Prateleira. Ed. 164

Et Cetera e tal

Uma das revistas literárias mais relevantes no cenário local e nacional, a Et Cetera teve seu primeiro número publicado no verão de 2003 e o último na primavera de 2006. Neste período foram publicadas dez edições – da zero a nove.

Editada por Fábio Campana, já no número zero, a Et Cetera mostrou a avalanche de sofisticação cultural que viria. De cara, o leitor encontrou duas arrasadoras entrevistas, uma com Arnaldo Antunes e outra com Jamil Snege; além de textos de Jorge Luis Borges, Glauco Mattoso, Augusto de Campos, Wilson Bueno e muitos outros. Publicou também precocemente nomes que se destacariam futuramente, caso de Ademir Assunção, o Pinduca, que embolsou recentemente um prêmio Jabuti.

Os cinco primeiros volumes estão esgotados, porém do cinco ao nove ainda é possível encontrar. Foi uma publicação que deixou saudades e ainda hoje muitos clamam por sua volta.

Eça versus Machado

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Eça de Queirós. Foto: Reprodução/site oactivista.com

 

Machado

Machado de Assis. Foto: Reprodução/site iphotochannel.com.br

 

Em 1878, Machado de Assis publicou uma verborrágica crítica ao segundo livro de Eça de Queirós – O Primo Basílio. Com duvidosa necessidade ousou dizer que o gajo Eça, figura icônica da Geração de 70, imitou – para usar suas palavras – o romance de Émile Zola, La Faute de l’Abbé Mouret, em sua primeira obra – O Crime do Padre Amaro.“Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio; diferença do desenlace; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos, não contestou decerto a originalidade do Sr. Eça de Queirós, porque ele tinha, e tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio até que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepção d’ O Crime do Padre Amaro”, afirmou o convicto Eleazar – Machado optou pelo pseudônimo.

Na segunda edição d’O Crime do Padre Amaro, no entanto, Eça devolveu e disse “Crime do Padre Amaro recebeu no Brasil e em Portugal alguma atenção da crítica, sobretudo quando foi publicado, ulteriormente, um romance intitulado – O Primo Basílio. E no Brasil e em Portugal escreveu-se (sem todavia se aduzir nenhuma prova efectiva) que O Crime do Padre Amaro era uma imitação do romance do Sr. Zola – La Faute de l’Abbé Mouret – ou que este livro do autor do Assommoir – e de outros magistrais estudos sociais, sugerira a ideia, os personagens, a intenção de O Crime do Padre Amaro. Eu tenho algumas razões para crer que isto não é correcto. O Crime do Padre Amaro foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e publicado em 1874. O livro do Sr. Zola, La Faute de l’Abbé Mouret ( que é o quinto volume da série Rougon-Macquart ), foi escrito e publicado em 1874”.

Biógrafos e especialistas em Eça de Queirós confirmam tal versão. Quem diria, hein?! Machado bancou o bobo. Eça win!
Em tempo: ambos os textos estão disponíveis na íntegra na internet.

Eu não sou cachorro, não

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Foto: Reprodução/site sopaodotiao.zip.net

O jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo em 2013 se envolveu na polêmica das biografias ao escrever uma não-autorizada de seu ídolo declarado Roberto Carlos. O caso teve repercussão na época e o grupo Procure Saber, liderado pela nem tão simpática Paula Lavigne e tendo como integrantes compositores como Caetano Veloso e Chico Buarque, permaneceu ao lado do Rei. O livro de Roberto teve que ser recolhido. Meses depois PC Araújo lançou um livro para falar dessa empreitada.

Porém, em 2002, Araújo já tinha um título para chamar de seu nas livrarias do país. De relativo sucesso Eu não sou cachorro, não, editado pela Record, conta a história da música cafona brasileira e sua relação com a Ditadura Militar. Um trabalho que surpreendentemente ninguém nunca havia feito. Paulo Cesar de Araújo conseguiu resgatar o lugar na história brasileira de músicos como Odair José, Nelson Ned e Paulo Sérgio, além de outros é claro. O livro visivelmente não é imparcial, contudo recupera coisas que foram esquecidas desde o sucesso do rádio de pilha.

História Social da literatura e da arte

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Foto: Reprodução/site magazinegibi.com.br

Na sua primeira publicação, em 1951, causou certa polêmica e desavença entre os intelectuais, o motivo foi o cunho um bocado marxista de sua obra. Desprezível? Jamais! Ainda hoje a História Social da Literatura e da Arte do húngaro Arnold Hauser é uma referência das boas para se compreender e estudar a arte, afinal foram dez anos dedicados para realizá-la. Antes de se fixar em Londres onde escreveu o livro, Hauser estudou arte em Budapeste, Viena, Berlim e Paris.

A mulher que escreveu a bíblia

Por Adriana Sydor

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Bom humor, malícia, ótimas sacadas e narrativa descomplicada formam o fio condutor do romance de Scliar que faturou o Jabuti de 2000.

A história parte do presente, em sessões de terapia de regressão, para caminhar pelo século 10 antes de Cristo na pele de uma das setecentas esposas do rei Salomão. Uma mulher feia, muito feia, que disputava espaço na corte com outras que carregavam todos os atributos que ela não tinha. Inteligente, com humor à prova de qualquer adversidade, ela é a única entre todas que sabe ler e escrever. E é através de habilidade tão rara que salva os seus dias ao receber a missão do marido: escrever a história da humanidade, particularmente do povo hebreu. Seu cotidiano se mistura com passagens da Sagrada Escritura e sua fluência transita entre o erudito e a mais vulgar das linguagens. Tudo é leve e descomplicado, mesmo sendo esse um livro que aponta para as mazelas dos excluídos, as dificuldades dos diferentes, as intempéries dos frustrados, a obscuridade dos anônimos.

Num tom preciso, Moacyr Scliar faz gargalhar, sem perder a linha da história, e brinda os leitores com diferentes olhares para as tramas bíblicas e a ordem social.

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