Olá, Bonecas de Cera

Cada vez mais mulheres se aventuram no submundo peculiar dos grupos de bukkake. Só não vale deixar de mandar nudes

 

Carolina é uma bissexual aventureira. Nunca teve problemas para ir a uma casa de swing, fazer sexo grupal em uma festa aleatória às três da madrugada ou se aventurar em novas práticas conhecidas através das abas de sites pornôs. Certo dia ela ouviu de uma amiga algo sobre grupos de bukkake em Curitiba. Entrou no Tinder. Então descobriu um mar de impressionismos bem diante de seus olhos. Há muitos grupos de bukkake em Curitiba.

Em linhas gerais, bukkake é a prática de uma mulher fazer sexo com muitos homens ao mesmo tempo e receber, em certo momento, na face, o esperma coletivo – o processo em que ela se torna oficialmente a Boneca de Cera. Apesar de lembrar em algumas notas o estelar Gang Bang, a coisa toda é bem mais sofisticada do que mostrar o ânus dilatado de moças para câmeras em superzoom.

As origens da técnica remetem aos japoneses – sempre eles, mestres na arte da putaria hardcore. Em uma certa época da década de 1990, o governo baixou proibições muito curiosas para a indústria pornográfica local: no more penetração explícita nos filmetes. Eis que japoneses malandros e esbeltos começaram a experimentar novas formas de burlar as regras e incrementar o prazer visual. Surgiu assim o bukkake , algo como “espirrar água”. Logo a prática de colocar mocinhas de rosto cândido para receber litros de esperma se popularizou na Terra do Sol Nascente – há quem o relacione com métodos medievais antigos de punição às mulheres adúlteras. Não demorou muito e a indústria norte-americana aderiu ao esquema. Logo o Brasilzão-BigButt estava lá reproduzindo o fetiche.

 

Boneca de Cera, aguarde sua senha

A trajetória de Carolina em busca da primeira experiência com um grupo de bukkake foi e é muito singular. Após receber um match no Tinder de um grupo chamado bukkake – Curitiba, ela começou a conversar com um sujeito chamado Rodrigo. Acontece assim: todo grupo de bukkake tem um mentor, a pessoa responsável por apresentar as regras e aceitar a mulher. Sim, aceitar a mulher. Uma característica fundamental dos pequenos coletivos é o alto padrão de exigência. A mulher precisa mandar alguns nudes para o mentor, que repassará o material para os demais membros – entre 4 e 6 pessoas, geralmente.

Um detalhe interessante é a relação quase fraternal entre os membros, em muitos casos amigos de infância que, em dado momento da cultura etílica, resolveram fundar um grupo de bukkake. Quem nunca pensou nisso, né? Por isso, a mulher precisa ser acolhida por todos na irmandade. Se um não gosta do perfil, ela é sumariamente descartada. O processo pode ser assim, drástico: há filas para ser uma Boneca de Cera, é preciso ser seletivo.

Carolina não foi descartada. Morena, 30 anos, belos peitos e um rosto excelente para caprichos sexuais, bastaram três fotografias para o consenso – em uma delas de quatro, com um dedo no ânus. Contudo, apenas ser escolhida não significa agilidade. O grupo de Rodrigo se reúne uma vez por mês, no máximo, e tem que driblar questões comezinhas, como um e outro que é casado, quem trabalha de noite ou até mesmo quem mora em outra cidade – caso de Claudio, auxiliar de produção, morador de Almirante Tamandaré. A vez de Carolina só chegará em setembro. “Fiquei um pouco decepcionada. Queria conhecer logo. O Rodrigo me falou de tudo de um jeito tão lindo…” De fato, o sujeito detalha com afinco a dinâmica de seu grupo. Afinal, ele é o mentor. Ele determina as regras. Assim lhe parece.

 

O candelabro italiano

A primeira preocupação de Carolina era com o uso demasiado de seus orifícios. “Imagina seis homens te comendo por horas a fio? Deve chegar um estágio em que deve ficar tudo assado. Pensa o dia seguinte… A chuva de esperma nem me preocupa.” Mas não é bem assim que a coisa toda funciona. Primeiramente, é a mulher quem define o que pode e o que não pode. Quase tudo, na verdade. É certo que, em algum momento, o grupinho vai cercá-la. Como numa rodinha, ela ficará de joelhos e, um a um, os rapazes irão ejacular em seu rosto. Ela não pode retirar a porra até que o último termine, é o ato oficial de transformação da Boneca de Cera. Historicamente, a ejaculação facial é das coisas que mais geram prazer no imaginário masculino, o auge estético da dominação: ela não pode estragar o Holy Moment.

“Eu posso escolher entre ser comida apenas por um homem, enquanto todos os outros me olham; posso ser currada por dois caras ao mesmo tempo; um de cada vez por quanto tempo eu quiser ou até realizar o candelabro italiano. Ah, o candelabro italiano…”
Bem, poucas mulheres topam o mítico candelabro italiano. Você vai entender o porquê. A movimentação consiste no seguinte: a mulher deita-se de costas sob um homem que a enraba; um cara fica de pé, enfiando seu pau na via convencional; outro coloca o pau em sua boca; em cada uma das mãos ela segura mais dois paus. “Ah, não sei se conseguirei isso tudo aí. Já tenho dificuldades com o sexo anal. Às vezes é muita informação pra mim”, afirma.

Entretanto, ela conta estar um pouco mais otimista de uns tempos pra cá, pois dia desses conseguiu fazer sexo anal com um amigo de longa data e atingiu o orgasmo com a estimulação clitoriana. “Só não sei se me soltarei tanto com um time de futebol me enrabando.”

 

Um projeto de capitão chamado Rodrigo

Carolina realmente gostou de Rodrigo, tanto que o convidou para tomar uma cerveja. Queria conhecê-lo pessoalmente. “Foi a pior coisa que decidi fazer.” Ela chegou dez minutos antes do combinado, fixando-se na descrição média que havia recebido. Quando Rodrigo chegou, a decepção foi gritante. O mentor, o capitão, o líder do grupo de bukkake – Curitiba não parecia nada grandioso. “Era apenas um homem franzino, calvo, com uma barriguinha de chope, calça social e camisa bege. Como aquele cara iria realizar uma das fantasias mais hardcores que tenho? Brochei.”

Ela também descobriu que Rodrigo trabalha em uma agência bancária do Centro, é divorciado, tem um filho de 13 anos e é bissexual. Sim: os homens se tocam nos grupos de bukkake, mas não se encontram sem uma Boneca de Cera. “É difícil entender a tara dos homens. Lembro de um que sempre pedia, antes de gozar, que eu falasse ‘Dá leitinho pra gatinha?’. É estranho saber que os rapazes dos grupos podem se masturbar um ao outro e se excitarem com uma mulher escorrendo porra. Mas quem sou eu pra falar alguma coisa?”

 

Em casa, só não pode dentro

Se nem todas as mulheres têm a vontade de conhecer um grupo de bukkake, muitas sonham em fazer sexo com mais de um homem. Aline, estudante de Pedagogia, casou aos 19 anos. Aos 23 pode-se dizer que é uma das mulheres mais lindas da faculdade, dessas que entortam os rapazes no intervalo. Bissexual, de tempos em tempos ela escolhe moças para aquecer o relacionamento. “São mulheres por quem eu me interesso por aí e trago pra casa. Meu marido não liga. Às vezes ele participa também.” E quando é um homem? “É mais raro, mas o Caio não gosta de participar, e nem que os homens ejaculem dentro de mim. Ele fica olhando a gente, dizendo umas coisas pra mim e tal. Aí quando o cara tá pra gozar, ele tem de tirar o pau de dentro de mim e gozar no meu rosto ou nos meus peitos (nota de fundo: de fato, belíssimos). Meu marido gosta que os caras façam isso. Não me incomoda. É melhor que seja assim comigo do que a gente ter de reprimir ou esconder os desejos. Concorda?”
A força sem força do melhor argumento, dizia alguém.

 

Goza, cara!

Pergunto a Carolina o que faltará conhecer depois de ir a uma reunião de um grupo de bukkake. “Pois é… Já fui à casa de swing, cinema pornô, centro de massagens… Acho que chegará um momento perigoso em que não saberei mais para onde canalizar minha vontade de experiências sexuais extremas. Só que hoje não vejo a menor graça em um relacionamento convencional”, afirma. A amiga Andressa, que comentou sobre o universo bukkakiano, ainda tem curiosidade de conhecer a dinâmica. “Toda mulher sonha em dar para muitos caras uma vez na vida, ser tratada como puta mesmo, submissa, mas com regras, né? Ser apenas corpo e sensação.”

Aline recorda, com um sorriso indisfarçado, que, na penúltima vez em que levou um cara para casa, o rapaz acabou não conseguindo gozar com o seu marido olhando-o fixamente.

 

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