Tu me acostumbrastes

Maldição. Crava a tua mão, respira esta agonia. Colar de fogo no colo da noite. Estou cheio de sombras. Apegado a tuas lembranças. Me afogo em tuas ausências. Tenho uma solidão povoada de imagens tuas. Repleta de nostalgias. Solidão de noites e desejos, de saudade de teus risos. Da memória que não cessa e restaura tua presença de cetim, a languidez felina, da música que se repete em minha memória como se você estivesse aqui a cantarolar a mesma frase da mesma canção. Apesar da distância você me visita em sua forma etérea, sonho e fantasia, sempre despida, indescritível tigresa, lúbrica a mirar meus olhos com olhos orientais de desejo. Sinto o seu perfume, beijo sua boca, percorro seu corpo, paisagem nua, meus dedos buscam pontos cardeais, trópicos de prazer. Toco o gomo dos teus seios, sinto brotar do vértice de tuas coxas o sumo e o perfume da fome do corpo. Eu sonho você na imensidão da noite como os amantes no sonho se imaginam. Nesta noite de lua enlutada, é como se tivesse você em minhas mãos e a sensação de que você esteve assim, desde sempre em mim, mesmo antes de eu saber do teu riso e do teu cheiro. Penso em você que me corrói o sono e me obriga a escrever mensagens suplicantes, extremas. Inúteis. Hei de me fazer distante e sem memória, hei de esquecer as linhas de teu corpo, hei de ser pedra e areia, soberba e solidão, hei de olvidar o teu riso, a voz, o pranto, hei de espantar para sempre esta ansiedade de perda e despedida. Com linho trevoso cobrirei meu rosto. Nada serei além de silêncio, ausência, talvez.

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