela não é prostituta, informa-me uma amiga recente – Martha, que gosta de teatro e de chupar os testículos dos homens. “Eles ficam parecendo criancinhas, de tanto prazer.” Amanda vem uma vez por semana, dança, dança, dança e vai embora.

Uma moça, de shortinho jeans, moradora do Boqueirão, e que está completamente ensandecida – não lembro o seu nome porque estou contagiado pela meta dos dez drinks da Fernanda e da Isabela, e já estamos no oitavo –, olha Amanda, enfeitiçada, até tomar uma atitude invejável: pede um beijo. A dançarina abre um sorriso – vejo que tem aparelho – e diz: “Que linda você”. O que se segue mereceria um quadro de Vermeer: Amanda dá um beijo bem caprichado na moça, sem descer da plataforma do pole dance, e dá um tchauzinho, para voltar a dançar. A moça contemplada fica com a mão na boca uns bons dez segundos. Ela cochicha algo para a amiga. Chego mais perto e ouço: “Eu vou voltar toda semana aqui”. Agora é a vez de um homem chamá-la e pedir um beijo. Mas o meu amor nega.

Intervalo para a preparação do palco. Antes chamo Isabela para um canto porque quero que ela demonstre o famoso truque oral do desaparecimento do pau, algo que só ela consegue fazer com maestria. E ela faz e ela gosta e se esforça. Isabela: mais bêbada que o sol depois de acordar. Pergunta-me se a Fernanda também faz isso. Digo que não. “Vamos ensiná-la? Vou conversar com ela.” As moças da casa estão arrumando as cadeiras porque vai ter show de strip-tease. Primeiro, o masculino. Vejo onde Amanda irá sentar e dou um jeito de ficar ao seu lado, carregando as duas amigas. Ao som de Satisfaction, mas agora dos Rolling Stones, homens depilados, morenos e musculosos vão enlouquecendo as moças, que apertam suas bundas, beijam seus peitos e parecem que vão gozar a céu aberto. Amanda está bem quietinha ao meu lado e pergunto se ela irá dançar depois. Apenas no dia 23 de janeiro, “guarde essa data, querido”, quando completará 19 aninhos. Pergunto outras amenidades, tomo coragem e digo que estou apaixonado por ela, a mulher mais maravilhosa da noite. Ela agradece, me dá um beijinho no pescoço e fala que é bondade minha porque não vi ainda a mulher que vai fazer o strip da noite. Tenho vontade de dizer que não, não tem como ser mais bonita que você, linda. Então, entra uma negra alta, ancuda, pernas grossas, vestida de odalisca, como se tivesse saído de um bar de strippers do Quentin Tarantino. E o meu coração vacila. Mas aí, quando ela tira a última peça (não sei por quê, lembro de Pedro Álvares Cabral), abraço Amanda, deixando a minha mão em sua perna esquerda, circum-navegando a tatuagem, de textura um pouco laminosa. Ela, de sua parte, descansa a sua mão pequenininha e um pouco suada sobre minha perna. Penso que poderia viver esse momento pela eternidade e um dia.

Na volta para casa, às seis da manhã, Fernanda e Isabela pedem para que eu pare o carro no acostamento da rodovia para se masturbarem juntas. Sonho de uma delas.

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