A ópera de Puerto Guamache

Bolívar, Chávez e Maduro

 

A primeira impressão que temos quando o navio atraca em Guamache, Isla Margarita, Venezuela, é que embora esteja no Caribe existe algo diferente no ar.
Comento com minha mulher que existe uma certa ordem e limpeza que não existem nas outras ilhas. O calor de 40 graus é o mesmo, mas as pessoas são mais contidas, não há assédio e o pátio de desembarque é limpo.
Com exceção de uma música extremamente alta, não se ouve conversas. Percebemos que no momento em que a ponte desce e toca o solo tem início um espetáculo operático da maior grandeza.

Do nosso lado 500 passageiros vão formar a plateia. São na maioria americanos, muitos canadenses, alguns australianos e neozelandeses, além de alguns gatos pingados de outras nacionalidades. São todos velhos e a idade média deve ser 90 anos. Nós, com 70 e poucos, somos os piás do grupo.
Descemos ao pátio que tem quiosques de lado a lado em fila perfeita, todos com aparência de novos. Cada banca tem o nome do proprietário, geralmente mulheres. Vemos com satisfação a profusão de nomes deliciosamente espanhóis: Milagros, Monserrat, Alma, Guadalupe.

Mas começamos a notar alguns detalhes comprometedores: as etiquetas que identificam as banquinhas são cuidadosamente impressas em computador, mas estão novas e brancas, como se preparadas na véspera. Há algumas mercadorias, geralmente artesanato e pérolas. Dizem que a região é conhecida pela produção de pérolas cultivadas. Minha mulher se entusiasma por um colar que parece de boa qualidade. Tudo muito barato.

Mais adiante o volume da música aumenta. São ritmos caribenhos, bem contagiantes. Mas ao prestar atenção à letra temos uma grande surpresa. Esperávamos louvores às praias de água azul-turquesa ou às belezas da mulher venezuelana, campeã nesta área. Em vez disso, o que se ouve são letras ridiculamente infantis, formadas pelos clássicos jargões: o mal capitalista, o diabo norte-americano, as virtudes do socialismo, etc.
Temos certeza que agora a plateia já suspeita de que o que vemos é uma recepção preparada antecipadamente. Passamos a observar os atores: muitos supervisores com camisas vermelhas, inclusive alguns vendedores, que se limitam a responder nossas perguntas, sem insistir na venda.

Mas o show é bom. Os atores perfeitos. Passamos pelo ponto onde em lugar da orquestra estão as seis caixas acústicas gigantescas que dão origem ao fundo musical. Difícil acreditar que tudo foi ensaiado e que não se trata de fato de manifestação espontânea. Este local, constatamos, é um quartel, embora não tenhamos visto nenhum soldado. Numa placa acima da entrada lemos: Bienvenidos Nacional Bolivariana de Venezuela 2°Esc. 2°Platon. 2°Cia. Independencia y Patria Socialista, Viviremos y Venceremos.
Com tal performance, resolvemos tirar a prova e entramos numa venda onde se concentram um bar e alguns vendedores, único lugar com wifi grátis e lento. É o ponto mais frequentado pela plateia, naturalmente, porque o acesso pelo sistema do navio é absurdamente caro.

Nos aproximamos de uma vendedora porque minha mulher se encantou com um vaso de cerâmica branca decorado com motivos geométricos. Perguntamos o preço – absurdamente barato. Resolvemos comprar a peça. A vendedora beija o vaso antes de embalá-lo e nos passar. Por que, perguntou minha mulher. “Porque es el ultimo. No hay mas. Son hechos pelos índios que ahora ocupan mejores condiciones de trabajo”, respondeu a vendedora.

Mas minha mulher é arguta e percebeu uma nota de discurso pronto e sorrateiramente perguntou: “como anda a situação aqui?”. E abaixando a voz veio a revelação que a verdade é outra e que existe um temor da população em falar. “Falta todo, no hay pan ni leche, objetos de hygiene y no hay salud”. Percebemos que tudo é mesmo um jogo de cena. Ao sair do pátio onde se desenrola o espetáculo, o monumental pano de fundo: um enorme painel de dez metros de altura e 15 de largura com as fotos dos três heróis: Bolívar, Chávez e Maduro.

Nos moldes dos velhos cartazes da China pós-Revolução Cultural, as fotos não são de frente, mas meio de perfil. A cabeça de Maduro tampa um pouco a nuca de Chávez, que por sua vez tampa a parte posterior da cabeça de Bolívar, criando uma ilusão óptica em que Maduro está à frente de Chávez e este à frente de Bolívar.

Só perde para a foto de Mao, à frente da Cidade Proibida, que é ainda mais majestosa. Nossa conclusão: até nas camisas vermelhas o bolivarismo pecou por falta de imaginação.
Mas nem tudo está perdido. O sol está lá, queimando a 40 graus e tem a praia. É limpa, organizada, espreguiçadeiras e guarda-sóis arrumadinhos como nas praias da Liguria. Preferimos um bar rústico, com telhado de palha, e escolhemos uma mesa pintada com as cores vermelha, amarela e verde, de pista. Com vista para o belíssimo mar, saboreamos duas geladíssimas Soleras Light, a famosa cerveja venezuelana.

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