Quieta, feito um homem

Me calei feito um homem. Diante do espanto da declaração fiquei muda. Silêncio de mil vidas. Não adiantaria argumentar. Qualquer volta ao passado para tentar fazê-lo lembrar de situações contrárias às suas afirmações só iria nos levar à discussão, mais discussão.
Lembrei de todas as vezes em que fui compreensiva, que chorei escondida, que contei até dez, até cem, até mil para não promover briga. Lembrei dos meus domingos solitários e tristes na clausura da espera. Longa espera. Mas fiquei quieta.

Sempre concordei sem reclamar com as limitações que se erguiam em minha vida por causa de seu casamento com Fátima. E até mesmo quando o tempo passou e eu pude entender que sua união não era instável, penosa ou de vitrine eu aceitei. Fiz uma coleção de privações e me concentrei na fatia que me era dada: migalhas de tempo, restos de amor, fagulhas de atenção. Ainda assim não retruquei sua fala.

Na hora em que ele falava, lembrei que a psicóloga me disse qualquer coisa de autoestima, medo e outras bobagens que não quis desenvolver no consultório e que naquele momento pipocavam dentro de mim. E assim me comportei, era milho, houve barulho e eu virei flor branca e muda.

A conversa passou por nós como um trator. Ele, piloto, eu, capim. Reconheci a vontade de me ferir. Não havia mais Fátima. O estrondo do seu peito, as fúrias do mundo, suas incertezas e infelicidades precisavam de uma direção. E Fátima não havia mais. Não sei se ela rebatia insultos e apontava as injúrias, mas eu preferi cultivar o silêncio.

Depois de umas horas, ele veio manso, carinhoso, arrependido. Jurou não gritar mais, mas não recuou em nada do que havia dito. Se desculpou pela forma, não tratou conteúdo. Engoli. E porque havia me calado feito um homem, agora eu era sua mulher.

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