Conto de bolso

Era a terceira vez que ele degustava um charuto naquela sala bem decorada com certo ar de boçalidade. No entanto, aquele ambiente o fascinava, já que na busca de satisfação de seus desejos viu naqueles frequentadores uma gama inigualável de sujeitos detestáveis e prontos para um encontro. Eram, de uma maneira geral, pernósticos e cheios de si e entabulavam conversas pseudoculturais intermináveis e cansativas. Mas naquele dia alguém muito especial lhe chamara a atenção. Era um sujeitinho de baixa estatura, todo arrumadinho, daquele tipo que passa a impressão de que acabara de sair do banho. Cabelos negros, lisos e empastados, barba cerrada, exibia costeletas longas e desenhadas. Portava uns óculos quadrados que lhe davam certo ar de almofadinha. O terno era bem cortado e ele fazia questão de exibir um lencinho no bolso do paletó no estilo puff. Gesticulava muito ao falar, passeando pelo ambiente com uma rara intimidade entre os frequentadores, abraçando uns e cutucando ferozmente outros. Recolhido num canto insignificante daquela sala esfumaçada, perscrutou a maneira peculiar de falar daquele homem que tanto lhe chamava a atenção. Notou que o dândi pronunciava as frases pelo canto da boca tal qual um ventríloquo conversando com o seu boneco. Aquilo de fato o irritou, principalmente porque o homúnculo saltitava pra lá e pra cá com um ar provocativo, teimando em passar por todas as mesas gritando teses políticas e econômicas e filosofia de botequim sem que mal movimentasse aqueles lábios finos e de claro defeito congênito. Certamente ele não fumaria mais um charuto além daquele que lhe dançava na boca insólita.

Aproxima-se suavemente o momento em que os filósofos e os imbecis têm o mesmo destino, diria Voltaire. E, de fato, o destino é mesmo engraçado, pois o daquele “filósofo” liliputiano mudou repentinamente com a entrada no ambiente de um homem de fortes traços orientais. Era de estatura também pequena, típica de sua origem, e chamava a atenção imediata porque usava roupas extravagantes. Possuía um estranho rosto achatado e uma expressão tão sarcástica que rapidamente provocou-lhe o esquecimento momentaneamente daquele irritante diletante. O oriental ultrapassou seus limites de controle, pois aos gritos discordava de todos, e tal qual um rigoroso professor primário, com um inabalável ar superior, passou a dar descomposturas nos presentes que teimavam debater os mais variados assuntos, chamando-os de burros e ignorantes e corrigindo-os acintosamente com suas teorias tolas e insensatas como se dogmáticas fossem. Seu ar provocativo e olhar cínico de comiseração com a cultura alheia selou o seu destino. Então, quando o oriental miscigenado levantou para ir ao banheiro ele foi atrás, sem ninguém notar, como sempre. Pelo espelho daquele lavabo viu a expressão apoplética estampada naquele rosto de aspecto amalgamado. Não havia mais tempo. Sentiu a lâmina afiada trespassar-lhe a garganta sem conseguir soltar um único grito, um único gemido. Estava feito, estava satisfeito. Saiu discretamente olhando pela última vez para aquele salão tomado pela bruma do tabaco e guardou bem o rosto do diletante. Quem sabe da próxima vez?

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Foto: Montagem Revista Ideias/Carlos Garcia Fernandes

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