Aulas napoleônicas

Mês passado manchete em espanhol de jornal diário enunciava “morre ao fazer sexo com um espantalho”, grafado como espantapájaros. Se isso ocorresse, lá pelos anos 50, o nosso mestre de Medicina Legal na Faculdade de Direito da Universidade Federal, Napoleão Teixeira, transformaria o tema em rebuscada busca de significados.

Parecia do “Actor´s Studios” do Elia Kazam, quando olhando para o teto, sem fixar-se nos alunos, fazia descrições que mexiam com seu público: dominava a cena, carregada de referências eruditas, com vinculações ao cinema e à literatura, e às vezes produzia uma espécie de catarse que provocava até confissões públicas.

Certa ocasião, no desenvolvimento do tema “fetichismo sexual”, discorria com prazer cenas de romances, e até de histórias clássicas como a de Cinderela, que aí se enquadrassem: que era, afinal, se não um fissurado em sapatinhos o mancebo que os achou e tanto os admirava? Em nossa mente (aquele tempo era vitoriano, não solto com esse clima das novelas globais de agora) não entrava a ideia de que estória tão inocente e delicada se prestasse a esse tipo de exegese. Aquilo chocava e instruía porque ele ia avante e se transferia para as letras brasileiras com o texto A Pata da Gazela, uma versão adocicada do tema do olhar com unção das botinas da amada com José de Alencar, já de natureza tão distante dessas posturas por seu romantismo. Tanto que adequadamente Dalton Trevisan cunhou a frase: “Se Capitu não traiu Bentinho, Machado de Assis é José de Alencar”.

O mestre explicava que naquela contemplação havia um ardor de “voyeur”, um frestador clássico, e doutrinava que o fetichismo era uma abstração que se fazia de uma parte do corpo (citava a obsessão de um texto machadiano sob o título “Uns Braços”) ou do vestuário. E nesse ritmo ascendente fechava a observação: “Há pessoas, doutores, que só sentem a plenitude do gozo sexual se a parceira estiver com meias e calcinhas de determinada cor”. Na primeira fila da sala, o mais velho aluno da turma, dominado pela narrativa que bebia como se fosse champanhe, soltou o grito primal “preta, professor, preta!”.

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