Prateleira. Ed. 158

Quem cria, nasce todo dia

capa

O constante renascer de Jaime Lerner está exposto em sua obra, em suas relações, em suas histórias, em sua vida. As experiências que acumula desde quando ainda era ajudante do pai na loja da Rua Barão do Rio Branco são o combustível para a mente inquieta e ideias que desabrocham com a facilidade de quem olha e percebe, de alguém que faz a verdadeira troca humana entre o que presencia e o que cria.

Celebrado no mundo inteiro, Jaime não passa um mês completo sem sair do Brasil. Universidades, institutos, prefeituras, empresas lotam sua disputada agenda e anseiam por um olhar, uma palavra, um conselho, um novo projeto. Constante renascer.

O lançamento da Travessa dos Editores não é uma biografia, não tem pretensões cronológicas, nem vontade de relatos completos. Trata-se de pequenas crônicas, reminiscências livres sobre momentos da vida pública, da intimidade com a família e da relação com os amigos. É um pouco de sua privança e do jeito que vive e pensa.

Quem o conhece mais de perto sabe que há muitos anos lota cadernetas com informações, frases, ideias, desenhos – um jeito de não deixar a memória o trair. Foi, também, essa coleção que o guiou. Generoso, abriu as páginas que guardam as vivências para desenvolver temas e dividir o que inspira, emociona e diverte.
No livro, além das histórias, há desenhos de embriões de projetos, alguns que conseguimos presenciar, outros que ouvimos falar e ainda aqueles que emplacaram em cidades de países distantes.

Quem cria, nasce todo dia revela das inseguranças de um garoto que espera por festa de aniversário ao início da vida profissional; do amor pelos netos à raiva que provocou em Fanny Ardant; das risadas com os amigos à perda de pessoas muito importantes em sua vida. Os recortes de cada momento sempre sublinham o jeito de se relacionar com tudo, do mais simples ao mais sofisticado, com os olhos bem abertos e a vontade de não se isolar do mundo, mas de fazer parte dele e trabalhar por sua melhoria.
Homem moderno, bem-humorado e cheio de ideias, Jaime Lerner tem muito a nos contar e ensinar. E é isso que faz nesse lançamento inédito em forma e assunto.

Adriana Sydor

Contos da Carne

DA_CARNE

Imagem: Revista Ideias

Quando Paulo sai às ruas, caminhante discreto, vê o mundo com olhos de raio X. Enxerga através da capa do cotidiano comum e encontra em cada personagem do real história para sua ficção. E seus textos se moldam assim de um jeito conciso, resumido, sintético, que expõem situações e sentimentos; às vezes, uma palavra é o gatilho para o entendimento do todo.

Os momentos narrados em Contos da Carne, lançamento da Travessa dos Editores, são mais que histórias, formam convite à reflexão sobre as mazelas urbanas, sobre os temas que estampam jornais e assombram as famílias. Há verdade e vida em tudo que se desenvolve do primeiro ao último conto.
Leitor voraz de Dalton Trevisan, é fácil encontrar em seus textos a influência do mestre, em estilo e temática.

E por que mais um livro assim?, perguntaria um leitor incrédulo. Porque sempre é preciso registrar o nosso tempo, fazer o exercício para sempre inacabado de nossa história e guardar em páginas, sob o manto da ficção, o que circula pelas ruas. Paulo Ras faz isso, repórter na pele de contista.

Tocqueville

DEMOCRACIA

Imagem: Divulgação

O intelectual francês oitocentista Alexis de Tocqueville foi um dos responsáveis pela análise da democracia contemporânea, estudou a democracia estadunidense em seu livro Da democracia na América. Fora enviado pelo governo francês aos Estados Unidos para analisar o sistema prisional, atento, fez mais que isso, viu como funcionava uma democracia, até então única no mundo. A Revolução Francesa foi analisada em O Antigo Regime e a Revolução, que segue o trecho de abertura:

“Os franceses fizeram em 1789 o maior esforço que um povo já empreendeu, a fim de, por assim dizer, cortar em dois seu destino (…). Eu sempre pensara que eles haviam obtido menos sucesso nesse singular empreendimento do que se havia acreditado no exterior e do que eles mesmos acreditaram inicialmente. (…) De tal forma que, para bem compreender a Revolução como sua obra, era preciso por um momento esquecer a França que vemos hoje e ir interrogar em seu túmulo a França que não existe mais. (…).”

Voltaire satírico

voltaire

Uma sátira de bom gosto para uns, de mau gosto para outros. O livro, que pelo que contam foi escrito em três dias, conseguiu incomodar a igreja, os filósofos, os governantes e os literatos. Mordaz, na abertura traz a frase “Traduzido do alemão pelo Senhor Doutor Ralph”, pseudônimo usado por Voltaire, logo ele que nunca se dispôs a estudar a língua por mero ódio. Ao ler Cândido ou o Otimismo, o sério não deve ser levado tão a sério e os olhos devem estar bem atentos às ironias. 

José Richa por Ivan Bueno

livro_ivan_bueno

Imagem: Revista Ideias

Zé Augusto Ribeiro, colunista da Ideias, dissera numa de suas colunas “Não se conhece ou reconhece, porém, o papel de Richa, que não era líder nem presidente de qualquer comissão importante, mas que foi, nos momentos decisivos, o constituinte mais importante, aquele que rompeu sem barulho nem ranger de dentes os mais perigosos impasses daqueles dias”. Ele falava sobre José Richa, governador e senador de nosso Estado, e a Constituinte de 1986. Caso específico.

Ivan Bueno para fazer a antítese da tese de Zé Augusto, conheceu e reconheceu José Richa. A síntese está publicada em José Richa: imagens e história de um político de verdade. Uma fotobiografia sobre um dos políticos mais importantes do Paraná.

O que amar quer dizer

IMG_9386

Imagem: Divulgação

Livro que deve ser lido, aí aproveite quando for à livraria e compre vários exemplares, pois essa será a obra que você mais irá indicar às pessoas. Mathieu Lindon relata como sua amizade com Michel Foucault mudou sua vida. Sincero, delicado e apaixonante. Fala de tudo, de drogas, sexo, livros. Insignificantes. É de um sentimentalismo nada piegas, a palavra soa até inadequada. Mas o resumo da ópera é esse: Mathieu foi filho de Jérôme Lindon, um dos maiores editores franceses, e por ele passaram Marguerite Duras, Pierre Bourdieu, Samuel Beckett, só feras. A grandiosidade do pai ofuscou a conturbada adolescência de Mathieu, superada quando – independentemente, sem qualquer manejo do pai – conhece Foucault já bem mais velho. Isso faz com que o jovem se torne um homem com ideias lúcidas e próprias. O livro passa por momentos emocionantes, tais quais a morte de Foucault em decorrência da Aids, o encontro de amizades, diálogos com o pai. Mathieu escreve muito bem, utiliza de uma cronologia descompassada. Não à toa em 2011, quando foi lançado, O que amar quer dizer ganhou o Prêmio Médicis.

Cocanha

cocanha

Imagem: Divulgação

Hoje ainda é revolucionário, país é muito republicano para tempos medievais, Benedict Anderson, craque que escreveu sobre a história do nacionalismo em Comunidades Imaginadas, talvez não concorde com o termo. Mas o que importa é que Cocanha é um lugar onde a velhice não chega, a Quaresma é só a cada duas décadas, todos os dias são de festas ou domingos; quem dorme mais, mais rico ficará; os tetos das casas feitos de bacon, as ripas do chão de linguiças; os rios deste país são feitos de vinho (parênteses meu, e só os indicados pelo Zanoni), metade de lá é tinto, metade de cá é branco. O conto da Cocanha é do século XIII, o autor? Desconhecido, mas superou Saint-Simon e Charles Fourier no quesito “utopia”. São duzentos versos octossílabos. E a história completa pode ser vista no livro de Hilário Franco Jr., Cocanha.

Do Juízo Final a A Queda

a-queda

Imagem: Divulgação

Demorou um mês, Albert Camus sentou e escreveu como os bons escritores fazem. Era para ser um conto para ser lançado na coletânea O exílio e o reino. Quando Camus viu, já tinha lá suas cem páginas e estava muito grande, merecia uma publicação. Isso tudo entre fevereiro e março de 1956. O editor recebeu-o (que maravilha ser editor de Camus) com o título Le jugement dernier (Juízo Final), nas últimas provas já era L’ordre du jour (Ordem do dia), publicaram como A Queda. Um livro muito pessoal que responde aos hostis ataques dos intelectualoides de Paris, principalmente da turminha que rodeava Sartre.

À sombra de Borges

jorge_luis_borges

Imagem: Reprodução/site borges.pitt.edu

Jorge Luís Borges é um dos maiores, senão o maior, escritores argentinos. Porém à sua sombra houve um que divide a crítica e arranca suspiros. Com Borges escreveu seis livros, entre os quais Crónicas de Bustos Domecq, de 1967.  E dizer que viveu à sombra de Borges é tamanha blasfêmia que daria o mesmo em dizer que Deus existe. Existe? Adolfo Bioy Casares existe e é um dos grandes escritores. Com literatura refinada, toques de humor e leve ceticismo, voilà!, temos Histórias de Amor, um de seus exemplares livros.

Deixe uma resposta