Notícias do poliamor em Curitiba

Cada vez mais o modelo monogâmico de relacionamento afetivo é questionado por casais em busca de maior harmonia e equilíbrio. A palavra maldita: normatividade

 

Terça-feira de carnaval. Numa casa próxima ao MON, quase cerne do Centro Cívico, um DJ comanda, entre a sala e a cozinha, uma festa parecida com um episódio de The L Word, aquele seriado norte-americano sobre a vida de um grupo de lésbicas de Los Angeles. Enquanto uma ruiva alta com calça de ginástica dança com uma loira de olhos verdes reluzentes, três mulheres contam, no sofá, suas experiências com poliamor.

Alice é a mais gabaritada. Ela e o namorado, por sinal, o DJ, regularmente se relacionam com outras mulheres, em regimes que variam da casualidade de uma noite regada à maconha e cerveja à estabilidade de tardes domingueiras na rua São Francisco, todo mundo de mãos dadas. “Eu ando apaixonada pela Isabel. Ela é muito linda. Aliás, ela estava mais cedo por aqui, mas como tem somente 18 anos, foi pra casa. Os pais são um pouco implicantes com ela”, diz. “Estamos todos juntos há dois meses.”

O bem-bolado de Alice e Fernando é razoavelmente simples: eles dão match no Tinder em mulheres que ambos julgam interessantes. A mulher escolhida-interessada precisa gostar dos dois e se adaptar a um modo de vida um tanto heterodoxo. Alice é escritora e bolsista da UFPR. Fernando trabalha num hotel e geralmente toca em bares alternativos aos fins de semana. Moram numa república em que as festas podem ir até o amanhecer e os chás são de Argireia Nervosa, também conhecida como Trepadeira Elefante. “Não gosto quando a mulher fica me mordendo. Detesto”, alega Alice.

O conceito de poliamor não é novo, apesar do neologismo ser coisa da metade do século 20. A palavra de dupla raiz, entre o grego e o latim, carrega em seu eixo um estatuto ético, como transparência relacional, aliança, não-descarte e consenso entre as partes envolvidas. Geralmente está dissociado do conceito de relacionamento aberto por se tratar de uma combinação mais una entre os casais, mesmo carregando em seu seio a ideia quantitativa – os adeptos são bem delicados em relação aos termos por conta das cargas pejorativas, capazes de confundir intimidade com promiscuidade.

Pode parecer pouco crível, mas relacionamento poligâmico em pouco lembra a aura de um swing ou a Teoria da Branca de Neve, da MC Mayara, “Por que só ter um se eu posso ter sete?”. “Nosso caso é um pouco fora da curva. A moça faz sexo com nós dois. Mas na maior parte dos casais que conhecemos, principalmente onde o terceiro elemento é um homem, raramente os envolvidos fazem sexo entre si. É um de cada vez. Segue sendo bem aquilo: se organizar certinho – e ninguém tiver pressa – todo mundo transa”, afirma Alice.

 

Raízes daqui e acolá

A proliferação conceitual do poliamor é coisa europeia, a partir do fim da década de 1980, embora exista um fenômeno em andamento por diversas culturas. Estima-se, nos Estados Unidos, por exemplo, a existência de mais de 500 mil casais poliamorosos. Em Portugal e no Brasil, o termo passou a ocupar o rol de experiências afetivas há pouco tempo, com movimentos organizados e amplos espaços de debate acerca dessa nova construção de identidades. [Iria usar a expressão advento da internet, mas parece algo já implícito no subconsciente coletivo.]

poliamorbs2A teórica brasileira que se leva os poliamoristas a um abraço coletivo de felicidade se chama Regina Navarro Lins, psicóloga e escritora, colunista do UOL. Eis uma de suas definições mais objetivas sobre o tema:
“Desde que nascemos, muitas coisas nos são ensinadas como verdades absolutas. Todos os meios de comunicação participam ativamente — televisão, cinema, teatro, literatura, rádio —, sem contar a família, a religião, a escola, os vizinhos. O condicionamento cultural é tão forte que chegamos à idade adulta sem saber o que realmente desejamos ou o que aprendemos a desejar. Isso ocorre em todas as áreas, portanto, também no que diz respeito ao amor. Fomos estimulados a investir nossa energia amorosa/sexual somente em uma pessoa e a acreditar não ser possível ter mais de um amor de cada vez. Para quem está vivendo essa situação, surgem muitas dúvidas a respeito dos próprios sentimentos, na mesma medida em que o sofrimento é grande para quem descobre que o parceiro (a) está amando alguém mais. Ao fazer com que todos acreditem ser impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo, o nosso modelo de amor torna inquestionável a conclusão: ‘se amo uma pessoa, não posso amar outra’ e ‘se ele ama outra pessoa é porque não me ama’.

Contudo, não duvido de que podemos amar várias pessoas ao mesmo tempo. Não só filhos, irmãos e amigos, mas também aqueles com quem mantemos relacionamentos afetivo-sexuais. E podemos amar com a mesma intensidade, do mesmo jeito ou diferente. Acontece o tempo todo, mas ninguém gosta de admitir. Há a cobrança de rapidamente se fazer uma opção, descartar uma pessoa em benefício da outra, embora essa atitude costume vir acompanhada de muitas dúvidas e conflitos”.

Na área cinematográfica, Poliamor, de José Agripino, se não é um exemplo muito profundo de direção e inventividade, representou um cisma interessante na seara do mais é mais. Narrativa das aventuras e desventuras de cinco pessoas em suas práticas poliamorosas, o documentário de 2010 explora enigmas cotidianos, sinergias e questionamentos inusuais. “Eu amo duas pessoas. Um deles é meu marido há doze anos. O outro é um rolo de seis anos”, diz uma das mulheres. Quando Agripino pergunta-lhe como faz para amar duas pessoas ao mesmo tempo, ela retruca: “Como você fez para amar sua mãe e seu pai ao mesmo tempo, na infância?”.

Talvez o principal mérito de Poliamor seja não endeusar uma posição como solução dos dramas afetivos da humanidade e tocar em temas mais espinhosos, como o ciúme e os conflitos conjugais: conteúdo obrigatório para adeptos ou pretendentes.“Eu acho o filme meio ruim, com uma montagem que envolve ficção e realidade pra lá de brega. Entretanto, ali está metade das vantagens e desvantagens das relações poliamoristas”, diz Adriana, advogada, num relacionamento estável com César e com Cláudia e Otávio, amigos de longa data. Moram todos juntos, ali para os lados da Carlos de Carvalho, um prédio azul.

 

Viagem interior

Adriana é uma loira que, se quisesse, poderia namorar um estádio inteiro. Alta, esguia e dotada de uma boca que parece querer adquirir vida própria, descobriu as possibilidades da via poliamorosa quando completou 25 anos, após uma série de relacionamentos frustrados. “Eu vivia numa espiral de homens ciumentos e possessivos. Mal podia conversar com um homem e eles surtavam. Também colaborava pra isso o fato de que eu nunca estive plenamente satisfeita com a monogamia. Até que em uma época tive de passar 15 dias no apê de um casal de amigos por conta de uma mudança confusa de apartamento. Eles me falaram da Rede Relações Livres. Fiquei curiosa com tudo. Um dia, ficamos nós três e logo em seguida eles me apresentaram ao César, com quem vivo há dois anos. É o primeiro relacionamento sadio da minha vida. Nós quatro”, alega.

 Ilustração de Carlos Garcia Fernandes


Ilustração de Carlos Garcia Fernandes

A Rede Relações Livres surgiu em Porto Alegre no fim dos anos 1990. Está se espalhando por diversas cidades brasileiras – em Curitiba já há quase uma microcélula, basta você ir às festas certas e perguntar para pessoas mais desencanadas o que elas pensam dos modelos tradicionais de relacionamento; isso ainda vai ser grande no Brasil.
O que difere os membros da RLI (leia érreli) dos demais praticantes do setor, por assim, é uma tendência de trazer o comportamento privado à esfera pública e partir para o embate sobre as bases sociais: há palestras, simpósios, discussões em centro acadêmico. A coisa é bem organizada e busca “desatar o nó da monogamia”. Vale a pena uma consulta no Google.

 

Vento forte

Diversos fatores culturais podem explicar parcialmente o crescimento no interesse por relações não-monogâmicas – não custa reiterar que a coisa toda somente se aplica quando ambos, numa relação a dois, estão devidamente informados sobre o comportamento de parte a parte: a liberação sexual das mulheres, a incompletude congênita que assola muitos mortais em relacionamentos normativos, a complexidade das relações contemporâneas ou simplesmente a vontade de transar com mais de uma pessoa sem que, para isso, tenha que se mentir, trair ou pescar no rio Araguaia de quinze em quinze dias. [Lembrando que a prática da poligamia sempre esteve presente na vida afetiva dos homens; o que vem mudando é o acordo pactual e a voz ativa das mulheres.]

“Tem só uma coisa que me incomoda no discurso dos poliamorosos: essa glorificação de um caminho. Tenho certeza de que, independentemente do formato das relações, vai dar confusão, vai ser difícil. Nós somos uma espécie complicada”, confessa a jornalista Mariana, num relacionamento monogâmico há três anos, marcado por uma aventura etílica no Rio de Janeiro em que ela traiu o namorado e ficou numa crise de consciência terrível. “É possível ser feliz e infeliz de várias formas. Isso é importante de se enfatizar. Não estamos diante de um Santo Graal dos relacionamentos. Apenas é diferente”, completa. E ela não está sozinha. Muita gente de cabeça não-hegemônica reclama do ideal de círculo encantado promovido pelos poliamoristas. “Mas, gente, ninguém está dizendo aqui que o nosso modelo de felicidade é o melhor. Apenas acho que o mundo seria melhor se mais gente se reprimisse menos”, diz Alice.

É domingo na casa de Adriana, César, Cláudia e Otávio. Adriana acordou mais cedo, pois não estava para o vinho de ontem. Ela prepara o café sem açúcar, pois Otávio está cortando algumas coisas após o início de uma dieta. Cada casal tem a sua cama, mas os dois quartos não são separados por divisórias. Às vezes alterna-se quem dorme com quem – menos os rapazes, que nunca dormem juntos. Vestida num roupão branco que torço para que caia e descabelada como quem propositalmente se descabela, Adriana pergunta-me se posso comprar um leite na panificadora ali da esquina da Vicente Machado. Está com preguiça de se arrumar. “Eu confesso não saber se o estilo de vida que levo hoje será para sempre. Na verdade, não fico pensando muito nisso. O que sei: agora me satisfaz”, afirma. Ela me dá dez reais e logo depois dá uma olhada nas duas camas. Digo que vou aproveitar para comprar o jornal do dia: muitas coisas acontecem em Curitiba. “Não leio jornais”, emenda.

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Tirinha de Tiago Silva

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