Música Erudita. Ed. 163 – A sinfonia do Novo Mundo

Antonín Dvořák. Foto: Reprodução/site beethovenfest.wordpress.com

 

Em 1891, Antonín Dvorák foi convidado por Jeanette Thurber a assumir a direção do Conservatório Nacional de Música de Nova York. Apesar do nome, uma instituição privada de fins filantrópicos. Chegou à cidade em 1892, em meio às comemorações do quarto centenário da descoberta da América. Na bagagem, o Te Deum, para ser executado nas homenagens.

Foi nesse período nova-iorquino que Dvorák escreveu a 9ª Sinfonia – do Novo Mundo, executada pela primeira vez num concerto da Sociedade Filarmônica de Nova York, dirigido por Anton Seidl, em dezembro de 1893, com o compositor na plateia do Carnegie Hall.

Ele escreveu nas notas de programa para o concerto, que “em sua chegada à América, sentiu-se profundamente impressionado pelas condições desse país e pelo espírito do qual estas eram as manifestações exteriores”. Percebeu que as obras que criava eram essencialmente diferentes das que havia composto em seu país natal. Estavam “claramente influenciadas pelas novas circunstâncias e pela vida nova de que eram a evidência material”. Ao seu editor, Simrock, em Berlim, escreveu: “O sucesso da Sinfonia foi magnífico. Os jornais dizem que nunca um compositor teve tamanho triunfo… o público aplaudiu tanto que me senti como um rei em meu camarote”.

Dvorák utilizou temas de origem indígena e negra para compor a Sinfonia, o próprio compositor escreveu, em carta a um amigo, ter tentado “apenas escrever no espírito daquelas melodias nacionais americanas”. Dvorák teve contato com a música dos negros spirituals através de Henry Burleigh, um compositor e cantor negro, aluno do Conservatório. O segundo tema do primeiro movimento invoca o “spiritual” Swing low sweet chariot.

Entre os projetos americanos não realizados, estava a composição de uma ópera com temática indígena, A Canção de Hiawatha. Mais relevante que o fato de muitos temas da 9ª Sinfonia manterem forte semelhança com temas negro-americanos, é a profusão de temas de forte individualidade, unidos por traços estilísticos comuns: quase todos se iniciam no tempo forte e se movem no intervalo de terça menor, além de repetirem o motivo inicial.

Destes temas, o primeiro, e mais importante, reaparece em todos os movimentos, e os principais temas de cada parte ressurgem no desenvolvimento e na Coda do movimento final em brilhante construção cíclica.

Após a introdução lenta, um vigoroso tema em arpejo ascendente e ritmo sincopado, tocado pelas trompas, dá início ao allegro molto. Esse tema funciona como moto unificador da obra e reaparecerá em vários momentos. Segue-se uma segunda ideia, com caráter de dança folclórica, preparando o verdadeiro segundo tema, em sol maior, na flauta, uma melodia que lembra o famoso spiritual Swing low, sweet chariot. No desenvolvimento, o retorno do primeiro tema ao lado do segundo revelará o estreito parentesco entre as duas ideias. Na recapitulação, as concepções secundárias aparecem em tonalidades contrastantes que acentuam a conclusão no mi menor principal.

O segundo movimento, largo, inicia-se com um solene coral de metais e madeiras graves, antes do célebre solo de corne-inglês, cuja melodia poderia ser associada a uma canção negra norte-americana. O contraste na parte central é criado por melodia em tom menor e início descendente, acompanhada por trêmulo de cordas. Uma transição com caráter de dança alegre, ensombrecida por súbitas reminiscências do primeiro movimento, traz de volta o largo, que termina com o coral da introdução.

O scherzo, em mi menor, com seu engenhoso tema em imitação, começando no segundo tempo, é primoroso no gênero. Na repetição da melodia principal, é notável a superposição de compassos, evocando o ritmo vertiginoso das danças folclóricas. Dois trios alternam com o scherzo, ambos com caráter de dança eslava. O primeiro de ritmo amável e caprichoso, o segundo com ritmos pontuados e trinados nas madeiras. A Coda faz ressurgir o tema do primeiro movimento, antes da conclusão, em mi menor.

O quarto movimento, allegro con fuoco, após introdução rápida, apresenta seu tema principal de caráter épico nas trompas e trompetes. Uma transformação desse tema origina a transição, que leva ao nostálgico segundo tema, no solo de clarinete. Depois de conclusão brilhante, o desenvolvimento se inicia de forma surpreendente, com os trinados de madeiras do scherzo, dramaticamente interrompidos por intervenções do primeiro tema.

Reaparece então o motivo do largo, contra um fundo agitado, derivado do primeiro tema, e um crescendo grandioso conduz à breve recapitulação dos dois temas principais. Uma conclusão tranquila, construída sobre reminiscências, precede a Coda, em que se defrontam os temas principais do quarto e primeiro movimentos.

A melodia mais conhecida de Dvorák é o tema principal do segundo movimento da Sinfonia nº 9 em mi menor, opus 95. A música em tempo de largo, é lamentosa e nostálgica e já foi adaptada em trilhas de novelas e até para comerciais de televisão. A orquestra de George Melachrino colocou este tema nas paradas de sucesso americanas na década de 1950, na edulcorada versão intitulada Goin’ Home.

O compositor Antonín Dvorák nasceu em uma pequena cidade da Boêmia, já era famoso em toda a Europa quando chegou aos Estados Unidos, em 1892. A milionária Jeanette Thurber ofereceu-lhe um salário anual de quinze mil dólares para que ele assumisse a direção do Conservatório Nacional de Música de Nova Iorque, que ela acabara de fundar.

Habituado com as diversas escolas de música da Áustria, Alemanha e ao movimento nacionalista dos criadores da nova música russa, húngara e tcheca, Dvorák exortou os músicos americanos a criar o estilo musical de seu país baseando-se na melodia dos negros e dos índios. Sua teoria lhe valeu uma série de críticas, pois o compositor não chegou a perceber que uma música afro-americana chamada jazz se tornaria a futura escola musical americana.

Durante sua permanência de três anos nos Estados Unidos, Dvorák produziu obras de alta qualidade, como a 9ª Sinfonia, opus 95, o Quarteto de cordas American, opus 96, o Concerto para Cello e Orquestra, opus 104 e os Humoresques, um conjunto de oito peças para piano, dos quais, o de número sete se transformaria numa das composições mais interpretadas em todo o mundo.

Apesar de passar as férias de verão na cidade de Spillville em Iowa, uma comunidade de imigrantes tchecos, o compositor sentia muitas saudades de sua pátria, motivo pelo qual retornou para a Europa, em 1895.

De imediato ele assumiu a direção do Conservatório de Praga e compôs duas óperas: O demônio e Kate e Rusalka. O compositor faleceu em 1904, algumas semanas após a estreia de Armida, sua última ópera, que nunca caiu nas graças do público. Até hoje, Dvorák é o mais amado e respeitado compositor tcheco.

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