O nome daquilo que não existe

Rabisco seu nome no pulso. Desenho suas linhas no papel, escrevo seus olhos, faço uma incisão no seu pulso, percorro o contorno das suas mãos, marco com tinta a pele que foi tantas vezes a prova do que se viveu. Caligrafia de tantos respiros, silêncios, palavras tremidas, fôlegos soltos.

A brisa que sopra da janela avisa a partida. A música para de tocar no momento em que você sai pela porta que tantas vezes entrou e inundou a sala da minha casa de frases, cansaços, porquês, senãos.

O esboço, o traço, o risco apagaram-se aos poucos, como água que cai no papel e borra o que estava lá – impresso, escrito –feito pelas minhas mãos. Suas linhas ficaram invisíveis, já não lembro como são seus cílios, não lembro das suas costas, nem de como eram suas pálpebras fechadas. Esqueci de você para lembrar de mim.

Seguro as cicatrizes dentro das palmas fechadas, finco as unhas dentro das mãos, sinto que dessa maneira guardo o ar que existiu. Quando sonho as expedições abissais da memória trazem à tona o mar repleto de peixes coloridos, dos sorrisos vastos, do porto seguro ao encostar o queixo no seu ombro, de fechar os olhos e cair, cair, cair. Quando de repente, desperto. O susto monumental de acordar e perceber que nada disso existe. A nitidez dessas coisas que não têm nome, não têm cheiro, não têm mais sentido. São apenas aqueles malditos contornos que um dia tiveram forma, cor, cheiro, um alívio na imensidão das horas tingidas com a tua história.

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