Tempo para sonhar

Cena do filme: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

 

Pessoas ficam fortes quando se acreditam fortes, quando ousam sonhar.
Estamos perdendo nossa capacidade de sonhar. Estamos tirando o colorido de nossas vidas. Estamos vivendo, muitas vezes, em preto e branco.

Não podemos abrir mão de nossos sonhos, pois eles são nossas molas propulsoras nesta caminhada, mas lembre-se que eles são como alimentos, têm prazo de validade, são perecíveis. Não devemos ficar escravos de sonhos que não se concretizaram, ficaram apodrecidos, temos que substituí-los, para mantermos sempre a motivação e a esperança.

Às vezes, ficamos lamentando algo que não se concretizou ao invés de nos exultarmos com as nossas realizações. Temos a tendência de ressaltar o insucesso, ofuscando nossas conquistas.

O movimento natural do universo e, por conseguinte, de nossas vidas, é para frente e para cima. Algumas pessoas insistem em andar na contramão desse movimento, olhando muito para trás e para baixo. Arrastam pesadas correntes do passado, ficando muito presas a ele.
Olhar para trás algumas vezes nos ajuda a não errar onde já erramos, nos faz refletir e decidir em cima da experiência. Tem um ditado que diz: “Para entender melhor o que estamos passando, olhar para trás ajuda, porém, para vivermos a vida plenamente, o olhar tem que ser para frente.”.

Esse tempo para sonhar passa pela necessidade de mais tempo para nós. Eis aí um problema. Temos a desculpa na ponta da língua da falta de tempo que o mundo moderno gera. É estranha essa relação com o tempo, pois, como veremos adiante, hoje deveríamos ter mais tempo que antigamente. Existe uma incômoda sensação de que quanto mais tempo eu economizo menos tempo eu tenho. Senão vejamos esta comparação: antigamente você escrevia uma carta, levava-a aos correios, dentro de dias o destinatário a recebia, lia e a respondia, e novamente dentro de dias você recebia a resposta. Passava um bom tempo nesse processo todo. O mundo não tinha pressa.

Hoje não se escrevem mais cartas. Dispomos de fax, e-mail, celular, internet, tudo é na hora, resolvido instantaneamente. Se tudo é resolvido na hora e não existe aquele tempo “perdido”com as cartas, onde está o tempo que estamos “ganhando”?

O problema é que plugaram o mundo todo. Aumentaram em muito a velocidade da informação. Tudo é on-line e isso nos dá a sensação de que o tempo está passando mais depressa e que nesse caso não temos tempo de sobra. Não é um contrassenso? Como temos a percepção de que o tempo está passando mais depressa, temos que ser mais produtivos, e, com isso, aproveitamos o tempo que nos sobra para fazermos mais coisas. Que loucura! E, via de regra, estamos todos nela.

Existe um culpado? Dizem que é o preço do “progresso”. Capitalismo selvagem. Mas tem que ser selvagem? Tempo é dinheiro? Temos que transformá-lo a qualquer custo em produção para ele transformar-se em dinheiro?

Não bastasse tudo isso, estamos transformando nossos prazeres básicos, como as refeições, em verdadeiras correrias, “fast-food”. Para que perdermos tempo em almoços tradicionais? O precioso tempo de nosso almoço pode ser usado para irmos ao banco, cortar o cabelo ou coisa que o valha com todo o seu grau de “importância”. Isso quando não almoçamos no próprio escritório – para isso inventamos os “deliverys”. Não está longe desenvolvermos pílulas que substituirão nossas refeições. Em um minuto estaremos “almoçados”. Aonde chegaremos?

Só que, graças a Deus, da mesma forma que tem um mundo cada vez mais com pressa, querendo transformar cada vez mais tempo em dinheiro, oferecendo tudo via Sedex, tem outro mundo sendo redescoberto. O mundo da qualidade de vida, da leitura, da convivência familiar e com amigos. O mundo que tem tempo para a yoga e para o cinema.

E assim, meus amigos, coexistirão pacificamente as redes de fast-food com as redes de comida natural, os bate-papos pessoalmente com os “chats”, a peladinha de futebol com os amigos e os “nintendos”(como eu sou antigo, kkk).

Cada um que decida o que mais lhe apraz e viva feliz da melhor maneira possível. O que seria do verde se não fosse o azul? Não é o que dizem?

Deixo como sugestão a leitura do poema Instantes, de Jorge Luis Borges, pois traduz muito bem este artigo: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida…”. Não custa sonhar, mas para isso tem que ter tempo. Tempo para sonhar!

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