Palavras a Neruda

Confesso que Vivi (Pablo Neruda) é mais que um livro de memórias. É forma fosforescente num mundo soturno de linhas retas. É o marulhar persistente e terrível da tempestade no mar, que rebenta fazendo personagens com espuma, destroços de navios e embarcações naufragadas repletas de corais luminosos. É emblema em relevo, brasão da família a qual todos pertencemos. É névoa que nos enche os olhos d’água. É prosa que se torna poética ao tanger o âmago de tantas dúvidas e de tanta simplicidade, ecoantes em meu ser: canônicas. É vaca, elefantes selvagens, mangusto, cobra, cachorros e toda a criação prismada em desenhos coloridos e abstratos. É um livro de reminiscências de uma pessoa que soube viver com honestidade e que posteriormente soube escrever com a tinta da alma nos papéis cintilantes da história. É um desabafo de fragilidades, um coroamento dos atos simplórios que subvertem e desmascaram a falsa nobreza. É o testemunho de um homem que viveu; e quando lemos nos dividimos entre: a dor abissal de jamais viver a narrativa do poeta e a alegria fulgurante de, no seio do mesmo, experienciar os rasantes voos da leitura em sua vida preciosa.

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Foto: Divulgação

A tua solidão, Neruda, abarca meu coração e por consequência tange minha poesia como um professor mal pago que pega na mão de seu aluno desconhecido, o aluno sabendo estar tão distante do anterior. Insolitamente distante e desconexo de sua bravura.
Caríssimo Neruda, te digo, e não sem grande pesar: meu século vive um período negro para a poesia. Ou seriam apenas meus olhos escuros, lamacentos, encouraçados de veludo de peixes do fundo musgoso de um poço? Ao ler-te, meu corpo soa meio-dia de igreja do interior de Minas, sinos cheios de significados dos quais não me permitem compreender, enquanto meu lírico personagem escarra o negrume pútrido de um corpo doloso e covarde nos ponteiros de um relógio escroto que marca meia-noite na rua XV.

Acontece que em você há pele, experiência, supremacia, frutos e animais e árvores e verdade e volteios pelo ar invernal e investidas mundanas. Há barcos, sol, areia e perfume dos deuses. O mar em ti, Neruda, é o mais belo que meus olhos jamais foram capazes de ver, com sua espuma, sal, baús misteriosos, barcos afundados, Valparaíso e suas pessoas-tesouro-escondidas. Colombo e Wellawatha com o cântico das ondas e a exuberante voz dos nativos que jamais ouvirei em vida. Em ti descobri o tal mangusto e toda a sorte de risos e choros. Em ti lamentei ter perdido meu bom humor, se é que o tive algum dia.

Agora, pelo contrário, selando um circo antagônico de horrores que muito me amedronta, estamos nós, os poetas. Não aqueles de renome. Não aqueles grandes e incólumes. Não os bem e mal-sucedidos. Não os verdadeiros. Falo dos poetas invisíveis, dos litros de tinta podre em cadernos surrados nas mochilas dos centros urbanos, convulsivos. Um exército de desconhecidos sofrendo da compulsiva onda de ansiedade cerebral – o mal do século – que não nos permite a paz senão o medo e a síndrome do pânico apontando uma morte eminente eu vou morrer não há mais palavras bonitas que em meu peito explodem e quero vomitar o almoço vida de merda – que se transmutam na mediocridade da cultura social do mundo secundário e marginal no qual me conheço.

Nós, que quanto então embarcados, nos vemos entre milhões e trilhões de pedras ásperas, pontiagudas e ceifadoras de sonhos, pedras assassinas e sanguinárias que arrebentam soberana e poderosamente nossos humildes cascos virando cacos de caos, da popa a proa, como a dizer: seja um autômato do reino selvagem canibal urbano. E muitos de nos vão, às lágrimas ou riso doente demoníaco da loucura, de mãos dadas aos robóticos agentes da natureza, não restando então pedra sobre pedra, senão aquelas milhões e trilhões.

Afinal, como navegar com perícia num oceano desconhecido e tão estéril quanto esse? E os que superam as pedras terríveis são levados ao altar dos monstros aquáticos suntuosos e escorregadiços, que já são grandes o suficiente para devorar canoas e titanics, mas mesmo assim ainda preservam o senso conjunto das piranhas, drenando em seus estômagos glutões ancestrais até a última gota d’água respingante dos mergulhos heroicos.

De vez em quando esse quadro oceânico se faz abstrato e derretido, mas nunca seria possível compará-lo a Picasso, donde a loucura exercia sua arte genial e suprema.
Mas, apesar de tanto lastro mental opaco, a dor coletiva lancinante nos desperta para os outros. E quando lemos vocês, os mestres, há ali uma pequena luz. Pequena dada a sua distância. Uma montanha de líquens luminosos e cantantes de um passado glorioso no horizonte. A luz podemos ver. Estamos a esperar o som. Mas a fé de que ele virá e nos renderá em seu doce badalo de terra e carícia me faz juntar os destroços e martelar a carcaça da embarcação morta. Dos poemas doces de outrora faço minha âncora. Dos olhares esquivos na rua construo a luneta. Da loucura mental destilo a fórmula do rum. Da fé nos meus irmãos de mundo nasce meu papagaio que jamais se cala!
Pirata é o que somos, lançados ao mar na sorte e na maré. Com a tripulação das palavras cortantes, militantes, calmas e ávidas e escaldadas e famintas e irrefletidas e doces e caladas e rotas o barco iça as velas e espera com paciência o sopro de vocês. Dos mestres, que um dia venceram as mesmas tormentas. Somos iguais enquanto povo nesse mundo atemporal e cínico. E nem todas as armas são as de fogo, pólvora, fuligem, fumaça, estouro e fagulha, saibamos disso.

O livro de Neruda também é um sopro, afinal.
E seu hálito é quente, maternal, cadencial e retumbante. Me cheira a raízes, espuma e sal do mar, chás exóticos, noite fresca, frutas saborosas, seda, selva, estradas, charuto, dinheiro do mundo, tinta e pergaminhos, sangue e lama, cerveja e ópio, solidão e vontade de desbravar o mundo, vinícolas e arroios, incenso de rituais, cinzas e fumaça, máscaras orientais, areia calcinada, petróleo incendiado, umidade, morte e frangipana.

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