Música Erudita. Ed. 164

O último romântico

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Sergei Rachmaninoff. Foto: Reprodução/site en.wikipedia.org

Em 28 de março de 1943, aos 70 anos, faleceu em Beverly Hills, na Califórnia, o pianista, compositor e regente Sergei Rachmaninoff. Mais um compositor que ficou para sempre marcado pelo insucesso inicial de suas composições sinfônicas. Rachmaninoff foi um menino extraordinariamente dotado para o piano, mas desde a juventude queria mesmo ser compositor. O fracasso de suas primeiras obras importantes, a Sinfonia nº 1 e o Primeiro Concerto para piano e orquestra, o abateu em profunda depressão. Anos de silêncio para superar. Ele acredita que saiu dessa através do tratamento com hipnose do psiquiatra Nikolai Dahl. Fruto de seu restabelecimento foi sua obra mais conhecida: o famoso Concerto para piano e orquestra nº 2 de 1901 e dedicado a seu médico. O ar sombrio e dramático de muitas passagens desta partitura pode sugerir a titânica luta interior do músico para sair de sua prostração.

O êxito do segundo concerto para piano serviu para que o músico seguisse compondo e atuando como pianista e diretor de orquestra. Mas em 1917, com o triunfo da Revolução Soviética, decidiu exilar-se nos Estados Unidos, onde, sem abandonar de todo a atividade de compositor, desenvolveu uma triunfal carreira como concertista.

Mas voltemos à sua obra. Ouço a Sinfonia nº 2 de Sergei Rachmaninoff. Considerado o último grande compositor romântico russo, grande parte de sua obra foi composta antes da revolução russa de 1917. Sua carreira de compositor começou bem, a ópera Aleko teve boa recepção do público, até Tchaikovsky elogiou. Quando tentou a sinfonia a coisa desandou. Sua Sinfonia nº 1 gerou críticas ferozes. Dizem as más línguas que o regente Glazunov tomou umas vodcas a mais no dia da apresentação e deu tudo errado. Anos depois voltou à composição, grande parte da obra é dedicada ao piano.

Rachmaninoff teve coragem de compor mais duas sinfonias. A número 2 é a mais conhecida do grande público. Quatro grandes e longos movimentos. O primeiro com tema trágico e melodias fluentes. O segundo movimento é um Allegro Molto e, apesar do tema angustiante, a orquestra pode alcançar na execução, o brilho ideal dessa peça. O Adágio do terceiro movimento tem uma intimidade nas cordas. O quarto movimento, com seu final explosivo encerra com grandiosidade a apresentação. Um desequilíbrio que tende para o lado dos metais, sempre eles têm mais força na apresentação, encobrindo as madeiras e as cordas.

O público sempre aplaude de pé. As senhoras que estavam tirando uma pestana, acordam, se empolgam com o final majestoso e soltam a mão.

A cantata cênica

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Foto: Reprodução/site schlaile.de

Carmina Burana é uma cantata cênica que pode ser definida como uma quase ópera, pois tem a estrutura musical de uma ópera, mas prescinde da movimentação em cena por parte dos cantores e, também, por não contar uma história e por não possuir um enredo. É apenas uma declamação cantada de poemas, embora haja, em sua representação, cenários e vestuário condizente.

É uma obra coral baseada em poemas profanos escritos em latim e alemão medievais. Os temas-chave destes poemas são a exaltação que fazem ao jogo, ao amor e ao vinho. Os Carmina Burana (canções de Beuren), primeiro elemento de uma trilogia composta por Carl Orff, obtiveram um dos maiores êxitos internacionais da música contemporânea, sendo considerados uma das obras corais e instrumentais mais importantes do século 20.

Nasceram da descoberta de um rolo de pergaminho, no Convento Beneditino de Benediktbeuren, num Mosteiro da Ordem de São Bento, na Baviera, mais precisamente no sudoeste da Alemanha, em 1837. Foram extraídos dessa coleção de poemas e canções profanas medievais, provavelmente escritos entre os séculos 12 e 13.

Os Carmina Burana de Carl Orff fazem críticas mordazes às autoridades seculares e eclesiásticas, à hipocrisia e ao poder econômico da época. Compõem-se de melodias simples, de apelo popular bem ao gosto do pensamento alemão daqueles dias de ascensão do III Reich.

Esta obra coral sobre poesias medievais é eivada de exuberante alegria e fortes acentos eróticos. É uma música inteiramente original, quase sem harmonia, vislumbrando um mundo sonoro inteiramente novo e fascinante baseada só na elementar força rítmica, acompanhada por orquestra inédita, principalmente instrumentos de percussão, reforçados por pianos que acentuam o tom da partitura.

Apresentada pela primeira vez na Alemanha em 1937, musicada por Carl Orff, com a intenção de aproximar o teatro musical do grande público livrando-o da complexidade que os autores do fim do Romantismo, especialmente Wagner, haviam implantado em toda a Europa. A música é deliberadamente antirromântica, sem a menor influência wagneriana, nem tampouco tem pontos de contato com o neoclassicismo de Stravinsky nem com dodecafonismo de Arnold Schönberg.

Este manuscrito ficou durante muito tempo trancado no chamado inferno dos livros, por ter sido considerado pernicioso na visão dos monges. Seu conteúdo só foi compilado e publicado em 1847, pelo erudito de dialetos da Baviera, Johann Andréas Schumeller, quando recebeu o título latino de Carmina Burana (Canções de Beuren).

Musicalizada pelo compositor alemão Carl Orff que a transformou na obra-mestra da música do século 20, até hoje, tem sido uma das obras mais vezes interpretadas em todo o mundo. No Brasil, tem servido de tema para inúmeras propagandas de carro e bebidas.
A primeira apresentação da cantata Carmina Burana deu-se na Ópera de Frankfurt em junho de 1937, causando, nesta oportunidade, um grande impacto sobre o público e recebendo uma aclamação mundial que demonstrou que a cantata não havia perdido nada do seu efeito hipnótico.

O símbolo da Antiguidade, a Roda da Fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente a boa e a má sorte, emoldura a cantata como exalta a letra do Carmen 16.

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