Cinema. Ed. 163 – A volta de Trier ao mundo, ao álcool e ao cinema

Lars von Trier. Foto: Anne-Christine Poujoulat/www.bt.dk

 

Boa nova. Lars von Trier voltou à vida. Distante de tudo desde que foi declarado persona non grata no Festival de Cannes em 2011, por fazer humor de péssima tiragem com o nazismo, ele internou-se, passou a frequentar um grupo dos Alcoólicos Anônimos (AA) para se livrar do álcool. Agora, o genial diretor de Dogville, Melancolia e Ninfomaníaca voltou a falar com a imprensa e voltou a beber, anunciou alegremente pelo jornal britânico The Guardian.

Lars von Trier trabalha hoje na série The House That Jack Built, sobre um serial killer. A produção é prevista para a TV dinamarquesa em 2016. Agora, vejam, ele diz que a bebida deixa o artista mais “sensível”. “Eu tenho esta teoria: os cientistas dizem que 80% do trabalho feito pela nossa mente é o de controlar os sentidos. Isso quer dizer que temos filtros para bloquear algumas informações. Se você é sensível, esses filtros são um tanto falhos e a sensibilidade causa ansiedade, que nem sempre é possível administrar.” Pois, pois, parece reabilitado do desastroso caso que teve com a cantora Björk, estrela do musical Dançando no Escuro (2000). “Eu cheguei a chorar e pensar em desistir. Ela era tão louca que queria sempre fugir. Então, eu tinha de buscá-la e convencê-la a voltar. Mas ela foi uma das melhores atrizes com quem já trabalhei.”

Para nós que amamos o cinema, é notícia maravilhosa. Bom lembrar de um artigo seminal de Décio Pignatari, publicado aqui na Ideias, sobre von Trier. “Há um pequeno mistério ético-ideológico envolvendo o grupo dinamarquês Dogma, especialmente o diretor Lars von Trier, e mais particularmente o filme Dogville, pois não é comum que artistas talentosos de uma arte industrial voltada para o mercado sejam tão claramente marcados por um vinco ético-filosófico.”

Verdade. Como observou o Décio, “a crítica de cinema, embora bem informada, ainda não atinou com esse viés e toma um filme como Dogville pelo seu valor de face, ideologicamente falando –ou seja, como uma crítica social ao “império americano”, inserindo-se, ao mesmo tempo, ainda que indiretamente, no sistema europeu de resistência à hegemonia cinematográfica ianque.”

Com sua capacidade de desvendar, Décio percebeu que “o Dogma dinamarquês, hoje em fase de desfazimento consentido, entremostra vários pontos de contato com a nouvelle vague francesa, tanto pela economia de meios, compensada pela inventividade da signagem cinematográfica, como pela postura ideologizante europeia, traço que tenderia a acentuar-se em Godard, o que não parece e aparece de modo claramente discernível na grande produção italiana das três décadas que se seguiram ao pós-guerra.”

Décio continua: “Ambas as tendências parecem dizer-se adeus, uma à outra e a si mesmas, tomando o amor como tema, texto e pretexto, no início do novo século, com Elogio ao Amor (Godard) e Além das Nuvens (Antonioni/Wenders) – o primeiro, já envelhecidamente, a verbalizar o amor da película e a película do amor, com piadas curiosas sobre os EUA, enquanto Antonioni, em belas imagens e elipses narrativas, monta uma nostálgica metafísica erótica para a murmurante cerimônia de adeus dos corpos.

Mas os dinamarqueses do Dogma inovaram para além da fria exasperação sexual própria dos escandinavos, substituindo a ideologia, mesmo em sentido amplo, pela ética. Dogma introduziu o realismo ético no cinema, cuja contundência clama por um dies irae. Essa postura é diretamente influenciada pela filosofia teológico-existencial de Sören Kierkegaard (1813-1855).

Quiseram o destino e o acaso das sinapses do ser que eu me tornasse obcecado pelo absurdo absolutismo teo-existencial de Kierkegaard, e eles conduziram meus passos a Copenhague, em maio de 2004. Fotografei o largo Nytorv, residência da família, e o seu túmulo, no cemitério Assistens. Era uma semana de núpcias reais, não consegui os livros que desejava.

Mas descobri que o espírito do filósofo inspira até hoje todos os rebeldes e rebelados, individuais e grupais da Dinamarca, desde os marginais anarco-lumpen-punk, hoje praticamente confinados numa comunidade independente, no bairro de Cristiânia, até Lars von Trier (que estava filmando na Suécia) e seus “angry young men and women” do Dogma, passando pelos artistas do grupo Cobra, com sua explosão neo-expressionista da década de 1950, sem esquecer o enorme Carl Dreyer (1889-1968), de A Paixão de Joana D’Arc (1928) e de Ordet (A Palavra, 1955), de que tanto ouço falar, mas que não consegui ver até hoje.”

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