Uma travessia proustiana

No documentário de história oral do Paraná, feito pelo Bamerindus e hoje no acervo do Museu da Imagem e do Som, o professor Luis Carlos Tourinho inicia um depoimento falando sobre suas memórias de infância e notadamente dos odores de Curitiba, um mergulho sensorial no tempo. Não há como estabelecer tal paralelo com os dias de hoje até porque quando há estiagem esse modelo ecológico espanta com os miasmas dos seus bueiros e bocas de lobo, dos seus rios como o Belém e o Ivo, que cruzam o centro da cidade, condenados ao degredo de uma canalização subterrânea. Por incrível que possa parecer em alguns deles, lá pelos anos 1950, havia vida e isso tanto é verdade que quando dos estudos para a definição da área de captação no Iguaçu, os técnicos localizaram aqueles minúsculos bagrinhos que saiam da água, aos saltos, para captar o ar, fenômeno ainda visto ao longo do rio e cujos espécimes, por nossa conta e não na de ictiologistas, chamamos de “gunguito” bastante assemelhados ao limpa-fundos dos aquários.

Para reduzir a carga de toxicidade do rio naquele ponto, ali ao lado da BR-277, à esquerda de quem se dirige a Paranaguá e às praias, fizeram com que se afastasse da captação um tributário supercomprometido, o Atuba, que recebia os resíduos de uma fábrica de papel da família Leão Júnior junto ao antigo Tanque do Glaser. Esse tanque era um dos muitos balneários improvisados da cidade, já que o institucional mesmo era o do Bacacheri, a praia possível.

Quando da expansão imobiliária houve um momento em que fizeram a drenagem e eu vi, num fim de tarde, na área devastada, as garças em movimento como se buscassem na memória recompor a paisagem devastada e sáfara.

A esse tempo tínhamos ainda temperaturas baixas na cidade, geadas seguidas desde maio e já irregulares aparecendo na primavera na transição para verão, o que agora é impossível com o adensamento das construções e consequentemente o microclima que nos faz aceitar o café em produção, embora quase sempre com função ornamental, ainda que existam casos em que até mesmo no Centro Cívico haja a colheita.

Uma cidade de frutos de clima temperado – pera, maçã, ameixa, pêssego – havia de ter também odores especiais. E havia arbustos – o diretor de praças e parques Cid Marcondes de Albuquerque tentou um paisagismo nessa base com as frutinhas de campo, aquelas que como São João, em forma de balãozinho, disputávamos com os passarinhos, ao longo da avenida Paraná.

A compensação de agora são os pássaros, Curitiba com suas 366 espécies, ornamentando os jardins da cidade porque ninguém ousa como no nosso tempo persegui-los com estilingue, hoje um crime inominável. A troco de que essa reflexão num momento mais turvo do que as águas dos rios a exigir o nosso envolvimento com a situação política e social? Como dizia o poeta gaúcho essas circunstâncias passarão ‘’enquanto eu passarinho’’.

 

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Praça Tiradentes, no coração da Capital Paranaense. Ao fundo a Catedral Basílica Nossa Senhora da Luz dos Pinhais em 1950. Foto: Reprodução/site cafehistoria.ning.com

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